Prólogo (por Alexandre Figueirôa)
Em 2003, a professora e pesquisadora Fernanda Martins me procurou para saber como seria possível realizar a projeção de um filme realizado no Recife em 1976, cuja cópia estava na casa de um conhecido dela. Fernanda soube da existência dessa cópia com um colega também pesquisador, Carlos Mascarenhas, numa conversa casual com o ator Cássio Sette. Não era a primeira vez que alguém recorria a mim para saber o que fazer com um filme encontrado por acaso.
Anos antes a professora e jornalista Teresa Sampaio quando realizava uma pesquisa para sua dissertação de mestrado sobre a vaquejada de Surubim também havia se deparado com um curta documentário produzido naquela cidade por um cineasta amador e que nunca tinha sido exibido. Se não me falha a memória, entramos em contato com a então filmoteca da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e o filme, rodado em 16mm e em excelente estado de conservação, foi salvo do esquecimento.
No caso do filme informado por Fernanda Martins, de imediato desconfiei que estávamos diante de um pequeno tesouro, quando descobri que a obra em questão se tratava do longa-metragem em 35mm Luciana, a Comerciária. Realizado pelo pernambucano Mozart Cintra, ele era um daqueles filmes do qual qualquer historiador do cinema pernambucano já tinha escutado falar, mas que era dado como perdido. Pois bem, as latas com uma cópia de difusão repousavam solenemente na sala da viúva de Cintra, Dona Celeida, numa casa do bairro de Campo Grande. Cintra morreu em 1977 aos 53 anos e viu seu filme chegar às telas em salas comerciais apenas três vezes.

A partir de contatos feitos com Kleber Mendonça Filho e Luiz Joaquim, então programadores do Cinema da Fundação, e Geraldo Pinho que, na época, era o responsável pela filmoteca que ficava nas dependências do Teatro do Parque, articulou-se com a viúva de Cintra, para se pegar ao menos uma lata do filme para ver as condições da cópia.
Fomos todos então ao escritório da Art Filmes, num prédio do Recife Antigo e lá, graças a Seu Silva, gerente da companhia, usando a moviola de revisão das cópias dos filmes comerciais exibidos nas salas da empresa, tentamos ver Luciana, a Comerciária. A cópia, aparentemente, estava em bom estado, porém, pelos anos em que ela ficara guardada, a película em celulóide, por conta da degradação química do material, apresentava uma oleosidade em sua superfície que impedia o seu visionamento.
Apesar da decepção com a situação do material, um esforço foi feito e se conseguiu fazer a limpeza deste primeiro rolo, e uma sessão foi realizada no Cinema da Fundação com as cenas iniciais do filme – cerca de 15 minutos – e a presença de familiares de Cintra. As demais partes, todavia, estavam ainda mais comprometidas, atingidas pela síndrome do vinagre. A síndrome acontece por conta do material plástico base do filme, o acetato de celulose. O calor e a umidade liberam ácido acético – que tem cheiro de vinagre – e ele deforma a película e faz a emulsão fotográfica se soltar. Um filme atingido por esse mal tem que ser isolado, pois o gás liberado pode contaminar outros filmes.
A saga (por Luiz Joaquim)
A partir daqui a saga da recuperação de Luciana, a Comerciária passa a ser contada por Luiz Joaquim, que por mais de 20 anos estabeleceu com o filme uma relação que só ele pode nos contar:
“Algumas semanas depois da sessão no Cinema da Fundação, eu e Kleber fomos à casa de Dona Celeida em Campo Grande. Na época ela tinha 71 anos e a gente pediu para ver o material que ela dissera ter preservado. E, de fato, ela tinha guardado tudo; manuscrito do roteiro, cartaz, lobby cards, material da Embrafilme, certificado de censura, etc. Kleber estava no Jornal do Commercio e fez uma matéria que foi capa do Caderno C, mas o material permaneceu com ela, assim como as quatro latas do filme, colocadas debaixo da mesa da sua sala. E por muito tempo, nenhum contato mais foi feito.
Em 2008, eu estava no Festival de Brasília e encontrei o cineasta Sérgio Silvia, que é do Rio de Janeiro e trabalhou no Arquivo Nacional e também na Cinemateca Brasileira. Numa conversa trivial com ele, eu falei de Luciana, a Comerciária e ele me disse que tinha visto um trailer do filme e achava que existia um negativo na Cinemateca Brasileira.

