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Matt Damon e Zendaya em cena de A Odisseia: moral moderna. (Foto: Divulgação).

“A Odisseia”: a ambição homérica de Christopher Nolan

Megaprodução retrata não apenas a jornada dos conhecidos personagens da Grécia antiga, mas também a própria odisseia pessoal do cineasta britânico

“A Odisseia”: a ambição homérica de Christopher Nolan
3.5

A Odisseia
Christopher Nolan
EUA, 2026, 2h52, Aventura/Ação. Distribuição: Universal
Com Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Robert Pattinson

Diretor afeito ao cinema de grandiosidades técnicas, Christopher Nolan faz em A Odisseia (2026) um mergulho psicanalítico, consciente ou não, na subjetividade da sua própria trajetória. Permitam-me breve devaneio: o lendário poeta grego Homero parece ocupar para o cineasta a posição de ideal do eu, numa espécie de horizonte simbólico de excelência artística. A cada novo filme, Nolan busca consolidar o que poderíamos levianamente classificar de um cinema homérico. Na adaptação cinematográfica que acaba de estrear nos cinemas, o espectador é absorvido por uma obra suntuosa, mas com os excessos característicos cometidos por quem aspira a realeza.

Se a verborragia textual de produções anteriores do diretor – lembremos de A Origem (2010) e Interestelar (2014) – obstruía a fluidez das tramas, aqui a oralidade é essencial e orgânica à narrativa. O poema de Homero é totalmente calcado em relatos e reminiscências dos personagens; traço que o filme explora muito bem graças à montagem primorosa de Jennifer Lame. A não-linearidade do longa de quase três horas de duração é manejada com extrema habilidade pela editora vencedora do Oscar por Oppenheimer (2024).

Em momentos pontuais, a veemência por costurar sequências tensas, através de cortes rápidos, impede o filme de contemplar sua própria magnitude. A saga do retorno de Odisseu para sua terra natal, Ítaca, é atravessada pelo imperativo da memória e do tempo. Mas a obra de Nolan teme que os respiros cansem o espectador.

Para substanciar o senso de ameaça ao longo de todo o filme, a trilha sonora assinada por Ludwig Göransson aposta em crescendos que chegam a níveis angustiantes nas cenas mais enérgicas. Interessante notar como ruídos diegéticos – o tilintar das espadas ou o movimento da corda de um arco e flecha – são incorporados ao magma sonoro orquestrado com o nítido objetivo de intensificar a experiência imersiva de A Odisseia. E se há algo que Christopher Nolan faz com maestria é transportar o espectador para o universo do filme. Toda a (excelente) sequência do Cavalo de Tróia é Nolan em estado puro e nos faz imaginar a engenharia envolvida para captar a cena com o equipamento de filmagem em IMAX 70mm com mais de 130 kg utilizado pela produção.

Conhecido pelo realismo estético mesmo em obras tão fantasiosas quanto  Batman Begins (2005), o cineasta britânico mantém as raízes fincadas em movimentos de câmera arrojados e evita o uso indiscriminado de CGI. Mas há aproximações pontuais, muito bem-vindas, ao grotesco e ao insólito no blockbuster de Nolan. Servindo-se da mitologia de deuses, bruxas e figuras monstruosas de A Odisseia, o filme contém sequências interessantíssimas, como o flerte com o body horror nas cenas que envolvem a personagem Circe (em estupenda interpretação de Samantha Morton). Ainda que restrinja a explicitude da violência, por evidentes motivos comerciais, a produção é altamente eficaz quando se atira à fantasia de peito aberto.

Sem economizar na escalação de grandes nomes para compor o elenco, o filme é beneficiado pelas sólidas performances de Matt Damon, Anne Hathaway e Tom Holland, que dão vida a Odisseu, Penélope e Telêmaco, respectivamente, figuras centrais da história. John Leguizamo surpreende ao encarnar o expressivo Eumeu, enquanto o trabalho de Robert Pattinson como o vilão Antínoo surge mais mecânico – e menos interessante. O time estelar ainda é composto por Lupita Nyong’o, Charlize Theron, Mia Goth, Elliot Page, entre outros. Com o grande número de personagens, a impressão é a de subutilização de muitos deles, como Helena de Tróia (Nyong’o) e Agamenôm (Benny Sadfie).

Distinguindo-se de outras versões para o clássico homérico, o filme de Christopher Nolan propõe um Odisseu poderoso, mas melancólico, bem distinto do caloroso personagem em Ulysses (1954), vivido com contagiante vigor por Kirk Douglas. No filme de 2026, o protagonista é acometido por uma crise de consciência clara acerca das mortes causadas por suas decisões, tantos povos saqueados em prol de suas conquistas. Em outras palavras, retiradas do próprio filme, o personagem lamenta-se por “violar a lei de Zeus para sempre”. Estratégia duvidosa para humanizar o protagonista e, de alguma forma, modernizar seus conflitos éticos.

Longe de ser obra-prima, mas bem melhor que seus últimos trabalhos, A Odisseia pode se tornar, no futuro, o trabalho síntese da carreira de um cineasta que se deleita com as possibilidades monumentais da arte cinematográfica. Em momento de predominância dos streamings e filmes vistos cada vez em telas menores, Christopher Nolan convoca o espectador a encarar o cinema como aquela experiência fantástica e transcendental: se perceber pequeno, sentado no escuro da sala, e deixar-se ser engolido pelas imagens gigantescas.

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