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Novo selo traz a música pop como ponto de partida. (Divulgação)

SONNNNORA e a construção de uma nova pista pop no Recife

Coletivo formado pelos DJs LUCs, Saturno, Mia J e DeLaLuz nasce com o desejo de fortalecer a cena pop recifense, ampliar as possibilidades da pista e transformar a música em espaço de encontro, troca e descoberta

No Recife, a música pop nunca esteve ausente das pistas. Ela circula, se transforma, encontra públicos e divide espaço com diferentes cenas que fazem da cidade um território fértil para a discotecagem. Mas, para os DJs LUCs, Saturno, a drag queen Mia J e DeLaLuz, ainda há muito a ser explorado, como pensar o pop para além dos grandes hits e dos formatos já conhecidos.

É dessa paixão compartilhada que nasce o SONNNNORA. O coletivo surge do encontro de quatro DJs que enxergam no pop uma linguagem muito mais ampla do que aquilo que tradicionalmente chega às pistas. “A gente tem cenas de discotecagem muito fortes, no eletrônico, no reggae, no hip-hop, no brega funk, mas no pop eu sinto que isso é um pouco fragilizado”, observam.

Nesta sexta-feira (4), o SONNNNORA faz seu lançamento oficial nas pistas, na Casa Bacurau, no Recife. O projeto reúne o quarteto em torno de uma ideia que nasce tanto da paixão pelo pop quanto da percepção de que ainda existe espaço para ampliar sua presença na cultura de pista. 

A proposta não é criar uma oposição entre gêneros, tampouco reivindicar exclusividade sobre o pop. O que o SONNNNORA pretende é fortalecer uma cultura de pista em que DJs que pesquisam e se dedicam ao gênero possam ocupar mais espaços e, principalmente, explorar sua diversidade. “A ideia do SONNNNORA é justamente fortalecer esses DJs de pop”, explicam. O desejo é fazer com que essa cena seja “tão bem estruturada quanto o eletrônico, o hip-hop, o brega funk, o reggae”.

Mais do que uma festa, o coletivo se apresenta como uma rede. Uma tentativa de transformar aquilo que cada integrante já desenvolvia individualmente em uma movimentação compartilhada. “Separadamente já somos muito bons. Mas o coletivo é muito importante para criar algumas movimentações”, afirmam. A partir daí, entram em cena os encontros entre referências, gerações, gêneros e maneiras distintas de pensar a música.

Essa pluralidade está no centro do projeto. Para o SONNNNORA, o pop pode colocar lado a lado uma faixa esquecida de uma grande estrela, um lançamento recém-chegado às plataformas, referências latinas, house, reggaeton, clássicos dos anos 2000 e artistas que ainda estão construindo seu público. É uma lógica em que o inesperado também faz parte da curadoria. “A gente quer tornar as festas pop novamente divertidas, imprevisíveis e que abrangem o máximo possível de possibilidades.”

A pista, nesse sentido, não termina quando a música acaba. O coletivo também prepara o SONNNNORA Sessions, sets audiovisuais intimistas, além de conteúdos para as redes sociais sobre música, referências, playlists e o universo pop. A intenção é prolongar a experiência e criar outras formas de aproximação com o público. “A pista também acontece antes, a pista acontece uma semana antes, quando o pessoal já está planejando ir para a festa. Então a pista também acontece depois”, explicam.

Entre planejamento e espontaneidade, pesquisa e brincadeira, o SONNNNORA quer construir uma identidade que seja tão múltipla quanto as pessoas que o formam. E, no horizonte, existe uma ambição maior: contribuir para que a cena pop do Recife, de Pernambuco e do Nordeste seja reconhecida por sua própria identidade. “Mais do que movimentar a cena, acho que seria muito bonito olhar para trás e perceber que ajudamos a dar nome, espaço e confiança para uma cena que já estava aqui”, afirmam.

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“O que compõe um bom set não é só a curadoria ou conhecimento técnico, mas a possibilidade de construir uma narrativa”

Nesta conversa, os integrantes do SONNNNORA falam sobre a lacuna que identificaram na cena recifense, a construção coletiva, a pluralidade do pop, as possibilidades da pista, a relação entre internet e cultura de festa e os caminhos que imaginam para o futuro do coletivo.