Eu sabia que para fazer um restauro da cópia de difusão que estava no Recife ia ser muito caro, mas a partir do negativo poderia ser mais fácil fazer uma nova cópia. Então consultei Fernanda Coelho que trabalhava na cinemateca desde os anos 1970 e é uma autoridade absoluta em preservação. Ela me passou um laudo dizendo que o internegativo existia e estava bom, porém com algumas partes danificadas e que, portanto, para fazer uma nova cópia de difusão seria preciso restaurar essas partes.
Animado com essa possibilidade, tentei fazer um projeto para levantar recursos e restaurar esse internegativo, mas aí não deu certo porque eu tinha perdido o contato com a família e precisava da autorização deles para ir adiante. Como eu estava na Folha de Pernambuco e tinha uma coluna chamada Câmara Clara cheguei até a fazer um texto pedindo ajuda a qualquer leitor que me colocasse em contato com a família de Dona Celeida, mas não consegui.
Em 2013, retomei a ideia de fazer o projeto de restauro de Luciana e pedi um novo laudo à Cinemateca Brasileira, só que Fernanda Coelho já não estava lá e foi uma época em que a instituição estava enfrentando uma série de questões administrativas. Para ter um novo laudo eu precisaria pagar um valor alto que eu não tinha.
Dois anos depois eu voltei a contatar a Cinemateca, propondo uma parceria com o Cinema da Fundação e consegui um laudo parcial, mas que não adiantou muito. Nesse período, eu consegui o contato de Veruschka, filha de Mozart e Dona Celeida, que ainda garota, fez uma pequena aparição no filme. Na mesma época, finalmente a família decidiu depositar a cópia de difusão na Fundação Joaquim Nabuco.
Aí veja, Alexandre, 12 anos já haviam se passado desde aquele visionamento na Art Filmes, então quando a cópia chegou a Fundaj estava muito mais degradada. Inclusive nem a primeira parte era possível de ser projetada sem danificar o projetor. Mas como a cópia de difusão estava de posse da Fundaj isso me estimulou a procurar outra vez a Cinemateca Brasileira. Eles me passaram as informações, mas não um laudo completo de modo que eu pudesse fazer um orçamento para um novo projeto.
Contudo, eu acredito que minha insistência ajudou em uma decisão da Cinemateca no ano seguinte: 2016. Eles têm um programa anual em que hierarquizam internegativos em estado avançado de degradação para serem duplicados e serem feitos um novo internegativo e depois um interpositivo Em 2016, eles colocaram Luciana, a Comerciária nesse pacote.

No entanto, eu não estava sabendo disso, até que Alfredo Bertini se tornou o secretário do audiovisual no governo de Michel Temer. Ao assumir, ele pediu para instalar o gabinete dele aqui no Recife na sede da Fundaj. Um dia eu encontrei com ele e sugeri para nos articularmos para salvar o filme e contei-lhe da existência do internegativo. Ele disse para eu procurar a Cinemateca Brasileira, então eu aproveitei a ida à capital paulista para acompanhar a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e fui conversar com a diretora da época que era a Olga Futemma. Ela foi bastante receptiva e assegurou que iriam trabalhar com o filme.
Na volta de São Paulo, todavia, me desliguei da Fundaj e o projeto de restauro voltou à estaca zero. Fui então dar aulas no curso de audiovisual da Uniaeso. Lá eu tive bons alunos e um deles, um rapaz chamado Caio Ramon Fonseca, concluiu o curso em 2022 com um TCC sobre o status técnico profissional do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco e da Cinemateca Pernambucana. Em dezembro do mesmo ano, a Cinemateca Brasileira abriu uma convocatória para recém-formados integrarem um projeto temporário, ele se inscreveu e foi aprovado.
Caio se mudou para São Paulo e em outubro de 2023 eu o encontrei em um café na Cinemateca e lhe contei a história de Luciana, a Comerciária, deixando-o impressionado. Em 2024, ele voltou para o Recife, foi trabalhar no Centro de Documentação da Fundaj e começou a pesquisar no Arquivo Público sobre o filme e sobre Mozart Cintra com o objetivo de montar um projeto de mestrado.

