N’Ginga Queen nasceu de uma encruzilhada. Entre a universidade e o terreiro, os afoxés e a cultura popular, o Recife e o Alto Sertão de Alagoas, a experiência de ser um homem gay e negro e o desejo de traduzir essas vivências em imagem, performance e presença, Gustavo Gomes gestou uma persona drag que carrega na própria estética uma afirmação política. “N’Ginga é essa encruzilhada que conecta pessoas”, define.
Professor universitário, pesquisador e candomblecista, Gomes começou a repensar a própria identidade racial durante a graduação em História, quando teve contato com os estudos sobre África e negritude. Até então, carregava as marcas de uma infância atravessada pelo racismo e pela rejeição estética. Na escola, chegou a ser escolhido como “o menino mais feio da turma”, experiência que se transformou em uma sentença íntima. O encontro com a História da África, os afoxés e o candomblé seria decisivo para reconstruir essa relação consigo mesmo.
É dessa maturação que surge N’Ginga, figura inspirada na rainha Nzinga, liderança africana que, para o artista, sintetiza força, inteligência, estratégia e um feminino negro resistente. “N’Ginga é uma inspiração de construção de uma pessoa negra feliz”, afirma. A personagem não busca uma única imagem de negritude: pode aparecer como uma rainha africana ancestral, uma diva da música, uma Miss ou experimentar a androginia. Em todas essas possibilidades, porém, existe uma escolha que permanece: “Você se afirmar preta é um posicionamento político”.
A persona cênica também carrega a experiência de ter sido moldada longe dos grandes centros urbanos. Foi no Sertão de Alagoas, para onde o pesquisador se mudou após ingressar como docente da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que N’Ginga começou a ganhar forma. A princípio, a montação surgiu quase como uma brincadeira entre estudantes, inspirada no reality RuPaul’s Drag Race. A vivência cresceu, virou competição, conquistou público e acabou formando um grupo profissional.
Anos depois, já de volta ao Recife, N’Ginga passou a ocupar concursos e palcos da capital, chegando ao Top Drag Pernambuco e vencendo a segunda edição do Lipsynca. Para o criador, entretanto, ocupar esses espaços nunca foi apenas uma questão de visibilidade. “Fazer drag é você discursar sobre a sua existência”, afirma.
Sua presença no palco procura também disputar imaginários: mostrar um corpo negro, um cabelo crespo volumoso, uma estética afrocentrada e uma bagagem sertaneja em lugares onde essas imagens nem sempre são esperadas. “N’Ginga faz um movimento contrário ao padrão que historicamente privilegia determinadas formas de beleza”, pontua.
Ao mesmo tempo, a personagem representa uma dimensão íntima desse percurso. Depois de uma infância marcada pela rejeição e pela dificuldade de se reconhecer como uma pessoa negra, o artista encontrou na arte transformista uma possibilidade de reconstrução. “Eu queria ser igual a você”, imagina que diria a criança que foi ao encontrar N’Ginga hoje.
Entre a ancestralidade dos terreiros, o frevo, o maracatu, o afoxé, o coco de roda e as referências das mulheres negras que atravessam sua formação, a performer continua experimentando possibilidades. “Eu não quero ter limites para as possibilidades plurais de ser negra”, diz.
Gustavo Gomes falou à Revista O Grito! sobre a criação de N’Ginga Queen, a experiência de fazer drag no interior, a importância da representatividade negra e os próximos passos de sua arte. Confira:
Você costuma dizer que N’Ginga nasce da ancestralidade e da resistência. Como essa personagem foi sendo construída até chegar à artista que conhecemos hoje?
Eu venho de uma história que, de certa maneira, é compartilhada por muitos brasileiros: sou uma pessoa negra, criada na periferia, em um contexto no qual não havia muita consciência de classe ou de raça. Durante muito tempo, inclusive, eu me construí como uma pessoa morena. Foi somente na universidade, durante o curso de História, quando tive contato com a disciplina de História da África, que comecei a repensar profundamente o que significava ser negro. Ali tive acesso, pela primeira vez, a debates que tratavam das identidades negra, afro-brasileira, africana e afrodiaspórica com dignidade, profundidade e respeito, desconstruindo muitos dos estereótipos que havia aprendido.