O SONNNNORA nasce do encontro entre LUCs, Saturno, Mia J e DeLaLuz e de uma percepção de que a música pop é muito mais plural do que o imaginário tradicional das pistas. Que lacuna vocês identificavam na cena recifense e sentiram vontade de ocupar com o coletivo?

A lacuna principal é que aqui no Recife, pelo menos, Pernambuco e Nordeste, a gente tem cenas de discotecagem muito fortes, no eletrônico, no reggae, no hip-hop, no brega funk, mas no pop eu sinto que isso é um pouco fragilizado. Quando a gente pensa em DJs de pop, aqueles que realmente se debruçam sobre o ritmo, e não DJs que acabam tocando pop, a gente acaba pensando em poucos nomes. Isso ocorre porque o cenário faz com que esses DJs de pop não sejam valorizados o suficiente, então tem que recorrer a outros gêneros. A ideia do SONNNNORA é justamente fortalecer esses DJs de pop, no caso, inicialmente nós quatro que fazemos parte do coletivo, mas a partir do desse grupo, fomentar uma cena em que o pop seja tão estruturado quanto o eletrônico, o hip-hop, o brega funk, o reggae.

Nós do SONNNNORA, além de artistas, também somos público da cena recifense. Então, estávamos percebendo que a cena pop voltou a ficar aquecida, porém, não necessariamente os eventos atuais acompanhavam o que o público estava esperando. Esse meio termo entre o que é clássico e entre o que é novo, entre tudo que envolve a cena pop, independente do idioma, do ritmo. Então, sentimos que existe um espaço onde poderíamos ocupar para trazer esse pop fresh, que faz com que aquela música que você escutava antigamente faça sentido hoje em dia, mas também acompanhado de um artista novo que está bombando agora, ou de um ritmo que está fazendo sucesso, que não necessariamente todo mundo conhece, mas que uma bolha consome muito. Então, é só tornar as festas pop novamente divertidas, imprevisíveis e que abrangem o máximo possível de possibilidades.

Recife tem uma cena musical marcada por uma forte identidade própria, mas também por diferentes circuitos e públicos. Como vocês enxergam hoje o espaço da música pop e da cultura de pista dentro dessa cena?

Espaço para o pop tem. Há muitas festas de pop aqui no Recife, fora algumas outras pequenas que ocorrem de forma esporádica. Então temos uma quantidade de festas grande, assim relativamente falando. E temos um público que está a fim do pop.

A questão é que talvez quem está tocando pop e ocupando hoje os espaços para tocar o pop já tem outros nichos. Essas festas, esses espaços e esse público têm que ser cada vez mais ocupados por DJs que se debruçam de fato para o pop. Isso não quer dizer que outros DJs que tocam outras coisas não podem tocar pop. Podem sim. Mas precisamos criar mesmo essa cena do pop aqui em Recife, não que não exista, mas fortalecê-la e fazer com que fique tão bem reconhecida, tão bem falada quanto a do eletrônico, por exemplo.

A proposta do SONNNNORA parece partir tanto da música quanto da criação de uma rede de apoio entre artistas. Como surgiu essa necessidade de construir coletivamente, em vez de cada DJ atuar apenas de forma individual?

Essa ideia do coletivo vem depois de perceber que, às vezes, lutar sozinho e reclamar e chorar não faz com que a gente alcance alguns espaços. E nós quatro acabamos nos juntando porque meio que estamos em momentos iguais. Somos quatro pessoas apaixonadas por pop, estamos ralando para tentar tocar, nem sempre conseguindo e nem sempre sendo reconhecidos. Sabemos do nosso valor e nosso talento e acreditávamos, assim como continuamos a acreditar, que juntos seria um pouco meio que impossível não sermos notados e não entender que o que a gente está fazendo de fato é o que a gente gosta e que chegamos ao ponto de tornar isso um movimento para além do individual.

A proposta é entender que nós separadamente já somos muito bons, mas que o coletivo é muito importante para criar algumas movimentações.