Caio foi então aprovado no Programa de Pós-graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), tendo como orientador o professor Carlos Roberto Rodrigues, um dos nomes mais importantes da preservação audiovisual no Brasil e a professora pernambucana Luciana Araújo como orientadora assistente. Paralelo a isso, Caio foi convidado para voltar à Cinemateca Brasileira, agora como técnico contratado para trabalhar com o acervo do Canal 100. Todo esse percurso de Caio, ele compartilhou comigo, pois sempre foi muito grato por eu tê-lo apresentado Luciana, a Comerciária.
Retornando à Cinemateca, Caio contou para sua chefe Gabriela Queiroz que seu objeto de estudo no mestrado era o filme de Cintra e pediu a ela para revisar o internegativo que havia sido restaurado em 2016. Nesse ínterim, Carlos Roberto faleceu e Luciana Araújo se tornou a orientadora oficial de Caio na UFSCAR. Em seguida, argumentou com Gabriela que precisaria ver o filme e para isso solicitou autorização para fazer a digitalização usando o equipamento da cinemateca. Apesar do custo alto, ela liberou e finalmente Luciana, a Comerciária ganhou uma nova cópia cinquenta anos depois.”
Epílogo
Desde 2022, no mês de setembro, a Cinemateca Brasileira realiza a mostra 50 Anos Depois, exibindo filmes nacionais e internacionais que revelam a estética e as temáticas da produção cinematográfica de cinquenta anos atrás. Este ano, em sua quinta edição, a programação, com curadoria de Paulo Sacramento, apresentará filmes realizados em 1976 e, entre eles, Luciana a Comerciária.
Quando Caio disse para Luiz Joaquim que o filme estava digitalizado e que iria entrar na mostra da Cinemateca, ele não perdeu tempo: ao encontrar com Sacramento e Gabriela na Mostra de Cinema de Ouro Preto, em junho último, conseguiu convencê-los a fazer uma exibição simultânea do filme no Cinema da Fundação no mesmo dia e hora – 20 de setembro, às 16 horas – em que o filme estará sendo mostrado na sede da Cinemateca Brasileira em São Paulo. Luiz Joaquim lembra que não é uma cópia restaurada, mas uma digitalização do novo internegativo, com resolução 2K, em formato BCP e em muito bom estado.

Um detalhe triste de toda essa história é que Dona Celeida não estará na sessão do domingo. Ao confirmar, ainda em julho a exibição no Recife, Luiz Joaquim ligou para Veruschka para dar a notícia e soube que Dona Celeida, com 95 anos, havia falecido no dia anterior. “Eu fiquei péssimo, porque passei 23 anos querendo dar essa notícia para ela e não deu tempo”. Luiz ressalta que ela teve um papel importante na realização do filme, pois foi a produtora e também uma das atrizes, além de guardiã da obra por décadas.
Luiz Joaquim foi ao velório e deu a notícia da nova cópia digital para a família. “Foi bacana porque ela era muito querida por todos, uma super referência da família e eles ficaram felizes. os netos, bisnetos passaram a vida escutando falar sobre o filme. É o filme de vovô e vovó. Raquel, que é a neta mais presente nessa história, contou que todas as pessoas que chegavam na casa da avó, ela mostrava as fotos, o cartaz e contava a história do filme”.
Outras histórias
Luciana, a Comerciária em seus 50 anos de existência só teve três sessões documentadas. A primeira foi na cabine de imprensa do cinema São Luiz, em 17 de maio de 1976. Os dois críticos Fernando Spencer, do Diario de Pernambuco, e Celso Marconi, do Jornal do Commercio, publicaram notas sobre a exibição. Houve depois uma sessão no Cine Bandeirantes, em Arcoverde, por conta das locações no município de Pedra, vizinho a Arcoverde. Cintra era natural de Pedra e a sessão foi para mostrar o filme para familiares e amigos.

