Teatro do Parque, Boa Vista, Recife (PE)
O slogan dos anos de 1990 da rede de supermercados nunca fez tanto sentido. Estamos progressivamente mais imersos no orgulho de ser nordestino. Esse foi o tom da noite desta terça (2), segundo dia de programação do Cine PE, com o início da Mostra Competitiva de Curta-Metragens Pernambucanos.
A programação exibiu o curta Os Ursos e Nós, dirigido por Maria Acselrad, um registro importante sobre a atividade icônica de indivíduos trajados de roupas felpudas. Os ursos, conhecidos na cultura pernambucana como La Ursa, tem um lugar de destaque no nosso imaginário, em regiões de periferia e do interior. Uma tradição carnavalesca que envolve todas as idades e segue em atividade graças ao empenho de moradores que ensaiam durante o ano inteiro com vestimentas e instrumentos de bateria ligeira.
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O filme propõe um mergulho etnográfico e sensorial nesse universo, revelando a riqueza, a pluralidade e a potência de uma tradição ainda pouco conhecida. Uma celebração da alegria coletiva e um convite ao encontro com o outro. Lindo de se ver.
Também produzido em Pernambuco, Velha Roupa Colorida é uma ficção dirigida por Pedro Fillipe e com roteiro de Eduardo Santiago sobre identidade queer e o choque geracional das questões de identidade.
Dentro da Mostra Competitiva de Curtas Nacionais, Mercado Central, dirigido por Tássia Dhur, é uma ficção kitsch ambientada no mercado público do Maranhão. Pesa um pouco nas tintas grotescas, quase como um Cláudio Assis gore.

Mas o grande momento da noite foi sem dúvidas a exibição de Os Arcos Dourados de Olinda, dirigido por Douglas Henrique. Nos pouco mais de 20 minutos, o relato sagaz e divertido sobre a inauguração de uma unidade da rede McDonalds em Olinda. O público aplaudia e gargalhava a cada ref local mostrada. Com imagens saborosas do pleito da Marim das Caetés nos anos 2000, cuja vitória foi celebrada pela então deputada Luciana Santos (PCdoB), o curta faz essa viagem no tempo para uma região metropolitana que reconhecemos de imediato e lembramos com saudade. Dos tempos em que Gibi Lanches e Textículos de Mary nos representavam bem melhor do que a atual gestão neopentecostal.
Para encerrar a noite, o longa BuenosAires, de Tuca Siqueira, trouxe um registro atento e carinhoso sobre a cidade na Zona da Mata Pernambucana homônima da capital Argentina. Difícil pensar em um jovem do bairro San Telmo com o boné do Santa Cruz Futebol Clube. Mas a população de Buenos Aires (PE) mantém uma relação curiosa de emulação dos símbolos rio-platenses. O mesmo município sede do deslumbrante Maracatu Estrela Dourada vê seus filhos divididos em partidas do Boca Juniors e Peñarol locais. O Brasil profundo é mais complexo do que percebemos.
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