Quando vocês falam em pluralidade do pop, o que isso significa na prática? Quais gêneros, artistas ou referências vocês sentem que ainda são pouco explorados nas pistas e que gostariam de colocar em diálogo?

Para mim, falar de pluralidade do pop é entender que o pop nunca foi uma coisa só. O ritmo está o tempo inteiro absorvendo referências, misturando gêneros e criando novas linguagens. Na pista, muitas vezes vemos só um recorte disso: os grandes hits e os artistas mais consagrados.

Como DJ, me interessa olhar um pouco além desse recorte. Até dentro da discografia de artistas muito conhecidos existem músicas que não foram necessariamente grandes hits, mas que revelam personalidade, contexto e experimentação.

Gosto de encontrar essas faixas e colocá-las em diálogo com coisas que, à primeira vista, parecem distantes. A beleza está justamente nesses encontros: o novo conversando com o antigo, uma referência reaparecendo transformada, ou aquela música que você ama e nunca imaginou que ouviria numa pista.

E é exatamente isso que quero viver com o SONNNNORA: poder comemorar os 20 anos de B’Day, da Beyoncé, e ouvir na mesma pista os hits do álbum novo da Rebecca Black que sai no mesmo dia. Para mim, pluralidade é poder viver essas duas coisas na mesma noite e ver o que acontece quando elas se encontram.

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O produtor Rodrigo Luiz. (Divulgação)

A pista de dança costuma ser um espaço de liberdade, experimentação e construção de identidade. Que tipo de experiência vocês querem proporcionar para quem estiver em uma festa do SONNNNORA?

Queremos que as pessoas se sintam livres para se jogar na pista, mas também que sintam que estão vivendo alguma coisa juntas. O que compõe um bom set não é só a curadoria ou conhecimento técnico, mas a possibilidade de construir uma narrativa e contar uma história através da música. Ver o público se envolvendo e embarcando nessa história comigo é o que transforma tudo.

Quero que cada pessoa possa viver a festa do seu próprio jeito, mas que exista também aquela sensação coletiva de: “não esperava que essa noite fosse chegar aqui”. É nesse equilíbrio entre liberdade individual e experiência coletiva que a pista fica realmente especial.

Além dos eventos, o coletivo pretende desenvolver o SONNNNORA Sessions, com sets audiovisuais mais intimistas, e conteúdos sobre o universo pop. Por que foi importante pensar o projeto para além da pista de dança?

Além de sermos DJs de pop, gostamos muito do universo pop. Então, trazer esses conteúdos é uma forma de dialogar com o público sobre o que o pesquisamos, curtimos tocar, o que o público gosta de ouvir, curiosidades e que é massa a gente conversar sobre.

Muitas vezes, não existe a oportunidade de conversar na pista, mas trazemos essa plataforma para dentro das redes sociais, para haver essa proximidade, conversar, falar sobre e, de repente, escutar um pouco mais do público. Com isso, estamos abrindo a discussão. A gente quer ouvir o público.

E os sets audiovisuais são também para o pessoal ver um pouquinho mais a gente, né? Nem sempre dá pra colar numa festa ou alguma coisa do tipo. E ter a possibilidade de enxergar o SONNNNORA dentro de um set audiovisual é você ter a oportunidade de ver como é que a gente trabalha, como é que a gente brinca, o que a gente gosta de fazer, qual o som que a gente toca.

É muito mais para chegar mais perto do público, além das pistas. O SONNNNORA também é sobre o encontro, a conexão. Não estamos nos conectando apenas entre os DJs, a gente quer se conectar com a pista, e isso para além da pista, para fora.

A pista não acontece só na festa, acontece antes quando o pessoal já está planejando ir para o evento, então a pista também acontece depois. A gente cria esse material para deixar a pista viva de alguma forma além dela.

Em um cenário em que DJs e festas também precisam disputar atenção nas redes sociais, como vocês pretendem equilibrar a espontaneidade da cultura de pista com a lógica de produção constante de conteúdo para a internet?

É uma pergunta interessante porque temos todo o planejamento, as nossas estratégias, vontades, mas também entendemos que a vida acontece e que existem coisas que são orgânicas.

