Eclipse de Djin Sganzerla e com Sergio Guize estreia nos cinemas
Djin Sganzerla e Sergui Guizé em cena. (Foto: Divulgação).

“Eclipse”, thriller autoral de Djin Sganzerla, expõe a ferida aberta da violência de gênero

Filha do cineasta Rogério Sganzerla e da atriz Helena Ignez, este é segundo longa-metragem da atriz e diretora

Cinema da Fundação, Recife (PE)

A violência contra as mulheres é um tema atual e urgente. Qualquer obra, mesmo ficcional, ao trazer para o público histórias capazes de provocar reflexão e questionamentos em torno do assunto merece nossa atenção. Eclipse, de Djin Sganzerla, em cartaz no Cinema da Fundação – Derby, cumpre esse papel. 

Ele conta a história de Cléo, cuja vida conjugal parece estar no melhor dos mundos, mas que, de uma hora para outra, descobre que o seu marido Tony não é o homem de bem, honrado e carinhoso que aparenta. Do ponto de vista cinematográfico, o filme tem lá seus problemas, mas a trama é um “soco no estômago”. A expressão é um clichê manjado, mas traduz bem o impacto provocado por ela. 

Djin é filha do conhecido diretor do cinema marginal Rogério Sganzerla e da atriz e também realizadora Helena Ignez. Iniciou sua carreira no teatro, foi apresentadora do Canal Brasil e no início dos anos 2000 passou a atuar no cinema. Realizou alguns curtas, e em 2020 dirigiu seu primeiro longa-metragem Mulher Oceano, no qual também atuou como as protagonistas e escreveu o roteiro. 

Eclipse é um thriller autoral, ou seja, uma obra que abraça um gênero clássico do cinema, mas pensado e construído com um olhar muito pessoal devido ao seu conteúdo, um enredo sinistro e doloroso. No debate ocorrido após a sessão da última quarta-feira (17/06), Djin discorreu sobre diversos aspectos da elaboração do filme e os desafios éticos e estéticos que enfrentou para levar para a tela um drama tão complexo. A história concentra-se na intrincada relação íntima entre os seus personagens e se desenvolve conjugando uma série de elementos que se integram e se desdobram a partir de seus perfis psicológicos.  

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O filme, segundo Djin, é um alerta, um chamado para as mulheres reagirem com dignidade ao machismo. (Foto: Divulgação);

O trio principal da trama é formado por Cléo, uma astrônoma grávida, interpretada pela própria Djin Sganzerla, seu marido, o advogado Tony (Sérgio Guizé), e Nalu (Lian Gaia), de origem indígena e meia-irmã de Cléo. A vida do casal sofre um abalo quando Nalu, que tem uma estranha conexão com uma onça, revela um segredo perturbador para Cléo. Dias depois, a astrônoma, por acaso, desconfia que o seu companheiro tem como passatempo navegar na deep web, início de um caminho sombrio de reviravoltas e tormentos.

Djin destacou que a maior dificuldade na escrita do roteiro por ela e Vana Medeiros foi como tratar de uma temática tão complexa e, ao mesmo tempo, tão delicada. “Não queríamos abordá-la de uma forma agressiva, violenta, nem óbvia, pois é um tema tão profundo e tão incômodo. Então, tanto as sutilezas, as camadas, a beleza visual, quanto as convenções que o gênero thriller pode oferecer, tudo foi pensado para estarem a serviço da construção da narrativa”. 

A cineasta contou ainda que o enredo está baseado em fatos reais que no decorrer dos anos foram oferecendo a ela elementos para compô-lo. Ela citou os inúmeros casos de estupros e crimes protagonizados por jogadores de futebol e também o conhecido episódio da francesa Gisèle Pelicot, vítima de abuso sexual por diversos homens contatados por meio de um site a convite do próprio marido. Desde que começaram a desenvolver o roteiro, colocar duas mulheres para juntas enfrentarem uma situação tão sórdida foi uma escolha essencial para Djin e Vana. 

“Nós queríamos falar de duas mulheres que se complementam. De um lado uma mulher indígena que não reproduzisse os estereótipos da indígena tímida e sem voz, mas uma mulher com conhecimento tecnológico, agressiva, misteriosa e com uma ancestralidade e uma cultura extraordinária herdada da avó. E, do outro, uma mulher branca, uma cientista que consegue encontrar asteróides no espaço, que acha que tem um casamento maravilhoso, mas não consegue enxergar coisas aparentemente simples ao lado dela”, disse Djin.

Mediadora do debate, a realizadora, curadora, pesquisadora audiovisual e diretora de programação do Festival Internacional de Cinema de Realizadoras, Maria Cardoso, observou que por Eclipse ser um filme feito por uma mulher sobre mulheres, o primeiro impulso do espectador é olhar para os personagens femininas, mas que, para ela, o filme a levou a prestar muita atenção nos personagens masculinos. 

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Djin Sganzerla durante evento de lançamento do filme no Cinema da Fundação. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGrito!).

“A narrativa consegue estabelecer que os homens que violentam mulheres não são vistos como monstros. Eles não são homens marcados. Eles são os bons filhos, os bons maridos e os bons pais. São homens funcionais na nossa sociedade, eles são os perfeitos filhos do patriarcado, os filhos saudáveis do patriarcado. E é esse processo social retratado no filme que revela o quanto é difícil a personagem de Cléo reagir”, comentou. 

De fato, ao construir o personagem, Dijin disse que “ela pensou exatamente nessa atualidade, um homem que você vê como respeitador e amoroso, que gosta da mulher, que poderia ser um bom pai, mas que a partir de um certo momento você vai encontrando nele uma mente doentia e monstruosa”. 

O filme, segundo Djin, é um alerta, um chamado para as mulheres reagirem com dignidade ao machismo que existe até mesmo nas pequenas coisas. Para representar essa força, a cineasta usou a imagem da onça pintada que perpassa todo o filme, “Eu não quis mostrar uma mulher sofrida, chorosa, por isso coloquei muita energia na personagem de Nalu, pois como sou uma mulher branca, eu queria fazer a personagem indígena ser absolutamente magnética e poderosa”. 

A diretora teceu também alguns comentários sobre as barreiras usuais de se fazer um longa no Brasil, sobretudo do ponto de vista financeiro. Segundo ela, o que a fez seguir adiante no projeto foi, sobretudo, a sensibilidade e a energia criativa dos artistas e técnicos que a cercavam durante a produção.  Todavia, dá para perceber que Eclipse tem um argumento muito potente, mas poderia ser ainda mais impactante se a mise-en-scène tivesse sido melhor burilada. 

Para um thriller, mesmo que haja quebra de alguns cânones do gênero, como por exemplo não obedecer ao ritmo convencional para esse tipo de filme, não se pode, no entanto, não prestar atenção na verossimilidade das ações e na conduta dos personagens como agentes dessas ações.  Alguns diálogos podiam ser mais convincentes, as atuações e até mesmo a fotografia também apresentam oscilações, com cenas muito bem desenhadas e outras que mereciam mais apuro. Esses senões, vale ressaltar, não desmerecem o esforço de Djin e da equipe do filme em driblar as dificuldades e mexer, por meio da imagem em movimento, em uma ferida exposta e ainda sangrando da sociedade brasileira contemporânea.

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