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Cena de Yellow Cake, exibido no Olhar de Cinema. (Divulgação).

Invasão pernambucana no Olhar de Cinema

Filmes de Dea Ferraz, Tiago Melo, Mariana Lacerda e o coletivo Surto & Deslumbramento descortinam uma nova safra do audiovisual de Pernambuco marcado pela inovação narrativa

Curitiba (PR)

Os termômetros marcam uma temperatura média de 15 graus em Curitiba nesta primeira semana de junho, porém a capital paranaense tem a sua estratégia particular para lidar com o frio: a 15ª edição do Olhar de Cinema, com 70 filmes espalhados em 8 mostras e sessões no Cine Passeio, tradicional epicentro do festival, e em lugares icônicos como a Ópera de Árame e o Museu Oscar Niemeyer. Há, no entanto, um elemento com potencial para injetar calor no festival, que começou no último dia 4 e se estende até 13 deste mês de junho: três longas-metragens pernambucanos, novidades que serão descortinadas pela primeira vez ao público brasileiro durante o evento, são destaques na programação. 

Yellow Cake (2026), de Tiago Melo, Telúrica, A Íntima Utopia, de Mariana Lacerda, e Segunda Pele (2025), de Dea Ferraz, foram selecionados em âmbitos distintos do Olhar de Cinema. Para Yellow Cake, esta exibição hors concours como filme de abertura do festival inaugura sua temporada brasileira. A segunda ficção de Tiago Melo competiu pelo Tiger Award, o prêmio principal do Festival de Roterdã, na Holanda, em janeiro, e passou em maio no Los Angeles Latino International Film Festival – Laliff, nos Estados Unidos, antes de chegar ao Brasil.

O curioso é que Azougue Nazaré, primeiro longa do diretor, entrou na mostra Bright Future em Roterdã em 2018 e também teve sua première brasileira no Olhar de Cinema daquele ano, competindo na mostra Outros Olhares. 

“Acredito que o nosso planejamento está funcionando: estrear num festival de destaque no circuito internacional, seguir com a carreira em outros festivais estrangeiros, como Basel e o Laliff e agora estrear no Brasil com destaque, como filme de abertura do Olhar de Cinema. No meio de tudo isso, estamos felizes em concretizar o lançamento comercial, por meio de patrocínio do edital de comercialização do BNDES e do Funcultura, ao mesmo tempo em que estamos falando em lançar comercialmente também na Europa, uma conquista direta da participação nos mercados dos festivais de Berlim e de Cannes”, diz a produtora Carol Ferreira, responsável pela engenharia de levar as atrizes Rejane Faria e Tânia Maria e uma parte significativa da equipe para este batismo do filme. 

Yellow Cake incursiona por um futuro distópico em que Brasil e Estados Unidos trabalham juntos em um projeto nuclear ancorado na pequena cidade paraibana de Picuí. O foco: utilizar urânio para erradicar o Aedes aegypti, mosquito causador da dengue. Rejane Faria (Marte Um) interpreta Rúbia Ribeiro, cientista negra e lésbica encarregada de ser a interlocutora entre o comando militar nuclear brasileiro e os pesquisadores norte-americanos liderados por Bill Raymond (Spencer Callahan). Catita (Valmir do Côco) e sua avó Rita (Tânia Maria) são moradores locais a quem Rúbia recorre quando percebe que há outras intenções em jogo.

Yellow Cake nasce do interesse em olhar para o Brasil mas sem abandonar questões do presente. A proposta era trabalhar a ficção científica a partir do sertão da Paraíba, entendendo esse território não como cenário exótico, mas como lugar de pensamento e invenção. O filme surge de Picuí, uma cidade real e cheia de histórias próprias que ajudou a ancorar o absurdo dentro do cotidiano e é a própria força motriz do filme”, comenta Tiago Melo à Revista O Grito!. “A narrativa se organiza como sátira e reflexão sobre a relação antiga do Brasil com as potências que tentam ‘nos ajudar’, mas que muitas vezes nos tornam laboratório de suas ideias”.

O cineasta, que assina o roteiro junto a Amanda Guimarães, Anna Carolina Francisco, Gabriel Domingues e Jeronimo Lemos, tem uma relação próxima com a cidade. “Enquanto Azougue Nazaré foi filmado na cidade da minha mãe, Yellow Cake está enraizado na cidade do meu pai. Em Picuí, moradores antigos, muitos deles garimpeiros e mineradores, contam histórias sobre a chegada de americanos na Segunda Guerra Mundial para extrair urânio para o Projeto Manhattan. Como diz um deles: ‘urânio não é coisa ruim; também vem de Deus’.

A ficção científica vem justamente das próprias histórias da comunidade, desses relatos sobre OVNIs, luzes estranhas e medos de contaminação ligados ao urânio. Essas narrativas moldaram o filme e ajudaram a criar uma sensação ambígua de tempo, situada entre o passado e um futuro próximo, reforçando o tom distópico da obra”, acrescenta Tiago Melo. 