Foi uma virada de chave não apenas intelectual, mas também emocional. Passei a repensar a maneira como enxergava a negritude e como enxergava a mim mesmo. Na escola, durante a oitava série, fui escolhido como o menino mais feio da turma. Fizeram uma lista, que foi colocada no corredor da escola, e aquilo se tornou motivo de xingamentos constantes por causa do meu cabelo crespo, dos meus lábios grossos, do meu nariz e dos meus traços negros. Eu era muito magro e tinha os traços negroides bastante acentuados. Aquilo foi profundamente traumático. Passei a acreditar que era realmente feio e que ninguém iria querer se relacionar comigo. Eu não queria ir para a escola, não quis participar da formatura da oitava série e me isolei bastante. Quando tive contato com a História da África, comecei a reconstruir essa percepção. Não repensei apenas minhas ideias sobre a negritude; repensei também as representações que tinha sobre mim.
A partir daí, passei a buscar tudo o que dizia respeito à cultura afro-brasileira. Foi quando cheguei aos afoxés e, posteriormente, aos candomblés. Dancei durante dez anos no Afoxé Oju Obá, onde ouvi coisas que foram fundamentais para minha autoestima, como “negro, você é lindo” e “você pode”. Quando deixei o cabelo crescer, comecei a usar o afro e as tranças. Foi uma transformação na minha relação com a estética e com meu próprio corpo. Naquela época, o ambiente LGBTQIA+ também era muito racista. Eu era preto, muito magro e vinha de uma condição econômica simples. Nos afoxés e nos candomblés, porém, era tratado com respeito e carinho. Então fui sendo alimentado por diferentes formas de conhecimento: o saber científico da universidade, o saber militante dos movimentos sociais, o saber artístico dos afoxés e o saber litúrgico dos terreiros. Foi desse cruzamento que surgiu N’Ginga. Talvez possamos pensar N’Ginga como uma grande metáfora existencial: uma encruzilhada entre os terreiros de candomblé, o movimento negro, a universidade, os afoxés e a comunidade LGBTQIA+. Dessa encruzilhada surge essa mulher negra poderosa, forte, imponente e bonita. N’Ginga é uma afirmação de resistência ao racismo e uma tentativa de inspirar outras pessoas a se reconstruírem como pessoas negras, empoderadas e felizes com sua própria identidade. Pessoa negra, você é linda. Você pode.
Seu nome faz referência à Rainha Nzinga, uma das maiores lideranças africanas. O que essa escolha representa para você dentro e fora do palco?
Representa empoderamento e também uma conexão com o feminino. Eu sou um homem gay cis, mas esse meu lado feminino aflora em N’Ginga. E não é apenas um feminino: é um feminino negro e resistente. Nzinga foi rainha, estrategista, diplomata e guerreira. Era uma mulher altiva e imponente, mas também sensível, inteligente e obstinada. É uma figura que representa uma mulher negra que se construiu de maneira muito forte. Em uma sociedade racista, homofóbica e xenofóbica, precisamos de referências que nos deem prazer em viver, que nos inspirem e fortaleçam. N’Ginga é uma inspiração para a construção de uma pessoa negra feliz, que brilha. Eu sou candomblecista e, na minha concepção do divino, Olorum deu a cada um de nós um raio de sol e disse: pegue o seu raio de sol e brilhe; não se apague e não deixe que ninguém se apague. N’Ginga é esse brilho. Não é um brilho baseado na arrogância ou na ideia de ser mais do que alguém. É um brilho coletivo, porque venho das experiências dos movimentos sociais, dos terreiros e dos afoxés. N’Ginga é essa encruzilhada que conecta pessoas.
Fazer drag no Sertão ainda significa enfrentar desafios diferentes daqueles vividos por artistas das capitais. Como foi construir sua trajetória nesse contexto?
Comecei a fazer drag porque meus alunos me apresentaram o RuPaul’s Drag Race. Quando saí do Recife para morar no Sertão de Alagoas, senti falta da cultura recifense e de uma vida cultural mais movimentada. Eu já tinha uma relação com a cultura negra e com os afoxés, e foram os próprios jovens que me apresentaram o reality. Eu me apaixonei porque, além das performances e da montação, passei a conhecer as histórias de vida das artistas. Aquilo me comoveu porque me reconheci em muitas daquelas histórias: o medo de assumir a sexualidade, a luta para ser aceito pela família e a necessidade de construir uma identidade.
