Teatro do Parque, Boa Vista, Recife (PE)
Chegar à marca de 30 edições é um feito e tanto para um festival de cinema. A noite dessa segunda (1º/6) foi de celebração pelas três décadas do CINE PE, que desde 1997 reune uma programação robusta de curtas e longa-metragens nacionais para o já cativo público pernambucano. A noite de abertura contou com a première de Doutor Monstro, estrelado por Taís Araújo.
Da avant première de Central do Brasil, passando por Baile Perfumado, Bicho de Sete Cabeças, Árido Movie, Durval Discos, Casa de Areia, entre tantos outros, as imagens do Teatro Guararapes lotado nos anos em que ali era realizado estão registradas na memória afetiva da cidade até hoje.
Abrindo oficialmente a Mostra Competitiva de Longas-Metragens, o público pôde assistiu ao thriller Doutor Monstro (PR/SP), dirigido por Marcos Jorge, com Taís Araújo, Guilherme Weber e Marat Descartes no elenco.
O longa revela a investigação e julgamento de um caso de grande interesse midiático, ocorrido em 2003. O médico paulista de ascendência libanesa Farah Jorge Farah matou, espostejou, eviscerou e desfez do corpo da paciente Maria do Carmo Alves no porta-malas do carro.
Nas produções audiovisuais brasileiras proliferam os lançamentos que apostam nas histórias baseadas em crimes reais. O nicho, popularizado como true crime, passou a ter alta demanda de público a partir dos podcasts narrativos de histórias reais de crimes, fenômeno que cresceu exponencialmente a partir dos anos 2020.
A história de Farah já foi explorada por podcasters, vlogers e tiktokers tanto quanto os casos Richtofen, Nardoni, Matsunaga e Maníaco do Parque. Falando assim, parece que estamos enumerando uma espécie de franquia Avengers do multiverso sangrento. Não sem ironia, são eles que encabeçam hoje a lista dos mais vendidos quando se fala de livros, adaptações para streamings e agora, ingressos.
Taís Araújo defende com muita dignidade a promotora de justiça Claudia Ferreira, empenhada em derrubar a tese de legítima defesa de Farah, que dopou a vítima para dar cabo de sua vida. Guilherme Weber, como o cínico advogado de defesa caro mas pro bono desempenha um ótimo papel. E Marat Descarte está ótimo como o médico adventista diabólico.

Mas o resultado é bem insólito. Tanto as cenas de aproximação da vítima com o algoz na contextualização da trama, como a representação do julgamento no tribunal carregam uma comicidade involuntária. Entre ex-amante louca e paciente desesperada por reparar cirurgias estéticas mal ajambradas, a pobre da Maria do Carmo (Marcelina Fialho), retratada na época como persona traiçoeira em reportagens misóginas, não encontra redenção aqui.
No Dr. Jekyll and Mr. Hyde tupiniquim, a alegoria do quadro A Verdade saindo do poço armada do seu chicote para castigar a humanidade (1896, famosa pintura a óleo sobre tela do artista francês Jean-Léon Gérôme) e o mosquito que falam com o médico homicida são um alívio cômico pras duas horas de cadeira. Há quem diga que os slashers (subgênero do terror cheio de mortes criativas tipo Pânico) são melhores no que se propõem, pois não se levam à sério.
Patrícia Hargreaves, autora do livro O Médico Que Virou Monstro, sobre a vida e obra de Farah Jorge Farah, havia incensado que os direitos seriam vendidos. Na grade no Primevideo, ao lado de Tremembé, Dom, A Garota que Matou Os Pais e A Mulher da Casa Abandonada, este novo Doutor Monstro vai ranquear legal. Como experiência cinematográfica, não foi nada impressionante. Desejo sucesso.
Comemoração dos 30 anos
Além da semana de exibição, que vai até dia 7 de junho, Sandra e Alberto Bertini, idealizadores e diretores do evento, lançam na quarta (4), às 15h, no Novotel Recife Marina, o livro CINE PE: Uma grande história feita de muitas”.
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