
No Tarot, imagens simbólicas impressas em cartas retratam experiências humanas. À primeira vista, a carta “A Torre” tem potencial de espantar. Em cena, uma estrutura alta e aparentemente inabalável é atingida por um raio que a deixa em ruínas. De cima, duas pessoas são arremessadas em direção ao chão. Chamas são pintadas para adicionar impacto ao que já representa uma catástrofe. Surpreendentemente, a leitura pode reverter o drama, porque é o fim, representado pela destruição, que dá espaço para se reestruturar a própria vida.
A partir daqui, a contextualização acima toma ainda mais sentido. Por entender que a estrutura rígida de uma torre precisa se romper para que frestas se abram, o artista visual pernambucano Fefa Lins expõe Maravilhosa Catástrofe na Galeria Amparo 60. No espaço localizado no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, o artista reúne 15 pinturas à óleo autorais, dez sobre tela e cinco pintadas sobre escombros, reunidas pela curadoria de Guilherme Moraes.
“Catástrofe não é tragédia, catástrofe significa mudança repentina nas estruturas que não voltam a ser o que eram. Entendo Maravilhosa Catástrofe como a quebra necessária para vir a maravilhosidade. Da dor à glória, da ruína à celebração, este é o sentido [da exposição]”, reflete Fefa em entrevista à Revista O Grito!.

Permanentes imprevistos. Maravilhosas catástrofes
A maturidade para encarar positivamente a ruína estampada na carta “A Torre” não é do acaso. Produzidas entre 2024 e 2026, as obras são resultado de um longo processo de entender quem se é e o local que ocupa no mundo. A resposta não é exata, mas conforta: a transição é inerente e o imprevisto é algo que vai sempre acontecer. Quando pintada de outra perspectiva, fica fácil enxergar a maravilha na catástrofe.
Por meio da inversão de narrativa, Fefa adiciona referências pessoais, que perpassam o carnaval e o imaginário do Recife, no simbolismo cristão presente em técnicas europeias de pintura. A tela intitulada Encontre A Beleza da Fera (Tormentos de Santo Antão) é um exemplo.