No Sertão, decidi experimentar a drag. No começo, não havia muitas referências ou técnicas disponíveis. Fui aprendendo pelo YouTube. Também não havia drag queens na cidade que pudessem me ensinar. Brincando com meus estudantes, fizemos uma versão adaptada ao Sertão do reality americano. Éramos apenas alguns gays do grupo, fazendo desafios e vídeos pelo celular. Eu financiava os prêmios semanais e o prêmio final dentro das minhas possibilidades. A primeira temporada deu certo. O pessoal do afoxé soube e quis participar da segunda. Naquele momento, ainda tínhamos receio de levar aquilo para toda a cidade, porque Delmiro Gouveia (AL) tem um histórico muito violento de LGBTfobia. Na terceira temporada, a cidade já sabia que está tínhamos nos montando e houve um grande interesse. Já não cabíamos mais na minha casa, onde tudo acontecia nos fins de semana. Comecei então a transmitir pelo Instagram da N’Ginga. Tivemos três temporadas do Sertão Drags.
O que começou como uma brincadeira foi ficando cada vez mais sério. Aumentamos os prêmios e, na última temporada, alugamos uma chácara, tivemos DJ, comidas e bebidas e fizemos uma grande noite de competição com transmissão ao vivo. Depois disso, formamos um grupo profissional. Algumas pessoas não quiseram continuar, e acabamos ficando em três. Hoje temos um trabalho profissional, fazemos projetos e recebemos cachê no Sertão de Alagoas. Eu ainda moro lá porque sou professor da Universidade Federal de Alagoas. Passo três dias por semana em Alagoas e quatro no Recife. Então vivo esse trânsito entre os dois lugares.

Você acaba de vencer a segunda edição do Lipsynca e, agora, chega ao Top Drag Pernambuco representando o Sertão. Em que momento você percebeu que sua arte estava alcançando novos espaços?
Na verdade, eu me lancei como drag queen na minha terra natal, Recife, em setembro de 2025, no Top Drag Pernambuco. Fiquei em quarto lugar. A partir daí, comecei a participar de outros concursos, como Miss Pernambuco, Miss Rio Grande do Norte e, agora, o Lipsynca. Desde o Top Drag, as pessoas passaram a me conhecer realmente como drag queen. Como eu morava no Sertão de Alagoas, algumas pessoas pensavam que eu era de lá. Mas eu sou recifense, do bairro de Apipucos. Estudei no Colégio Marista, como bolsista, e na Escola Estadual Padre Machado, em Casa Amarela. Fiz graduação na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), especialização na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e mestrado em História também na UFRPE. Quando passei no concurso para professor da UFAL, fui morar em Delmiro Gouveia, onde permaneci por 13 anos. Depois voltei para o Recife. Eu não posso dizer que trago somente a negritude. Ela é muito forte em mim e foi construída antes de eu morar no Sertão. Mas também trago comigo toda a experiência que vivi lá: as comunidades quilombolas, os debates sobre identidade negra com meus estudantes e as pesquisas que desenvolvo no Alto Sertão de Alagoas. Então, quando volto para o Recife, trago comigo essa compreensão de que o Sertão também é um lugar de presença negra. Isso aparece no Top Drag e continuará aparecendo. Quero estetizar artisticamente para o palco todos esses saberes que construí nas vivências do Sertão, nos terreiros, nas comunidades quilombolas e na universidade.
Em uma publicação recente, você falou sobre levar “a força ancestral” para o concurso. Como essa ancestralidade aparece na maquiagem, nos figurinos, nas performances e na maneira como você ocupa o palco?