Às vezes, a vida nos traz outras coisas, a gente se reúne, as coisas acontecem, então a organicidade da coisa acaba abraçando nossa estratégia, nosso planejamento. Entendemos que o trabalho precisa caminhar por esses pontos.

Também não quer ser aquela coisa hiper conteudista. Temos nossos projetos para movimentar o SONNNNORA com conteúdos sobre música pop, focando nesse universo, sobre coisas que a gente conhece, mas é um movimento que entendemos que precisamos ter um espaço e tempo individuais para poder construir isso.

Então a gente tenta respeitar ao máximo a vida para poder fazer com que o conteúdo seja um conteúdo interessante, seja bom e não uma coisa rápida e que vai ser passada, porque as redes sociais estão demandando celeridade, mas a gente também quer trabalhar essa espontaneidade, que faz a liga do SONNNNORA. Isso nos faz sentirmos mais entrosados, com essa espontaneidade, com essa brincadeira do grupo. Então seria uma coisa de trabalhar essa espontaneidade, trabalhar essa organicidade com a estrutura, com o planejamento, é entender que existe a vida além do planejamento.

Existe uma preocupação em não transformar a diversidade musical em apenas uma tendência ou estética? Como o SONNNNORA pretende fazer com que essa pluralidade seja realmente parte da identidade do coletivo?

É importantíssimo que tanto a parte estética como a parte sonora estejam conversando. Inclusive, foi pensando nisso de sinergia que chegamos nessas quatro pessoas que estão aqui. Temos muito em comum, mas as nossas singularidades também fazem parte para que seja possível tentar abranger o máximo de possibilidades. 

Temos em nossas individualidades e, com isso, aumenta as possibilidades, o leque de coisas que podemos trazer e que podemos apresentar um para o outro. Assim, estamos sempre conversando, entendendo o que é que podemos acrescentar no nosso set e nas nossas ideias, fazendo com que a parte estética e a parte sonora estejam conversando.

O coletivo reúne artistas com trajetórias e sensibilidades diferentes. O que vocês têm descoberto uns com os outros desde que começaram a trabalhar juntos e como essas diferenças aparecem nas escolhas musicais do SONNNNORA?

Esse processo de descoberta está sendo muito genuíno e é o que está fazendo tanto a gente se identificar com o SONNNNORA. LUCs, por exemplo, já produz há muito tempo, tem um bom conhecimento da cena atual e da cena de 2015, que eu acho que a gente que já está nos 30, foi o auge da cena em torno do Recife.

Rodrigo tem toda uma visão agora realmente do que acontece atualmente na cena. Quando a gente une o que cada um sabe, o que cada um está fazendo, o que cada um está focando, temos trocas e estamos disponíveis para ter essas trocas, para conhecer mais.

Isso acaba se refletindo no nosso trabalho, no set, nas ideias, nas escolhas das músicas, nos Beat to Beat que queremos fazer um com o outro. E essa combinação vai criando experiências novas para quem está ouvindo, que é o público. Está sendo bem legal e pode esperar que vai ter muitas surpresas por aí dessa misturinha toda.

Olhando para o futuro, que transformação vocês gostariam de provocar na cena recifense? Quando alguém ouvir “SONNNNORA” daqui a alguns anos, o que vocês gostariam que esse nome representasse?

Acho que o SONNNNORA nasce de uma coisa muito simples: pessoas que gostam muito de música pop, que pesquisam, descobrem, trocam referências e querem dividir tudo isso através da música. Gostaria que o SONNNNORA fosse uma plataforma para amplificar esse desejo, não só o nosso, mas o de toda uma comunidade que se identifica com essa vontade de experimentar e se expressar por meio do pop.

Daqui a alguns anos, gostaria que o SONNNNORA representasse justamente esse espaço de encontro. Um lugar que ajudou a dar visibilidade para diferentes artistas, referências e pessoas que fazem parte dessa cultura, e que contribuiu para que a cena pop de Recife, de Pernambuco e do Nordeste pudesse crescer com uma identidade própria.

Mais do que movimentar a cena, acho que seria muito bonito olhar para trás e perceber que ajudamos a dar nome, espaço e confiança para uma cena que já estava aqui e que, a partir disso, mais pessoas passaram a se sentir pertencentes a ela.