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Edicarlos Silva celebra trajetória e identidade nordestina na exposição ‘Caminhando entre Cores, Formas e História’

"Quando reuni as obras, percebi que estava pintando capítulos de uma mesma caminhada": em entrevista, o artista paraibano fala sobre a mostra em João Pessoa, a influência da pandemia e as raízes do Nordeste em suas telas

A exposição Caminhando entre Cores, Formas e História reúne 23 telas e uma moringa que atravessam diferentes momentos da vida do artista paraibano Edicarlos Silva, da infância marcada pelo teatro, pelo artesanato e pela palhaçaria à descoberta das artes plásticas em 2017. A mostra foi inaugurada no sábado (18/5), na Associação Cultural Balaio Nordeste, dentro da programação do evento Balaio das Artes, em João Pessoa (PB), e fica em cartaz até 13 de setembro.

Ao reunir o acervo pela primeira vez em um mesmo espaço, o expositor percebeu que havia construído, sem planejar, uma narrativa contínua sobre memória, afeto e transformação. “Percebi que minha produção artística era justamente isso: um caminho construído por histórias, encontros, memórias e transformações”, afirma.

Grande parte das criações foi produzida durante a pandemia da covid-19, período que o pintor define como um tempo de introspecção e amadurecimento criativo. As cores intensas, as linhas brancas e as espirais que atravessam suas composições funcionam como símbolos de percurso, crescimento e pertencimento, conectando experiências pessoais ao imaginário popular nordestino.

“As cores conseguem transmitir alegria, saudade, esperança, inquietação ou paz sem precisar de palavras. Elas são o primeiro convite que faço ao observador para entrar na obra”, explica Edcarlos, que vê o Nordeste não apenas como tema, mas como o lugar de onde sua pintura fala.

Em entrevista à Revista O Grito!, o artista também comenta a influência da espiritualidade em seu processo criativo, a obra Je suis como síntese de um momento decisivo de sua trajetória e a relação entre sua atuação como servidor da cultura e a produção artística. Para ele, a exposição foi uma descoberta sobre si mesmo: “Quando reuni todas as obras, compreendi que, sem perceber, eu estava pintando capítulos de uma mesma caminhada”. 

Ao convidar o público a percorrer a mostra sem pressa, Edicarlos resume o que espera provocar em quem encontra sua obra pela primeira vez: “Não tente entender tudo de imediato. Primeiro sinta. Talvez, em algum momento, uma cor, uma forma ou um símbolo desperte uma lembrança sua. É nesse encontro que a obra se completa”.

Nesta conversa, Edicarlos revela os bastidores de seu trabalho e explica como cores, formas e símbolos se transformam em dispositivos de memória capazes de despertar no público reflexões sobre pertencimento e identidade. Confira:

O título da exposição é “Caminhando entre Cores, Formas e História”. Que caminhada é essa? 

É a caminhada da minha própria vida. Ela começa ainda na infância, com o encantamento pelo teatro, pelo artesanato e pela palhaçaria. Em 2017, essa trajetória ganha uma nova linguagem com as artes plásticas. Cada tela representa um passo desse percurso. Não é uma caminhada que termina com a exposição; ela continua enquanto eu descubro novas formas de olhar o mundo e de me expressar. 

Como nasceu a ideia desta exposição? 

A exposição nasceu de um convite, ou melhor, de uma provocação de Dona Joana Alves, para expor na Associação Balaio Nordeste. Até então, as telas estavam na minha casa, produzidas em diferentes momentos, principalmente durante a pandemia, junto com uma moringa que também faz parte da mostra. Depois surgiu outro desafio: encontrar um nome que traduzisse tudo aquilo. Conversando com meu amigo Bira Delgado sobre esse processo, a palavra “caminho” apareceu diversas vezes. Ela ficou ecoando na minha cabeça.

Ao mesmo tempo, lembrei de uma frase de Seu Antônio, pai de uma amiga (Luana), que dizia: “Edicarlos, toda vez que conversamos com alguém, não conversamos apenas com uma pessoa, conversamos com uma história.” Essas duas ideias se encontraram. Percebi que minha produção artística era justamente isso: um caminho construído por histórias, encontros, memórias e transformações. Assim nasceu Caminhando entre Cores, Formas e História, porque acredito que estamos sempre em movimento, aprendendo, crescendo e ressignificando nossa própria trajetória. 

EXPOSICAO
Abertura do Evento Balaio das Artes e Exposição Caminhando entre as cores, formas e história. (Foto: Divulgação).

O que une as 23 telas e a moringa apresentadas na mostra? 

O que une todas as obras são as memórias, os afetos e as experiências que vivi. Cada obra nasce de uma emoção, de uma lembrança ou de uma reflexão. A moringa amplia esse universo porque, além de objeto artístico, também se transforma em instrumento musical, evocando a sonoridade do Nordeste. No fundo, todas as obras contam diferentes capítulos da mesma história. 

De que maneira a cor se tornou sua principal linguagem artística? 

A cor é a forma mais direta que encontrei para conversar sobre sentimentos. Antes mesmo de existir uma figura, existe uma emoção. As cores conseguem transmitir alegria, saudade, esperança, inquietação ou paz sem precisar de palavras. Elas são o primeiro convite que faço ao observador para entrar na obra. 

Qual é o significado das linhas brancas e das espirais que aparecem em suas obras? 

As linhas brancas — e, em algumas obras, as pretas — funcionam como fios condutores. Elas conectam formas, organizam o espaço e simbolizam os caminhos que percorremos ao longo da vida. Já as espirais representam crescimento, transformação e continuidade. Elas começam em um ponto, expandem-se para o mundo e, em determinado momento, retornam ao centro. Assim também somos nós: seguimos em frente, mas sempre carregamos nossas origens. 