N’Ginga tem os pés firmados na negritude. Eu sempre me afirmo como uma rainha preta, e isso é um posicionamento político em uma sociedade racista. Mas a negritude nunca foi uma camisa de força. Pelo contrário, ela representa uma multiplicidade de possibilidades de existência. N’Ginga experimenta diferentes estéticas negras. Há quem prefira quando ela aparece como uma rainha africana ancestral, com vestidos longos, tecidos africanos, estampas animal print, cabelos volumosos e uma estética mais teatral e cinematográfica. Mas N’Ginga também é atravessada pelas divas da disco music, pelas divas dos anos 1980, 1990 e 2000, pelas grandes mulheres negras da MPB e pelas atrizes negras. Este ano, N’Ginga também experimentou ser Miss e, pela primeira vez, uma estética andrógina, em uma apresentação na Metrópole. Eu não quero ter limites para as possibilidades plurais de ser negra.
Quero estar sempre fincada na negritude, mas pensando na multiplicidade de ser negro. Isso aparece nos penteados, nos figurinos, na maquiagem, no corpo e nas músicas. Eu amo os cabelos crespos e cacheados, especialmente os cabelos altos e volumosos. Muita gente já associa esse cabelo à N’Ginga porque não é uma estética tão comum entre as drags do Recife. N’Ginga chama atenção para o próprio corpo, seja ele natural ou construído. Chama atenção para os cabelos volumosos, para a maquiagem, para o gestual, para o sorriso, para a escolha das músicas e para tudo o que comunica sua identidade. No concurso de Miss, por exemplo, entrei com um moicano enorme de cabelo crespo. Muitas pessoas consideraram ousado, porque é comum que as candidatas apareçam com cabelos alisados. O público respondeu muito bem e fiquei em segundo lugar tanto em Pernambuco quanto no Rio Grande do Norte. Essa ousadia de ocupar espaços afirmando aquilo que muitas vezes foi negado é um gesto político e estético. Posso estar usando um vestido luxuoso de Miss, mas vou continuar usando o cabelo crespo. Quero que as pessoas percebam que não sou apenas uma Miss, mas uma Miss preta. Se lembrarem de mim como “a negra” ou “a negona”, para mim a performance já cumpriu seu papel.
Existe uma responsabilidade maior quando você se torna uma das poucas drags sertanejas em destaque no estado?
Eu sou do Recife. Fui morar no Sertão porque passei em um concurso público, mas não posso negar que aprendi muito lá. Aprendi com minhas irmãs e com meus amigos gays que se montam. Fomos formando uma irmandade, e isso foi muito importante para minha trajetória. Eu acredito que existe uma responsabilidade muito grande em ser artista e, especialmente, em ser drag queen. A drag está muito associada à homossexualidade e, quando você acrescenta a questão racial e social, essa responsabilidade aumenta. Sou um gay negro. Embora tenha nascido em Apipucos, um bairro considerado nobre, sou filho de mãe solo e fui criado em uma ocupação. Minha experiência não é a de uma pessoa da elite daquele bairro. Então acredito que minha responsabilidade é principalmente com a luta antirracista. Minha arte expressa esse compromisso. Também faço questão de dizer que comecei a fazer drag no Sertão. Aprendi muito lá e não quero apagar essa história. Pelo contrário, quero levar comigo essa experiência.
Muito se fala sobre representatividade, mas o que significa, na prática, ser uma drag negra e sertaneja ocupando espaços de visibilidade?
Representatividade é inspirar pessoas a se aceitarem, a se sentirem bem consigo mesmas e a multiplicarem essa inspiração. Não se trata apenas de ocupar um palco. É também ocupar um lugar subjetivo, aquele espaço da nossa consciência em que precisamos nos sentir queridos. Em uma sociedade racista, classista e homofóbica, muitas vezes somos preteridos. Eu mesmo vivi isso. Por isso, quando N’Ginga ocupa um palco e é recebida com amor, quando é aplaudida em vez de vaiada ou xingada, existe uma dimensão emocional muito forte nesse gesto. Muitas drag queens e artistas transformistas são extremamente corajosas desde cedo e começam a fazer arte independentemente de estudo, emprego ou condição financeira. No meu caso, porém, demorei a ter essa coragem. Eu venho de uma família conservadora e de uma comunidade marcada pelo neopentecostalismo.
