Buenos Aires (PE)
Cidades pequenas do interior, em geral, são lugares muito simpáticos. Assim é Buenos Aires, município da Zona da Mata Norte em Pernambuco, a 78 km do Recife. Com seus 13.200 habitantes, cercada por canaviais, como outras localidades da região, é terra de maracatus e caboclos de lança.
Mas Buenos Aires tem um aspecto pitoresco: por conta de ter o mesmo nome da capital da Argentina, os moradores da cidade – os buenairenses – têm um apreço especial pela sua homônima, principalmente quando o assunto é futebol. O estádio local se chama La Bombonera, o principal time da cidade se chama Boca Juniors e na Copa do Mundo muita gente torce pela Argentina.
E esse é o mote do documentário Buenos Aires, de Tuca Siqueira, que está em cartaz no Cinema da Fundação e que ganhou uma exibição apoteótica no último domingo na quadra de esportes do município. A sessão foi uma festa em grande estilo. Teve pipoca e algodão doce de graça, banda de música, prefeito feliz, homenagens e uma plateia mais que satisfeita em se ver na tela do cinema. O entusiasmo das palmas e gritos de alegria no final da sessão que o digam.
E justiça seja feita, o filme é generoso e carinhoso com o seu tema. A cidade retratada por Siqueira é um local pacato e feliz, como diz um dos personagens ao descrever, em um espanhol com sotaque pernambucano, o que sente pelo lugar onde nasceu.
Semelhante a outras localidades que tiveram por muitas décadas a produção de açúcar dos engenhos como principal fonte de renda, a vida em Buenos Aires nem sempre foi fácil. Tuca Siqueira, no entanto, preferiu dirigir seu olhar para revelar uma cidade que hoje se diverte com o forró, o maracatu e brinca com a história de serem portenhos pernambucanos admiradores do jogador Lionel Messi.
O filme tem o tom de uma crônica bem humorada que trata de temas como pertencimento, desejo e identidade coletiva, como afirma a cineasta. A decisão de realizá-lo surgiu quando ela viu um livro de fotografias de Josivan Rodrigues com imagens da cidade. Ao visitar Buenos Aires, ela conta ter ficado impressionada com a capacidade de sonhar de seus habitantes. “O que mais me chamou atenção foi a relação dos moradores com o imaginário argentino e como eles conseguem fabular para resistir e suportar o real”, diz.
A cineasta lembra que até mesmo a origem do nome da cidade tem várias versões, embora a mais corrente seja a referida pelo historiador Leonardo Dantas. Originalmente o lugar era conhecido como Jacu, mas em 1842 um padre que havia morado na Argentina chegou por lá e passou a chamar o engenho de Buenos Aires. Dali surgiu a vila que, ao ser elevada à categoria de município, em 1963, teve o nome Buenos Aires oficializado.
A intenção de Siqueira foi fazer o que ela mesmo define como “filme-paisagem”. Com uma narrativa leve, ela foca no cotidiano dos moradores mesclando suas histórias e as ações corriqueiras de suas vidas com esse desejo de estabelecer um vínculo imaginado com a capital argentina. “O nosso objetivo era fazer que o grande personagem da obra fosse essa atmosfera que a cidade carrega: a possibilidade de sonho”.

Para conseguir compor essa atmosfera, a cineasta entregou aos personagens a conduta da trama, ou seja, são os seus feitos e depoimentos que constroem a narrativa de uma forma divertida e envolvente. É a partir das falas dos personagens que vamos descobrindo como eles se preparam para o carnaval, como e porque eles pintaram com cores vivas um conjunto de casas tentando reproduzir o Caminito – bairro de casas de madeiras coloridas na Buenos Aires argentina – e como duas mulheres decidem fazer empanadas a partir de uma receita que pegaram na internet.
Reforçando o próprio jogo de espelho proposto pelos moradores, Tuca colocou como narradora do filme uma professora de espanhol que, no mesmo idioma, vai costurando o enredo e revela a dimensão ficcional contida no documentário, consequência da fabulação que eles mesmo constroem sobre a cidade em que vivem.
Assim, é bom ressaltar que embora eles desfraldem bandeiras e usem camisas azul e branco ao assistirem jogos da seleção de futebol argentina na televisão, eles torcem de verdade, em primeiro lugar, pela seleção brasileira. Mas se essa sai de cena na disputa do título, como tem acontecido nas últimas copas, são “los hermanos” que ganham a preferência. Foi assim em 2022 e se esse ano acontecer de novo, eles não pensarão duas vezes.
E para quem quiser conferir o documentário Buenos Aires e saber mais sobre a sua realização é só ir na sessão desta terça (16), às 19 horas no Cinema da Fundação do Derby, que vai ter debate com a diretora Tuca Siqueira.
O jornalista viajou a convite da produção do filme.