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Cena de Telúrica (Foto: Gilvan Barreto/Divulgação)

Telúrica, olhar da experimentação

Telúrica, A Íntima Utopia, de Mariana Lacerda, foi escalado para abrir a competição brasileira de longas e teve exibições na sexta (5) e no sábado (6). A disputa pelo troféu Olhar em oito categorias, incluindo roteiro, montagem, atuação e direção, inclui Quase Inverno, de Rodrigo Grota, Fiz Um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques, Maxita, de Mariana Machado e Ana Maria Machado, A Noite e os Dias de Miguel Burnier, de João Dumans, Adulto/Homem, de Pedro Diógenes, Olhe Para Mim, de Rafhael Barbosa, e Reparação, de Marcus Curvelo. A definição que a diretora dá para seu segundo longa documental é poética como o filme: “Não é uma peça filmada, ou um filme sobre a peça em si, mas uma obra que se dá no ‘entre’. No entretempo e nas pausas”. 

Entre abril e maio de 2024, Mariana e seus parceiros habituais – o diretor de fotografia Marcelo Lacerda e a co-roteirista, montadora e segunda câmera Paula Mercedes – registraram o cotidiano da Companhia Teatral Ueinzz, composta por “atores e atrizes cujas almas sentem vacilar o mundo”, nas palavras da cineasta. São pessoas que já lideram com situações psíquicas limítrofes e que hoje se veem semanalmente na Casa do Povo, no Bom Retiro, no centro de São Paulo. Enquanto ensaiam a peça Telúrica, uma divagação sobre a existência na Terra e a extinção das espécies, refletem sobre a própria comunidade e manifestam o desejo de se ater à vida. 

“Quando conheci o filósofo Peter Pál Pelbart em 2015 e começamos nossa jornada de criação artística, passei a acalentar a ideia de fazer um filme com o Ueinzz. Peter é integrante da trupe desde o início, há 30 anos, e aos poucos fomos desenvolvendo a ideia. Seria um filme sobre a loucura? Ou sobre o Ueinzz? Ficou claro que seria um filme ‘com’ aquelas pessoas, e não ‘sobre’ elas”, explica a realizadora em conversa com a Revista O Grito!.

“Embora o grupo só se encontre uma vez por semana, para muitos é uma referência essencial de um lugar onde eles já não são só pacientes, são atores, e agora também nesse salto: não são só atores de teatro, e sim de cinema”, contextualiza Peter Pál Pelbart.

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Telúrica e uma peça na tela: intersecção de linguagens. (Foto: Gilvan Barreto/Divulgação)

“Quando o Ueinzz faz uma peça, bem, o foco é na operação de montagem da peça, mas claro que tem todo tipo de interferências no meio do processo: crises, discussões, desabafos filosóficos sobre a Terra, o cosmos, a morte, o tempo e a loucura. O que acontece é que o filme foi pensado como um dispositivo que dá muita atenção a essas conversas – seja uma conversa em grupo em que o tema é a morte e aí começa a se falar sobre quem já morreu, seja um papo entre duas pessoas em que uma revela que fala com animais. Nesses dois casos, foi o dispositivo que permitiu que se gerasse uma conversa deslumbrante, que não aconteceria se o filme não estivesse ali ou que não surgiria espontaneamente ao longo da montagem da peça. O filme dá ver o que em geral não é tão claro: como pensam os atores dentro da sua loucura, dos seus delírios, viagens e fabulações e como cada um enxerga a própria cena que ajudou a montar”.

Na tela, o que se vê é uma delicada narrativa fincada na intersecção das linguagens para partilhar as emoções de um elenco às vésperas de uma encenação; as emoções advindas das próprias acepções da palavra ‘telúrica’; e a emoção do encontro entre várias possibilidades de construir sentidos.

Para Elisa Band, diretora do Ueinzz e responsável pela direção cênica e dramaturgia em Telúrica, a íntima utopia, teatro e cinema se fundiram para semear algo novo. “A decupagem das cenas que o cinema pedia – fazer uma cena, parar, repetir de outro ângulo – gerou outro tipo de ‘treinamento’, que exigia suspender um fluxo e ao mesmo tempo manter o movimento interno que dá vida a uma cena, para que, quando fosse retomada, ainda existisse em sua intensidade. Com o Ueinzz, esses procedimentos do dia a dia de uma filmagem geram cenas imprevistas, ou outras que não se repetem, abrindo brechas na peça e no filme. Se no teatro produzimos um acontecimento irrepetível, com múltiplos pontos de vista, no cinema esse ponto de vista é definido pelo enquadramento e pela montagem. No filme, toda vez que vejo sempre há uma coisa diferente chamando minha atenção. Percebo que mesmo o irrepetível, em uma trupe como a nossa, tem algo que se mantém, e mesmo algo que parece tão sólido, como um filme, pode se mostrar a cada hora de um jeito”, opina. 