Também passei por experiências nos candomblés, nos afoxés e na universidade. Só tive coragem de me montar depois de conquistar independência financeira e estabilidade profissional como professor universitário. Montar N’Ginga foi doloroso, caro e trabalhoso, mas também foi libertador. É uma maneira de realizar o sonho daquela criança que colocava uma toalha na cabeça, experimentava as roupas da mãe e queria sentir o poder que via nas mulheres da televisão. Hoje, N’Ginga ocupa várias realidades ao mesmo tempo. Ela está no palco, mas também está em um lugar de amor, de reconhecimento e de pertencimento. Durante muito tempo, eu não me senti querido dessa maneira. Então, para mim, representatividade também é recuperar o emocional, o poético, o estético, o político, o profissional e o artístico. É uma forma de cura.
Suas performances misturam potência, elegância e um forte discurso visual. Quais artistas, referências culturais ou manifestações populares alimentam o seu trabalho?
Primeiramente, a Rainha Nzinga, que inspira o próprio nome da personagem e representa essa figura da mulher negra empoderada. Também me inspiro nas divas cantoras, nas divas atrizes, nas rainhas negras africanas e nas drag queens negras. Quando assistia ao RuPaul’s Drag Race, sempre torcia pelas drag queens negras. Minha formação também vem dos afoxés de Pernambuco, que foram minha primeira casa artística, dos candomblés, das entidades e das iabás, além das cantoras, atrizes, mulheres negras da periferia, cientistas, doutoras e mulheres negras de diferentes classes sociais. De maneira geral, a figura feminina negra é uma grande fonte de inspiração para N’Ginga.
“Quero estetizar artisticamente para o palco todos esses saberes que construí nas vivências do Sertão, nos terreiros, nas comunidades quilombolas e na universidade.
N’Ginga Queen
Como a cultura popular do Sertão atravessa sua identidade artística?
A cultura popular negra do Recife já está muito presente em mim por meio do frevo, do maracatu, do afoxé e do coco de roda. Do Sertão, vem principalmente essa ideia do afro-sertanejo. Aprendi muito com as mulheres quilombolas, as artesãs negras e as jovens negras universitárias. Também fui profundamente influenciado pelas comunidades quilombolas e pelos terreiros do Alto Sertão de Alagoas. Essas experiências acrescentaram novas referências às que eu já trazia do Recife. Tenho, por exemplo, um figurino belíssimo de frevo. Algumas pessoas perguntaram se, ao usar aquela roupa, eu havia deixado de lado a cultura afro. Não. O frevo também é uma manifestação profundamente marcada pela população negra. Então o frevo, o maracatu, o afoxé e o coco de roda sempre estarão presentes na minha drag.
O que o público normalmente não vê nos bastidores de uma apresentação de N’Ginga Queen?
Não vê aquele momento em que fico olhando para o nada, imaginando e sorrindo timidamente enquanto viajo no tempo e no figurino da performance. É ali que começa o trabalho criativo. Também não vê as horas dedicadas a pensar o figurino, os custos financeiros, as discussões sobre a performance, as horas necessárias para me montar e as dificuldades de ir sozinha para uma apresentação que, muitas vezes, não deveria ser feita sozinho. N’Ginga dirige o próprio carro. Quando estou de bota, dirijo de bota; quando não consigo, vou descalço e coloco o salto no local da apresentação. Existe ansiedade, mas também muito compromisso e respeito pelo meu trabalho e pelo público. Quero oferecer o meu melhor. Tenho muita ética com o que faço, não busco prejudicar ninguém e procuro trabalhar com humildade, dignidade e consciência de que ainda tenho muito a aprender. Também existe muita pesquisa, concentração, entrega e, acima de tudo, muito axé. Há ainda coisas que são menos visíveis, como o amor da minha família. Minha mãe, que durante muito tempo teve dificuldades em aceitar minha sexualidade, hoje pergunta sobre N’Ginga e vai assistir às apresentações. Tenho também um companheiro que me apoia e é fã da personagem. E existem os abraços das drag queens, esse acolhimento que recebi ao longo da trajetória. Tudo isso também faz parte de N’Ginga.
“Precisamos de mais lugares LGBTQIA+ para nos apresentar, mas também de espaços heterossexuais que entendam que uma drag queen não necessariamente está fazendo uma apresentação sexualizada. É uma performance artística, muitas vezes teatral. Também precisamos que as pessoas entendam que o que fazemos é arte e envolve investimento. Precisamos de cachês dignos, alimentação e uma rede de apoio”
N’Ginga Queen
Vencer o Lipsynca mudou sua relação com a arte ou aumentou a cobrança sobre você?
