Após estreia no 32º Janeiro de Grandes Espetáculos, a peça Pela Noite retorna ao palco para um temporada no Teatro Hermilo Borba Filho, no bairro do Recife, área central, nos dias 8, 9, 15 e 16 de agosto. Com mudanças pontuais, a premissa do espetáculo adaptado do livro homônimo do autor gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996) é mantida: atravessar o sofrimento e o desejo presente no reencontro de dois homens que não se viam desde à infância.
Publicado no livro vencedor do Prêmio Jabuti e intitulado Trilogia das Águas (1983), o conto ganha adaptação e direção de Edjalma Freitas, responsável por transportar o enredo igualmente sensual e provocador para o roteiro de um espetáculo produzido pela NOZ Produz, formada por Rogério Wanderley, Álcio Lins e Rebecca Lima.
Em cena, o público acompanha dois homens sem nomes. À medida que a personalidade de cada é construída junto ao roteiro, as alcunhas são reveladas: Pérsio (Rogério Wanderley) e Santiago (Paulo César Freire). 20 anos após o último encontro, reúnem-se em uma noite de sábado marcada pela tensão entre um amante da efervescente paixão e um apaixonado pela tranquilidade do amor.
É o amor que sustenta o principal embate dramatúrgico da peça. Caio Fernando Abreu contrapõe a paixão idealizada à intimidade construída no cotidiano, o produtor e ator Rogério Wanderley explica isso em entrevista à Revista O Grito!: “A gente se apaixona por uma fantasia do outro. Quando o tempo passa, as máscaras vão caindo, a superficialidade vai indo embora e a gente começa a conhecer o outro”. Santiago confronta Pérsio ao defender que amar significa aceitar o outro na dimensão mais humana, inclusive nos aspectos que costumam ser rejeitados ou idealizados.
“Diferentemente de Pérsio, Santiago tem uma maturidade amorosa. Santiago é um elefante cinza que tem uma relação muito forte com seus pares. Já Pérsio é um pavão – tem aquela beleza, mas, quando você tira a calda, sobra uma ave indefesa”, define Wanderley.
Embora sejam atravessados pela melancolia, os personagens de Pela Noite se amparam na comédia. Não como contraponto ao drama, a comicidade se apresenta, na verdade, como parte da própria linguagem concebida por Caio Fernando Abreu e preservada pela montagem. O intuito é demonstrar como o humor pode ser uma forma de sobrevivência. Especificamente no caso de Pérsio, são mecanismos para não encarar feridas que nunca deixaram de existir.
“Pérsio é aquela pessoa que tem brincadeiras às vezes tóxicas porque o mundo foi muito tóxico com ele também. As pessoas o chamavam de fresco [em tom pejorativo] e ele nem sabia o que era aquilo. Sempre que uma situação é chata, complicada, Pérsio tira uma piada”, adiciona Wanderley.
Os pensamentos e medos ocultos que raramente seriam expostos pelos personagens são apresentados ao público por meio da narração em 3ª pessoa de Caio Fernando Abreu personificada em duas atrizes. Amanda Clélia e Wydi Silva interpretam um coro e dão materialidade às consciências de Pérsio e Santiago.
Por meio do cenário circular, assinado por Peu Carneiro, o público também acompanha a construção da noite dos personagens. A estrutura formada por andaimes acompanha o percurso emocional dos protagonistas, enquanto se movimenta para marcar o início, o desenvolvimento e o encerramento da noite compartilhada entre eles.

Cinquenta anos depois da publicação, Pela Noite, de Caio Fernando Abreu segue atual e conectada com as discussões de gênero e sexualidades dissidentes contemporâneas. “Esse espetáculo é construído tanto para aqueles que já amam quanto para aqueles que não conseguem ou não conseguiram amar. A gente traz esse espetáculo como um sopro de esperança na vida, para quem está amando se renovar”.
Serviço
8, 9, 15 e 16 de agosto
Local: Teatro Hermilo Borba Filho, Cais do Apolo nº 142, bairro do Recife, área central
Sábados às 18h e domingo às 17h
Classificação Indicativa: 16 anos
Ingressos no Sympla: R$70,00 (inteira), R$35,00 (meia), R$ 35,00 (meia social)


