O forró ocupa o centro das celebrações juninas, mas para além dessa festividade, a real é que o gênero é uma das mais importantes expressões musicais e culturais do Nordeste. Em meio à crescente presença de outros gêneros da música nos palcos e programações tradicionais de São João, uma nova geração de artistas têm encontrado caminhos para renovar a linguagem forrozeira sem descaracterizá-la. Seja por meio do diálogo com a música eletrônica, o rock e até a cultura árabe, esses projetos demonstram que tradição e experimentação podem caminhar juntas.
A seguir, a Revista O Grito! reúne artistas que têm ampliado as possibilidades do forró enquanto criam, sozinhos ou em conjunto com artistas consolidados, sonoridades que preservam elementos fundamentais da identidade cultural do gênero.
Jáder e o forró pop-eletrônico

Diretamente de Pernambuco, Jáder soma à cena da nova música brasileira com um repertório muito inspirado no forró e demais ritmos tradicionais nordestinos. Em Quem Mandou Chamar??? (2022), Jáder desafia o padrão cisheteronormativo frequentemente associado ao forró no Brasil para apresentar as diferentes formas do amor neste projeto musical que propõe uma releitura latinizada do gênero.
Ao unir forró, piseiro, brega e reggaeton, cria sonoramente o que define como “música pop latina”. As faixas “Te Dar” e “Emoji de Beijo” são as que mais se aproximam do tradicional xote nordestino, enquanto as demais nove canções são a materialização do laboratório musical e eletrônico que dá forma ao álbum.
A versatilidade de Jáder fica ainda mais evidente no segundo e mais recente trabalho, o álbum Deixa o Mundo Acabar (2026). Em 11 faixas vai do forró ao pop, do xote ao pagode, com espaço para o galope – gênero tradicional nordestino muito presente nas canções de Luiz Gonzaga, por exemplo. Tudo isso é uma prova da inventividade do artista que atualiza o repertório sem deixar de se inspirar nas referências do próprio território.
Carlos Filho e o forró de conciliação

Natural de Serra Talhada, município do Sertão pernambucano, Carlos Filho é um cantor e compositor que tem como base criativa o forró. No projeto musical mais recente, Baile Brasilero 2 (2026), o artista convida o público para dançar ao som da melodia fruto de sete anos de pesquisa dedicada ao gênero tradicional nordestino.
Nesta edição do baile, que é continuidade do álbum Baile Brasileiro (2024), Carlos entoa baião, xaxado, xote, toada, aboio, arrasta-pé e côco de norte ao longo de nove canções – entre elas, músicas autorais e releituras do clássico forrozeiro – que tem o potencial documental como proposta. Sem tomar partido entre a defesa intocável do forró ou esforços para renovar o ritmo, Carlos escolhe reunir os instrumentos tradicionais aos synths eletrônicos de forma conciliadora e criativa.
Joyce Alane e o forró afetivo

Artista versátil da nova música brasileira, Joyce Alane tem no repertório um projeto que é homenagem e reinvenção do forró ao mesmo tempo. No intitulado Casa Coração (2025), a cantora reúne seis releituras de clássicos do gênero junto a uma faixa inédita que reforça a capacidade que tem em criar com ritmos tradicionais nordestinos.
Neste trabalho, Joyce Alane abre a porta da Casa Coração para uma visita musical pela infância em Moreno, município da Região Metropolitana do Recife. Junto às referências do forró: Santanna O Cantador, Petrúcio Amorim, Zeca Baleiro, Mariana Aydar, Lucy Alves, Chico César e Dorgival Dantas, recria o calor do São João que aqueceu a juventude da artista.
Forró do Suco Elétrico e a inspiração no “forrock”

Idealizado pelos músicos pernambucanos Feiticeiro Julião e Juvenil Silva, o projeto Forró do Suco Elétrico surge. Inspirados no primeiro forró a ter um guitarra elétrica no protagonismo, a canção “O Fole Roncou”, de Luiz Gonzaga, a dupla se une a outros artistas para colocar em prática a simbiose rítmica entre forró e rock, conhecida como “forrock”.
Atualmente o grupo faz um cruzamento entre as tradições do gênero com referências do rock psicodélico, do frevo baiano e da música nordestina contemporânea. Sonoridade que fica fácil de notar no EP autoral Julião e O Forró Suco Elétrico (2025) e a composição formada por guitarras elétricas, banjo e arranjos que transitam entre as ramificações do forró.
Forró Mourisco e a festa nordestina arábe

Formado pelos músicos Rannier Venâncio (rabeca) e Rodrigo Gondão (oud), o duo instrumental pernambucano Forró Mourisco apresenta uma proposta estética que une o forró nordestino com influências da música moura. Lançado nas plataformas digitais, o EP Forró Mourisco reúne três faixas que exploram xote, baião e ritmos do universo árabe. A música “Dia de João” é uma releitura de um baião escrito por Marília Parente que participa da gravação. Já as faixas “Longa Repentino” e “Baianada Misturada” propõem um diálogo entre o Sertão de Pernambuco e Magrebe, região do noroeste africano.
Aretuza Lovi e a homenagem ao forró

Conhecida por transitar entre o pop, o funk e a música eletrônica, a artista e drag queen Aretuza Lovi também encontra no forró uma importante fonte de inspiração criativa. Nascida em Goiás, mas com passagens marcantes pelo Norte e Nordeste, a artista carrega uma relação com a sonoridade das respectivas regiões. A faixa “Baião de Dois” se destaca como uma celebração explícita do forró eletrônico dos anos 1990 e 2000. Ao lado do cantor piauiense Getúlio Abelha, Aretuza busca referências em grupos como Calcinha Preta, Capim com Mel e Mastruz com Leite para construir uma narrativa romântica em que o prato da culinária típica é uma metáfora ao relacionamento à dois.