A cobrança não aumentou porque eu sempre me cobrei muito. Durante o São João deste ano, enquanto muitas pessoas estavam viajando, passei horas em casa estudando letras em inglês, traduzindo, entendendo a mensagem e o espírito das músicas, trabalhando a melodia e ensaiando. Mesmo tendo ficado muito resfriado, continuei ensaiando porque queria oferecer o melhor trabalho possível. Queria vencer o concurso, evidentemente, mas também queria apresentar novas vertentes de N’Ginga a um público mais jovem.
O que o Lipsynca e o Fenômeno proporcionaram foi a ampliação das minhas possibilidades. Passei a me apresentar em casas onde já trabalhava, mas também em lugares onde ainda não havia estado, como a Boate Metrópole. Também fui desafiado a fazer coisas que ainda não havia experimentado, como uma apresentação andrógina e uma performance no estilo Vogue. O Lipsynca também me proporcionou um ensaio fotográfico e novas entrevistas, como esta para a Revista O Grito!, que considero um importante espaço de divulgação da nossa cultura. É muito honroso ter esse registro na minha trajetória artística.
O Top Drag Pernambuco reúne algumas das principais drags do estado. O que mais te anima nessa experiência: competir, trocar experiência ou mostrar sua arte para novos públicos?
Quando participei pela primeira vez, eu queria muito competir para me sentir aceito na cena. Tenho uma memória afetiva muito forte da MKB e dos shows de drag do Recife. A cena daqui é gigantesca. Eu vinha do Sertão de Alagoas, com poucos recursos e uma experiência muito autodidata. Embora já fizesse drag há anos, tinha medo de não ser aceito como artista na minha própria cidade. Na primeira participação, minha preocupação era mostrar que eu era competente e que podia ser reconhecido como artista. Depois fui fazendo amizades. Conheci as meninas do Top Drag e percebi como são carinhosas.
Hoje continuo indo para competir, porque todo mundo quer ganhar uma competição, mas minha prioridade é mostrar meu trabalho. Quero me apresentar em um teatro, aproveitar uma estrutura diferente e criar algo bonito. Também estou ansioso para encontrar minhas amigas. Hoje não as vejo apenas como competidoras. São amigas. O Top Drag é uma vitrine, uma plataforma para ser visto, mas não quero ser visto apenas por vaidade. Quero proporcionar às pessoas uma experiência estética que seja gostosa de ver e sentir. Quero que, durante aqueles cinco minutos, elas esqueçam seus problemas e entrem em um estado de encantamento. E tem também a alegria dos bastidores, de encontrar as amigas nos camarins, abraçar, gritar, brincar. Quando nos encontramos, parece que não nos vemos há dez anos. É uma sensação muito gostosa.

O que você gostaria que uma pessoa que nunca assistiu a uma performance drag sentisse ao ver um show seu pela primeira vez?
Alegria e encantamento. Existem performances nas quais quero emocionar, outras mais dramáticas, outras mais dançantes ou joviais. Mas, em todas elas, quero que a pessoa se encante. Quero que ela sinta que a vida é gostosa e termine com aquela sensação de “quero mais”. Quero que o público se sinta verdadeiramente extasiado, como se houvesse uma suspensão do tempo e do espaço e, durante alguns minutos, pudesse simplesmente se entregar ao prazer dos sentidos.
Você acredita que fazer drag também é um ato político? De que forma?
Com certeza. O próprio ato de se afirmar já é político. Fazer drag é discursar sobre a própria existência. Durante muito tempo, deixei que outras pessoas dissessem quem eu deveria ser, como deveria me comportar e como deveria existir. Hoje sou eu quem diz. Sou professor universitário, cientista, doutor em Educação Brasileira, candomblecista, filho, marido. Cuido da minha espiritualidade e de outras pessoas. E também sou um artista gay que gosta de se montar. Todas essas dimensões coexistem. Exercer essa liberdade é um ato político. Isso não significa individualismo ou egoísmo. Venho de experiências coletivas, dos movimentos sociais, dos terreiros e dos afoxés.
