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Ian McEwan traz dilemas éticos do século 21 no inquietante “O Que Podemos Saber”

Autor britânico utiliza o cenário de um futuro devastado pelo colapso climático como pretexto para examinar os limites da memória e da obsessão humana

Foto: Urszula Soltys/Divulgação.

O Que Podemos Saber 
Ian McEwan
Companhia das Letras, 384 páginas, R$ 89,90
Tradução de Jorio Dauster

A Companhia das Letras acaba de lançar a edição brasileira de O Que Podemos Saber, do escritor britânico Ian McEwan e com tradução de Jorio Dauster. O romance se passa no futuro, mais precisamente no ano de 2119, depois da Terra sofrer desastres climáticos e guerras nucleares devastadoras que provocaram inundações em escala global e reconfiguraram o planeta.

Embora tenha elementos precisos para classificá-lo como um romance de ficção científica, a obra é, na verdade, o pretexto para o autor refletir sobre dilemas morais humanos. Portanto, apesar do mundo distópico em que a trama se desenrola, nele não vamos encontrar  batalhas espaciais, naves ou engenhocas tecnológicas, o que move a trama são os conflitos e dramas pessoais dos personagens.

Isto, porém, não significa que o livro de McEwan não seja interessante e também inquietante. A narrativa acompanha a história de Thomas Metcalfe, um professor de literatura do século 22 que fica obcecado em localizar um poema composto no ano de 2014. O poema se chama “Uma Coroa para Vivien”, e teria sido escrito em um pergaminho por um célebre poeta chamado Francis Blundy como presente para sua esposa. O poema é lido em voz alta pelo seu autor no jantar de aniversário de Vivien, na presença de alguns amigos, mas nunca mais foi visto por ninguém.

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Na ficção criada por McEwan, Francis Blundy é retratado como um dos poetas mais importantes da língua inglesa no início do século 21. Para compor a personagem, o autor se inspirou em importantes poetas reais da língua inglesa e elegeu a “coroa de sonetos” como a forma poética do poema desaparecido. A forma é de origem renascentista e regida por exigentes regras de composição: uma sequência de 15 sonetos, em que o último verso de cada poema se torna o primeiro do seguinte, culminando num poema final composto pelas linhas inicias de cada uma das composições anteriores.

O fascínio do professor pela literatura do passado e a vida no século 21 o leva a investigar os arquivos digitais da época, que permanecem acessíveis mesmo 100 anos depois. Tom lê não só as notícias e conferências sobre Blundy, mas também os e-mails e mensagens dos presentes à leitura do poema, na esperança de encontrar vestígios para localizá-lo e poder concluir seu trabalho. Sua motivação não é muito diferente da que temos hoje quando nos debruçamos na obra e vida de autores dos séculos 19 ou 20.

Tom é um homem de meia idade, inseguro, insatisfeito e sem compreender porque seus alunos desprezam tanto o período histórico que ele tanto admira. Seu fascínio é tamanho que ele chega a se apaixonar pela figura de Vivien. 

Este não é o primeiro romance de McEwan com elementos futuristas. Em Máquinas Como Eu, de 2019, em uma Londres alternativa dos anos 1980, ele aborda o desenvolvimento da inteligência artificial e de androides hiper-realistas, cujo conflito surge quando um casal compra um desses robôs e um triângulo amoroso e ético se forma.

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As mudanças  climáticas, um dos panos de fundo de O Que Poderia Ser, também já esteve presente em Solar de 2010, uma sátira onde um físico vencedor do Prêmio Nobel tenta salvar sua carreira e o planeta desenvolvendo uma tecnologia de energia solar limpa baseada em fotossíntese artificial.

A estrutura narrativa desse novo romance de McEwan é um dos seus pontos mais  interessantes. O livro tem duas partes: na primeira desenvolve-se a visão analítica do professor Tom e as interpretações sobre os acontecimentos que ele tenta reconstituir a partir da leitura dos arquivos. Na segunda, quem ganha voz é Vivien, a esposa do poeta, cujo relato vai revelar o que realmente aconteceu.

É na primeira parte, transcorrida no futuro, onde a imaginação de McEwan tem mais vitalidade. Enquanto aborda a investigação desenvolvida por Tom, com alguns lances detetivescos e de suspense, vamos tomando conhecimento do estado do planeta, o qual, convenhamos, é bem convincente.

Na segunda parte, embora os elementos de ficção científica não estejam mais presentes, isto não a torna menos impactante que a anterior. Nela, a potência do texto desloca-se para as relações entre os personagens, que carregam uma atmosfera sombria e quase desesperada. Um desespero contido, mas perturbador.

Além de ser capturado pelo enredo repleto de questões envolvendo impasses morais e afetivos, o jogo narrativo esboçado por McEwan levanta uma discussão instigante sobre os limites do conhecimento histórico ao mostrar como os arquivos digitais do presente podem criar pontos cegos ou ilusões de verdade absoluta no futuro. 

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