CINE PE
Sandra Bertini, esposa e cofundadora de Alfredo Bertini, no palco do CINE PE. (Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação).

CINE PE 2026: da tristeza ao otimismo 

Noites de quinta e sexta-feira da trigésima edição do festival foram marcadas pela morte de seu criador Alfredo Bertini, mas também pela certeza que o evento vai continuar existindo

Se a noite de quinta-feira (4) no CINE PE foi de tensão e dor, a noite da sexta-feira (5), apesar da tristeza, foi um sopro de solidariedade, alegria e esperança de que o mais antigo festival de cinema de Pernambuco vai continuar vivo e contribuindo para o audiovisual, tal e qual vem fazendo nos seus 30 anos de existência.

Na quinta-feira, mesmo antes do início dos filmes da mostra competitiva, notícias que davam conta do estado de saúde delicado do criador do CINE PE, Alfredo Bertini já circulavam entre os presentes. Durante a exibição do longa-metragem a confirmação de sua morte em João Pessoa, causou consternação geral sobretudo pela sua partida acontecer exatamente em um momento tão marcante para o festival.

A noite de quinta foi também uma das menos interessantes em termos de programação. Os filmes exibidos não causaram muito entusiasmo em uma platéia que já estava apreensiva e desanimada. O curta da mostra pernambucana, Salam, de Bruna Tavares, apesar da curiosidade que desperta por ter como personagem uma jovem com deficiência visual do sertão do Pajeú que se converteu ao islamismo, não consegue tirar da inusitada situação uma narrativa mais tocante.

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Estudantes abraçam Sandra Bertini. (Foto: Felipe Souto Maior/Divulgação).

Na mostra competitiva nacional foram exibidos os curtas Um Certo Cinema Brasileiro, de Fábio Rogério, A Ascensão da Cigarra, de Ana Clara Ribeiro, e o longa-metragem Mapas, filme feito no Distrito Federal por Rafael Lobo. O documentário do sergipano Fábio Rogério reúne imagens de arquivo com depoimentos sobre o cinema nacional no período da ditadura militar. As opiniões dos entrevistados revelam o que sempre foi uma marca dos espectadores brasileiros: uma relação conflituosa de amor e desprezo pela nossa cinematografia.

A ficção de Ana Clara Ribeiro é um trabalho requintado e bonito visualmente, mas cuja beleza estética de tão atraente acaba se sobrepondo a uma narrativa que peca por um certo gongorismo do texto. O longa brasiliense de Rafael Lobo peca pelo mesmo motivo. É um trabalho com esmero na fotografia e na mise-en-scène, mas com uma narrativa que se pretende sofisticada, mas que não consegue criar empatia com o espectador.

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Já a sexta noite do CINE PE que tinha tudo para ser o maior baixo astral, foi uma noite de celebração e gratidão ao casal Alfredo e Sandra Bertini. A sessão do Teatro do Parque teve início com a exibição de um vídeo em homenagem a Bertini pela contribuição que deu ao audiovisual brasileiro, não só pelo festival, mas pelas inúmeras iniciativas para fortalecer a produção nacional. 

Ao final, triste, mas inspirada, Sandra agradeceu a todos e prometeu que o CINE PE e outras ações capitaneadas por eles não deixarão de ser realizadas. Prova inconteste de sua determinação foi a exibição hors-concours, logo em seguida, do documentário Guardiãs da Floresta, uma realização dos estudantes do ensino público de Jaboatão dos Guararapes, em uma oficina organizada e produzida pela Bertini Produções. Presentes ao Teatro do Parque, o grupo de moças e rapazes  protagonizou um dos instantes mais comoventes de uma noite especial.

Os curtas e longas da noite da sexta-feira também contrastaram com a mostra do dia anterior. A animação pernambucana Medo Monstro, de Andrew Gledson e Eduardo Padrão, abriu a noite com um trabalho surpreendente tanto pelo seu nível técnico, quanto pela ótima trama que mistura fantasia e alegoria política. O curta conta a história de uma garota inocente e o terror que passa a sentir ao descobrir que uma figura monstruosa está prestes a vencer as eleições e dominar tudo à sua volta. Uma excelente aula para mostrar aos jovens como evitar que a extrema direita volte ao poder.

Completaram a lista de curta-metragens o brasiliense Via Sacra, dirigido por João Campos e Da Aldeia à Universidade, documentário de Leandro de Alcântara e Túlio de Melo. A ficção de Campos tem todos os elementos de um filme de suspense e consegue envolver o espectador em sua trama e o conduz para um final não menos cativante. 

O segundo filme da mostra competitiva nacional é a primeira obra audiovisual do estado do Tocantins a ser exibida no CINE PE. Realizado na aldeia da tribo Xerente, com participação ativa de seus integrantes, o curta traz para reflexão as dificuldades cotidianas dos indígenas que passam a fazer cursos universitários. As questões que emergem não se resumem apenas aos aspectos práticos da empreitada como o deslocamento da aldeia distante até o campus, mas também os embates culturais com os quais eles passam a vivenciar no confronto entre a sua cultura ancestral e o aprendizado para se inserir na sociedade contemporânea.

Encerrando a noite, o longa-metragem de Eliza Capai fez jus aos bons comentários que antecederam sua exibição. O documentário A Fabulosa Máquina do Tempo foi exibido no É Tudo Verdade, em São Paulo, recebeu prêmio no Festival de Guadalajara no México e participou de uma das mostras paralelas do Festival de Berlim. Rodado em Guaribas, uma pequena localidade no sertão do Piauí, o filme mostra um grupo de meninas que brincam e usam a imaginação para falar do passado difícil de suas mães e avós e o que elas esperam de seus futuros.

O resultado do trabalho de Capai é envolvente tanto por conta da forma na qual o filme foi construído, com seu jogo lúdico usando o próprio cinema como estímulo à participação das meninas, quanto pela espontaneidade com que as garotas falam de suas vidas. O jogo entre fantasia e realidade, traz leveza e humor e ao mesmo tempo provoca um olhar profundo sobre um universo ainda permeado pelo machismo e a cristalização dos papéis de gênero nas pequenas comunidades do interior.

O Cine-PE prossegue hoje com uma mostra paralela a partir das 15h: a Sessão Matinê, no cinema São Luiz, com entrada gratuita, e prossegue à noite no Teatro do Parque com homenagem à atriz Cláudia Abreu e mostras competitivas de curtas e  longas. O longa-metragem da noite é o terror psicológico Onde Estamos Seguros, de Thais Scabio e Gilberto Caetano, sobre um casal negro que sofre violência racial. A solenidade de encerramento acontecerá amanhã com entrega dos prêmios “Calunga” e exibição do filme O Cobrador de Fraque, de Tomás Portela.

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