Quero ser uma pessoa livre, mas uma pessoa livre que coopera, respeita, acolhe, fortalece e compartilha. Até mesmo fazer alguém sorrir em um mundo marcado pela desigualdade pode ser um ato político. Nossa arte também provoca reflexão por meio das músicas, das performances e das questões sociais e existenciais que apresentamos. Fazer sorrir e encantar em um mundo marcado pelo desencanto também é uma forma de resistência. Somos seres emocionais, estéticos e éticos. Trabalhar essas dimensões em uma sociedade que muitas vezes privilegia apenas a racionalidade, a competição e a produtividade também é um gesto político.
Há algum momento da sua trajetória em que você pensou em desistir? O que fez você continuar?
Acho que pensei em desistir em dois momentos ao longo de dez anos. Um deles aconteceu durante um processo de separação, quando fiquei muito triste e fragilizado. Felizmente, não parei, e um novo amor me inspirou a voltar. Também houve um momento em que me senti sobrecarregado por todas as coisas que faço: minha vida religiosa, profissional e artística. No Recife, eu ainda precisava aprender muitos detalhes para conseguir me manter na cena. Também sou uma pessoa neurodivergente, autista e com TDAH, e passei por períodos de estresse e sobrecarga muito grandes. Em determinado momento, cheguei a questionar minha própria competência. Mas sempre tive uma rede de apoio. Senti muito respeito e acolhimento das drag queens, da minha mãe, do meu companheiro e dos meus amigos. Hoje tenho sentido cada vez mais vontade de continuar, de ir além e experimentar coisas que ainda não experimentei. Quero fazer N’Ginga crescer ainda mais.
Quando olha para a criança que você foi, o que acha que ela diria ao ver N’Ginga Queen hoje?
Acho que ela diria: “Tu foi danado, viu? Muito danado.” Mas, pensando profundamente, acredito que aquela criança diria: “Como você é linda. Eu queria ser igual a você. Deixa eu dançar com você. Deixa eu ser linda e forte como você.” Essa seria a fala daquela criança que fui.
Qual foi a apresentação mais marcante da sua carreira até agora e por quê?
É difícil escolher uma. A minha primeira participação no Top Drag foi muito marcante porque foi minha primeira grande apresentação para o público do Recife. Montei aquele espetáculo praticamente sozinho, a partir das minhas próprias ideias, contando com a ajuda de amigos e sem ter o acompanhamento de alguém mais experiente na arte. Também fui muito marcado pela apresentação na inauguração do Bar Central das Estrelas e pela estreia na Boate Metrópole. Foram momentos muito empolgantes. A apresentação no Lipsynca também foi especial porque consegui mostrar, em uma única noite, diferentes versões de N’Ginga. Foi extremamente cansativo, mas muito prazeroso. Tive a oportunidade de mostrar a um público novo que N’Ginga possui diferentes possibilidades de performance.
O que ainda falta para que artistas LGBTQIA+ do interior tenham as mesmas oportunidades das que vivem nos grandes centros?
Primeiro de tudo, respeito. E não estou falando apenas de respeito à sexualidade, mas de respeito profissional. Precisamos de mais lugares LGBTQIA+ para nos apresentar, mas também de espaços heterossexuais que entendam que uma drag queen não necessariamente está fazendo uma apresentação sexualizada. É uma performance artística, muitas vezes teatral. Também precisamos que as pessoas entendam que o que fazemos é arte e envolve investimento. Precisamos de cachês dignos, alimentação, camarim para trocar de roupa com privacidade e uma rede de apoio. No interior também faltam cursos de formação para drag queens e uma conexão maior com as cenas das capitais. Para uma artista sair do interior e se apresentar em uma capital, existem custos de passagem, gasolina, hospedagem e alimentação. Uma rede de apoio poderia ajudar muito. As próprias artistas podem se receber, criar amizades e construir uma circulação mais acessível. Também precisamos criar casas, festas e ambientes para as drag queens se apresentarem no interior. Mas não basta levar cursos para essas regiões. É preciso também aprender com quem vive lá. As pessoas do interior têm muito a ensinar, especialmente sobre como ser humano.
Se pudesse definir N’Ginga Queen em apenas três palavras, quais seriam? NEGONA LINDA, AXÉ!