Recentemente, Raquel Sette, a neta de Dona Celeida, encontrou um borderô da Embrafilme de uma sessão do filme no Cine Bairro Novo, em São Lourenço da Mata, em 17 de junho de 1976. Uma outra sessão chegou a ser anunciada por Mozart Cintra no cine Astor ou Ritz, mas foi cancelada.
A trama de Luciana, a Comerciária é sobre uma moça do interior que vem trabalhar e morar no Recife e enfrenta diversas dificuldades. Segundo Luiz Joaquim, os poucos recursos financeiros fizeram o filme ter muitas fragilidades do ponto de vista técnico. “Eu não tinha expectativa de ver uma grande obra do ponto de vista cinematográfico. Ao mesmo tempo, ele atende uma curiosidade de ver imagens captadas cinquenta anos atrás e também percebo que Cintra e Celeida – que também colaborou no roteiro, embora não esteja creditada – queriam fazer um filme fora da caixinha”.
Segundo Luiz, o filme mostra o Recife como uma cidade moderna e hostil ao mesmo tempo. “Ele retrata essa jovem que sai inocente de Pedra e vira uma mulher esperta no Recife. Nesse sentido, ele é muito moderno porque apresenta uma mulher que amadurece e ninguém mexe com ela, pois ela aprende a se defender”. Quem interpreta Luciana é Katia Brígida, mas Luiz diz que, hoje, não se sabe o paradeiro da atriz, o mesmo vale para o ator Celso Godoy, que interpreta o namorado dela. Luiz esperava que as notícias sobre o filme pudessem fazer com que eles próprios ou algum parente entrassem em contato, mas isso até agora não aconteceu.

Outra curiosidade é a participação no filme de Simião Martiniano como ator interpretando um camelô. Foi depois da experiência com Cintra que, segundo disse Dona Celeida a Luiz, Martiniano ficou louco por cinema e passou a querer fazer filmes de qualquer jeito, algo que realmente se concretizou nas produçòes amadoras que ele realizou com uma câmera VHS nos anos 80 que o fez ser conhecido como o Camelô do Cinema.
Acompanhando por tanto tempo a trajetória de Luciana, a Comerciária, Luiz Joaquim resgatou histórias pitorescas sobre Cintra e seu filme. Uma delas foi contada a ele pelo cineasta pernambucano Lírio Ferreira. Quem montou o filme de Cintra foi o conhecido montador pernambucano, radicado no Rio de Janeiro, Severino Dadá. Dadá diz que o filme foi visto por Rogério Sganzerla que teria afirmado ser Luciana uma obra underground. Ao saber disso, Cintra não hesitou em inserir nos créditos iniciais uma cartela com a frase: um filme underground, um clássico de Mozart Cintra!

Luiz não acredita que Cintra e Celeida teriam premeditado enquadrar o filme em alguma escola ou gênero, embora para ele, Luciana se aproxima da estética do cinema marginal brasileiro, pelo nonsense de alguns diálogos e outros elementos da narrativa que causam uma certa estranheza no espectador. Essas peculiaridades do filme mais o fato dele ser em preto e branco, para Luiz, contribuíram para o filme não conseguir espaço de exibição. Para Dona Celeida, isso acabou levando o marido para a depressão e provocou sua morte prematura.
Ver a tela do Cinema da Fundação ser iluminada com as imagens de Luciana, a Comerciária é uma homenagem, mesmo tardia, justíssima para esse casal que um dia acreditou ser possível fazer filmes em Pernambuco.