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Segunda Pele fecha a trilogia das caixas de Dea Ferraz iniciado com Câmara de Espelhos (2015) e AGORA (2020). (Foto: Dea Ferraz e Rafael Amorim).

Dea Ferraz sem concessão

Por coincidência, Segunda Pele, de Dea Ferraz, também embaralha as convenções entre teatro e cinema, de um modo ainda mais radical e ousado. “Parece até que fiz esse filme só para entrar no Olhar de Cinema”, brinca a realizadora em entrevista por telefone, poucos dias antes de embarcar para acompanhar as duas sessões, a primeira delas nesta terça (9) na Cinemateca de Curitiba. “É um festival que eu amo e que sempre busca apostar em obras experimentais, corajosas, mais livres. Posso dizer que desde Modo de Produção o Olhar entendeu meu cinema, em 2020 me chamou de novo para estar junto com AGORA e mais uma vez se arrisca ao selecionar Segunda Pele, que se afasta completamente de um cinema mais narrativo e segue por um caminho sem concessão.” 

A produtora executiva Carol Vergolino, parceira de Dea em todos os três projetos, vibra com este retorno: “É uma honra estrear o filme em um festival tão importante, que acompanhamos e admiramos por sua contribuição ao cinema e à diversidade. Fico feliz que o Olhar de Cinema tenha esse desejo por filmes que inovem e dialoguem com outras linguagens artísticaa. A obra de Dea Ferraz sempre se expande, caminhando, inclusive, para as artes visuais. O festival reconhece isso no seu fazer cinematográfico, já que esse é o terceiro filme dela que é selecionado para Novos Olhares”.

Segunda Pele brotou de um espetáculo homônimo que a diretora viu em 2018. No palco, as seis artistas que integram o Coletivo Lugar Comum – Liana Gesteira, Maria Agrelli, Maria Clara Camarotti, Renata Muniz, Sílvia Góes e Sophia William – se mexiam para derrubar quaisquer barreiras entre seus corpos, riscando no fluxo um m movimento simbiótico. “Tudo aquilo me atravessou muito e fiquei bem mexida. Na pandemia, trabalhei com a tradução de espetáculos para a imagem com o Coletivo Gambiarra, filmando peças que eram mostradas via Zoom. Quando Silvinha Góes me chamou para adaptar a peça para o cinema, perguntei se era para fazer algo como uma transposição ou se podíamos começar do zero. A resposta veio: podemos fazer o que quiser. Fomos entender então o que mobilizava cada uma daquelas sete mulheres, em encontros online e três imersões presenciais profundas, numa criação coletiva e da qual emergiu o nosso mote: que corpo habitamos? ”, detalha Dea Ferraz. 

A pergunta também reverbera nela, que vê nesta obra um mergulho além na sua pele de cineasta: “Segunda Pele fecha a minha trilogia das caixas. Em Câmara de Espelhos (2015), estou totalmente fora da caixa cênica que é mostrada pelas câmeras e não entro em contato com aqueles homens em foco. Em AGORA, entro na caixa, mas estou no monitor. Aqui, eu não só entro como danço e, com meus movimentos, fico tentando costurar as performances daquelas seis mulheres maravilhosas. O trabalho no Gambiarra deu muita segurança para me aprofundar na pesquisa de criar uma simbiose com aqueles corpos que estou filmando. Entro como um outro corpo, em contato com elas, como uma segunda pele, assim como a imagem oferece uma outra camada para olhar a passagem do corpo marcado, vigiado e normatizado até um corpo que vai virando luz. O cinema é a segunda pele para transformar uma imagem bruta em algo poético e sensorial”. 

Yellow Cake será distribuído pela Olhar Filmes, com previsão de estreia no segundo semestre. Telúrica, A Íntima Utopia sairá com o selo da Descoloniza Filmes – o distribuidor Ibirá Machado é produtor associado do filme. Carol Vergolino adianta que Segunda Pele não tem pressa. “Só após o circuito de festivais, planejamos realizar o lançamento comercial em salas alinhadas à proposta da obra”, situa a produtora.

Os resultados do festival serão divulgados no sábado (13). Entre os premiados pode estar ainda outro filme pernambucano, o curta-metragem Cerimônia, de Fabio Ramalho, André Antônio e Chico Lacerda, um dos oito selecionados para a competição nacional na categoria. A considerar que se trata de uma realização Surto e Deslumbramento, coletivo que é referência no cinema queer contemporâneo e que, inclusive, levou o troféu de melhor filme no Olhar de Cinema 2025 com Salomé, de André Antônio, é correto afirmar: tem mais combustível nosso para escaldar sessões e corações em Curitiba.

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