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Mostra reúne 23 telas e uma moringa atravessam diferentes momentos da vida do artista. (Foto: Divulgação).

Como a espiritualidade atravessa seu processo criativo?

Minha espiritualidade não aparece de forma religiosa ou dogmática. Ela está presente na maneira como enxergo o mundo e nas referências culturais que trago do Nordeste. Cresci cercado por manifestações de fé popular, pelas histórias do sertão, pelas festas, pelas crenças e pelos símbolos que fazem parte da identidade do nosso povo. Tudo isso aparece nas minhas obras como uma forma de agradecer à vida e reconhecer que existe algo maior conectando as pessoas, a natureza e a arte. 

O Nordeste é uma presença constante na sua pintura. Como suas origens influenciam sua arte? 

O Nordeste não é apenas um tema para mim; é o lugar de onde falo. Minha pintura nasce das lembranças da cultura popular, das festas, da música, do barro, das cores das feiras, das conversas nas calçadas e da criatividade do nosso povo. Mesmo quando a obra é abstrata, ela continua carregando esse repertório afetivo. 

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Exposição apresenta percurso visual atravessado por afetos, cultura popular e pertencimento nordestino. (Foto: Tiago Eduardo / Divulgação)

O que mudou na sua produção entre 2019 e 2022? 

Nesse período meu trabalho amadureceu. Em 2019 eu estava descobrindo uma identidade visual. A pandemia trouxe um tempo maior de introspecção e reflexão, fazendo com que as obras passassem a dialogar mais profundamente com sentimentos, memória e pertencimento. As formas ficaram mais conscientes e os símbolos começaram a aparecer com mais força. Um sentimento de pertença. 

Há alguma obra da exposição que represente um momento decisivo da sua trajetória?

Acredito que Je suis representa bem esse momento. Ela nasceu em um período de muitos questionamentos pessoais e profissionais, quando precisei equilibrar aquilo que eu sentia com as decisões que precisava tomar. É uma obra que sintetiza conflitos, mas também crescimento. 

Como você construiu o percurso da exposição entre cor, forma e história? 

Pensei na exposição como uma narrativa. Primeiro o visitante é convidado pelas cores. Depois começa a perceber as formas e os símbolos recorrentes. Por fim, encontra as histórias por trás de cada obra. A ideia é que a experiência aconteça em camadas, como uma conversa que vai se aprofundando. 

O que você espera que o visitante sinta ao entrar na mostra?

Espero que ele sinta curiosidade. Que caminhe sem pressa e permita que as obras conversem com sua própria história. 

E o que espera que ele leve consigo ao sair? 

Espero que saia compreendendo que toda pessoa carrega um universo de histórias e que a arte pode ser uma ponte entre essas experiências. Se alguém olhar para uma das obras e encontrar um pouco de si, a exposição já terá cumprido seu papel. 

Você acredita que a arte pode transformar a maneira como as pessoas enxergam o cotidiano? 

A arte não muda necessariamente o mundo ou as pessoas, mas muda o nosso olhar sobre as coisas e ao dia-a-dia. E quando mudamos nosso olhar, mudamos também a forma como vivemos e nos relacionamos com as pessoas e o mundo. 

Como concilia sua atuação como servidor da cultura com a produção artística?

As duas atividades se alimentam mutuamente. Como servidor público, acompanho políticas culturais, artistas e manifestações populares. Como artista, consigo compreender essas ações de dentro, vivendo também os desafios da criação. Uma experiência fortalecendo a outra. 

Edicarlos
Edicarlos aborda espirais e linhas brancas em suas obras e a descoberta de que suas pinturas já
dialogavam entre si antes mesmo de serem reunidas em exposição. (Foto: Cláudia Samara / Divulgação)

Quais artistas, movimentos ou referências influenciam seu trabalho? 

Minha principal referência é a cultura popular nordestina. Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto, Flávio Tavares, Clóvis Júnior. Também diálogo com o abstrato, a arte popular brasileira, a cerâmica, o artesanato, a palhaçaria, o teatro e a música. Gosto de pensar minha pintura como um encontro entre tradição e linguagem contemporânea. 

O que ainda desafia você como artista? 

Permanecer em movimento. Não repetir fórmulas e continuar permitindo que cada nova obra me ensine algo que eu ainda não sabia sobre mim. 

Como definiria sua pintura em três palavras? 

Memória, cor e transformação. 

Qual foi a maior descoberta durante a criação desta exposição? 

Descobrir que minhas obras conversavam entre si antes mesmo de eu perceber isso. Quando reuni todas, compreendi que, sem planejar, eu estava pintando capítulos de uma mesma caminhada. 

Se pudesse conversar com quem verá sua obra pela primeira vez, o que diria? 

Não tente entender tudo de imediato. Primeiro sinta. Depois observe os detalhes. Talvez, em algum momento, uma cor, uma forma ou um símbolo desperte uma lembrança sua. É nesse encontro que a obra se completa. Permita-se! 

Depois de “Caminhando entre Cores, Formas e História” quais são os próximos caminhos que pretende seguir como artista?

Quero continuar caminhando. Pretendo aprofundar o meu processo artístico, aproximando ainda mais a pintura, a música e a cultura popular. Também desejo experimentar novos suportes e desenvolver obras que ampliem esse diálogo entre memória, identidade e pertencimento. Afinal, todo caminho percorrido abre espaço para muitos outros que ainda estão por vir. 

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