“Anatomia do Caos” resgata a memória das irresponsabilidades cometidas durante a pandemia

A cineasta Dandara Ferreira documentou a CPI que, em 2021, revelou atrocidades cometidas pelo governo fascista de Jair Bolsonaro

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Filme traz imagens que comoveram o país. (Foto: Divulgação).

A comoção tomou conta da plateia do Cinema São Luiz na noite deste último sábado. Não era para menos, muitos espectadores chegaram às lágrimas. A exibição do documentário Anatomia do Caos, da cineasta Dandara Ferreira trouxe de volta para o presente as nefastas lembranças de um dos períodos mais sombrios da vida brasileira nos últimos anos,  quando a irresponsabilidade e crueldade do governo do fascista Jair Bolsonaro, no gerenciamento dos efeitos da pandemia da covid-19, resultou na morte de 711.380 pessoas (dados oficiais), ou seja, cerca de um brasileiro a cada 303 pessoas perdeu a vida, números  que colocaram o Brasil como o quinto país em mortes no panorama mundial.

O filme é mais do que necessário e precisa ser exibido não apenas para um público esclarecido, como o que compareceu ao São Luiz, o qual, de uma maneira geral, tem conhecimento e uma dimensão mais precisa dos horrores cometidos na gestão da saúde pública pelo governo federal na ocasião. Ele tem que ganhar as telas do país.

Dandara Ferreira, com muita habilidade, produziu uma obra que sintetiza de forma precisa o que aconteceu entre 2020 e 2022 e nos faz ver o quanto essa memória, mesmo dolorosa, deve ser resgatada e mostrada ao maior número de pessoas para que num futuro próximo não vejamos reeditadas as terríveis cenas que marcaram o período. 

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O modo como o governo Bolsonaro lidou com a pandemia resultou na morte de 711.380 pessoas no Brasil. (Foto: Divulgação)

Indignação

Anatomia do Caos tem como eixo narrativo condutor a Comissão Parlamentar de Inquérito instalada no Senado Federal em 27 de abril de 2021. O documentário, por meio de um rico material de imagens de arquivo e de filmagens das mais de 60 sessões realizadas, refaz os principais episódios relacionados às investigações conduzidas pela comissão. 

A partir delas vemos as justificativas sem fundamentos científicos ditas e empreendidas pelos ministros da saúde, pelos políticos bolsonaristas, e pelo famigerado gabinete paralelo que, entre outros desmandos, dava aval para a presidência estimular o uso de remédios ineficazes para combater a covid, a exemplo da famosa cloroquina. E, claro, o próprio mandatário do país acusado, entre outras coisas, de prática de genocídio.

Embora as sessões da CPI, na época em que ocorreram, tenham sido acompanhadas por milhões de brasileiros, após seis meses de trabalhos intensos e um relatório final aprovado em outubro de 2021 entregue à Procuradoria Geral da República, o fato de nenhuma das 79 pessoas e duas empresas indiciadas não terem sofrido qualquer punição, amorteceu, sem dúvida, seu efeito. 

Só Jair Bolsonaro foi apontado por nove tipos penais, entre os quais, epidemia com resultado de morte, charlatanismo, emprego irregular de verbas públicas, prevaricação e crime contra a humanidade e concluiu seu mandato como se nada de errado tivesse sido feito. Por isso, voltar à CPI da covid e mostrar seus bastidores, a luta dos parlamentares para revelar as barbaridades cometidas e o discurso negacionista e cretino dos defensores do governo, incluindo Flávio  Bolsonaro, hoje candidato declarado à presidência da República, é um dever cívico.

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Filme tem como o eixo narrativo a CPI instalada no Senado Federal em abril de 2021. (Foto: Divulgação).

Quando assistimos o documentário, e revivemos o desespero dos familiares dos mortos pela covid enquanto as “autoridades” sanitárias pregavam imunidade de rebanho e transformavam a compra de vacinas em oportunidade para praticarem atos de corrupção, além da tristeza, somos invariavelmente tomados pela indignação. 

A realização

No debate após a exibição, Dandara Ferreira destacou alguns aspectos do processo de realização de Anatomia do Caos. Ela conta que nos primeiros meses da pandemia sentiu que queria fazer alguma coisa como documentarista. “Eu tinha um sentimento de revolta, mas eu não sabia exatamente o que eu gostaria de retratar.  Aí quando o Congresso instalou a CPI eu comecei a acompanhar e minha intuição dizia que ali tinha alguma coisa importante, tinha uma investigação em curso e eu precisava documentar aquilo”.

Para dar andamento ao projeto, Ferreira falou com uma amiga produtora. “Ela achou uma ideia incrível, mas não quis me estimular porque ela não queria colocar uma equipe em Brasília para correr risco. Naquela época não tinha vacina. Mas aí eu falei: eu vou”. Ferreira pegou uma câmera emprestada, convidou um amigo que era operador de som e começou a acompanhar os trabalhos da CPI. 

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Após a exibição, a cineasta Dandara Ferreira (ao centro) debateu com o público. (Foto: Alexandre Figueirôa/O Grito!).

Como era uma história em andamento sem saber o desfecho, Ferreira continuou filmando e quando a CPI acabou, ela viu que tinha muito material. “Esse filme como vemos hoje surgiu durante a montagem. Enquanto eu filmava eu tinha uma certa ideia de como ele seria, mas só fui descobrir isso realmente durante a montagem. Ele demorou quatro anos para ficar pronto, eu tentei ser o mais honesta possível e estou muito feliz com o resultado”.

Não somos ingênuos e sabemos muito bem que por trás de um filme tem uma montagem e um discurso que dela emerge, contudo para evidenciar a perversidade e desumanidade de quem de alguma forma foi responsável por tantas mortes não precisa de nenhuma artimanha narrativa, os absurdos e a leviandade cometida contra os brasileiros estão lá na sucessão de imagens que desfilam diante de nossos olhos.