Pelas mãos de Fefa, a representação, feita por Michelângelo, do eremita que tem a fé testada por demônios que o provocam espiritual e fisicamente em meio ao isolamento no deserto, é transformada em uma celebração ao corpo: “Na minha interpretação, o corpo que já está nu abre os braços e se entrega. Existe ameaça, mas existe um consenso. O corpo não resiste, ele está obtendo prazer dentro dessa dinâmica. Então é uma celebração em ter prazer com o corpo”, explica.
Além da inversão, outras duas características da obra de Fefa Lins ficam evidentes na obra: o autorretrato e a nudez. A representação de si mesmo no centro da tela é uma crítica à forma hegemônica da representação dos corpos na pintura eurocêntrica. Na contramão do olhar do homem europeu, branco e cishétero sobre o outro, defende o autorretrato como estratégia.
“Imagens sobre o outro são imagens de poder: quando você projeta uma imagem para aquele corpo, você cria uma narrativa de como ele deve ser. Quando falo de mim, evito falar de outros corpos de uma forma distorcida e, ao mesmo tempo, não deixo que cometam esses equívocos sobre mim”, afirma.
De forma mais íntima, Fefa compartilha o quanto o autorretrato foi o caminho possível para se ver representado em uma tela. No campo literal, a técnica começa a ser explorada em um momento em que o artista tinha poucos espelhos em casa, mais especificamente, um pequeno o suficiente para ver apenas o rosto. Simbolicamente, a motivação é ainda mais forte.
Como pessoa transmasculina, o autorretrato é um registro em pintura do próprio corpo em transição: “pintar retratos é uma forma de me enxergar construindo um corpo que vai se transformando, ao mesmo tempo que tá sendo harmonizado o corpo está envelhecendo. De alguma forma, acaba sendo mais que um processo de transição de gênero, é um processo de transição de vida”.
Em meio ao inevitável questionamento se há sentido no que pinta, Fefa é emocionalmente tocado pela força da significação do que produz:
“Conheço poucas pessoas transmasculinas mais velhas, porque historicamente não temos esses registros. A gente sabe como é violento e difícil existir, e como antigamente era ainda mais difícil. […] Então esse corpo envelhecer é uma vitória. […] O que a gente pode esperar se eu tiver pintando isso daqui a 50 anos? Me enche a ideia [só de] pensar no futuro e na importância histórica do autorretrato de uma pessoa transmasculina”, imagina.
À medida que reconhece a posição política do próprio trabalho e se fortalece, ocupa cada vez mais espaços de reconhecimento na arte nacional. Atualmente, insere a representatividade transmasculina em coleções como as do Masp e da Pinacoteca de São Paulo.
Não há como negar, o autorretrato e a nudez são ferramentas no aprofundamento dos significados. Por isso, vale lembrar que, não restrita ao erotismo, a nudez é posicionamento. O corpo nu de Fefa resiste aos signos capazes de ditar normas de comportamento presentes em uma mera peça de roupa.
Não é dualidade e sim ambivalência
Em Maravilhosa Catástrofe, a destruição desenhada na carta “A Torre” ganha diversos contornos. Em Encontre A Beleza da Fera (Tormentos de Santo Antão), por exemplo, a predominância do azul simboliza a abertura de frestas após a ruptura e nasce da observação cotidiana do céu recifense durante o verão. A cor também estabelece um diálogo afetivo com o Carnaval por meio do álbum Estação da Luz (1985), de Alceu Valença. Os versos da faixa-título “é um pintor passageiro colorindo o mundo inteiro, derramando seus azuis […] pintor chamado verão”, atravessaram o processo de criação e condensam uma imagem que reaparece nas telas de Fefa: a paisagem da cidade tingida pelos azuis do céu.
Já o cenário de paredes de tijolos em ruínas da tela intitulada Renascido e Cru chama atenção para a força da materialidade na obra do artista. “Eu gosto da ideia de que tudo é feito da mesma matéria. Na pintura, um tijolo quebrado é um corpo que é cortado, sabe? A asa costurada também se conecta com esse tijolo partido”, pontua.


Posicionada ao lado de Renascido e Cru, um escombro que serve de suporte para a pintura funciona quase como uma extensão física dos tijolos em ruínas que predominam na tela. De forma semelhante, o processo de transição se faz presente em ambos. “Eu tenho identificado processos de transição que eu identifico no meu corpo nessas materialidades. Têm cicatrizes, queimaduras de sol, [porque] estamos sempre sendo atravessados pela ação do tempo, porque é tudo a mesma matéria”, considera.
A convivência entre essas forças atravessa toda a exposição e ajuda a explicar o próprio título da mostra. Em resumo, Maravilhosa Catástrofe parte das oposições para mostrar que existe convivência entre estados aparentemente contraditórios. Fefa Lins faz questão de relembrar que a alegria não apaga as marcas deixadas pelo tempo, muito menos de a ruína ser capaz de eliminar a possibilidade de haver festa.
“Você nunca vai me ver fazendo um trabalho que é completamente feliz. É sobre a ambivalência das coisas, entender que as questões são complexas. Nós carregamos marcas, feridas, cicatrizes, cortes, facas e flechas. Mas, apesar disso, seguimos. [Por isso] gosto do que Guilherme escreve: ‘entre a desgraça e a glória de viver, cair em festa’, porque tem a celebração, tem o carnaval também”, conclui.
A exposição Maravilhosas Catástrofes segue em cartaz na Galeria Amparo 60, localizada no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife. 15 obras de autoria do artista visual pernambucano, Fefa Lins, com curadoria de Guilherme Moraes, estão reunidas até 10 de agosto. A visitação é gratuita de segunda a sexta, das 10h às 19h; e aos sábados, das 10h às 15h.

Acompanhe o trabalho do artista visual pelas redes sociais: @fefa.lins


