Fundador do Cordel do Fogo Encantado, Clayton Barros lança primeiro disco

O futuro do Sertão Nordestino em contraponto à sabedoria ancestral marca estreia de solo

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Cleyton Barros lança seu álbum de estreia (Foto: Helena Jordão/Divulgação)

Do gibão a motocicleta, do passado ao futuro, essas são algumas das dualidades que marcam o primeiro disco solo do violonista da Cordel do Fogo Encantado, Clayton Barros, “Primitivo Atemporal”, que sai em parceria com o selo Estelita amanhã, dia 4 de agosto. O álbum tem produção do próprio artista e mixagem, arranjos e masterização de Felipe Weinberg, além das participações especiais de Bnegão, Flaira Ferro e Jessica Caitano.

“Primitivo Atemporal” traz uma miscelânea de estilos musicais, com músicas que passam pelo samba, rap, repente, baião, eletro, funk, além do rock e da MPB, ritmos-base do artista, que tem o violão como espinha dorsal do novo álbum.

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Capa de “Primitivo Atemporal” (Foto: Fred Jordão/Divulgação)

“O disco fala diretamente sobre o Sertão. Desde os tempos primitivos até a diversidade do território, os povos originários, entradas e bandeiras, invasão, luta, miscigenação, a cultura e a relação com a natureza, instinto, misticismo, conhecimento autóctone e as personagens em desenvolvimento ao longo do tempo. O termo ‘Primitivo’ abrange isso tudo e muito mais coisa intrínseca no comportamento e na história do sertão e do seu povo. Já o termo ‘Atemporal’ busca evidenciar o resultado da nossa face primitiva nos dias atuais, o aprendizado e conhecimento que nunca envelhecem mesmo com tecnologias modernas. Uma visão de futurismo em contraponto com sabedoria ancestral a utilização e adaptação de novas tecnologias, – como na capa do disco: um vaqueiro de gibão montado na motocicleta. Tento criar um portal de passagem, entre esses dois momentos no espaço-tempo”, explica em detalhes Clayton Barros.

Vindo da cidade de Arcoverde, o violonista viu de perto a transformação e a chegada da tecnologia em sua cidade. Localizada na Região do Sertão do Moxotó, a 256 km de Recife, Arcoverde é famosa por sua cultura, pelo comércio e é destaque na música “Rio De Janeiro/Moxotó”, uma parceria com André Zahar.

“Essa música traça uma ponte imaginária entre o sertão do Moxotó/Ipanema (região de Arcoverde-PE) e o Rio de Janeiro, terra de André Zahar, parceiro com quem compus a letra. O arranjo vai se construindo a partir da voz e do violão até eclodir na percussão e beats eletrônicos e samples. Tem participação de Tonino Arcoverde nos backing vocals e traz as paisagens do sertão sob estrelas de néon, uma visão onde a poeira e fuligem dos prédios, vão fecundando novos prédios e destruindo a paisagem histórica das arquiteturas que contam o que fomos e o que somos. A necessidade de senhas para adentrar os paraísos”, comenta Clayton.

Foi também em Arcoverde, com apenas 16 anos, que Clayton iniciou sua carreira na música. Autodidata, tocava nos bares MPB e outros estilos. E foi lá também que, junto com José Paes de Lira, fundou a banda que marcou sua carreira em grupo, a Cordel do Fogo Encantado. Foi com a Cordel que seu violão marcado e vibrante, que pode ser observado nas dez canções de “Primitivo Atemporal”, ganhou destaque na produção musical brasileira.

É possível entender a diversidade de estilos quando Clayton cita alguns dos artistas que o influenciaram no processo desse disco: Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Rosinha de Valença e Gilberto Gil, mas não param por aí, pois fazem também um apanhado no imaginário do artista:

“Existe uma prática em ritmos desde a adolescência, mas lembro de bandas marciais, fanfarras, ritmistas no carnaval do sertão, os artistas da feira, da rua… É natural para mim incorporar ritmos e estilos diversos nas minhas composições, justamente por conta desse repertório que vem da infância e continua crescendo a cada descoberta”, revela o artista.

“Primitivo Atemporal” é, então, um álbum que homenageia o povo sertanejo, que desde cedo luta por sua sobrevivência, pela sua identidade e pela sua importância histórica. A música que dá título ao álbum, que tem participação de BNegão, por exemplo, trata da invasão do sertão nas expedições conhecidas como “Entradas e Bandeiras”, durante o século XVI e XVII, a luta dos povos originários e miscigenados sendo empurrados e exterminados sertão adentro. “Num dos maiores massacres que já aconteceram no nordeste colonial”, comenta Clayton.