Uma carta com um pedido de perdão póstumo é o ponto de partida do espetáculo Jorge Para Sempre Verão, montagem teatral que tem como personagem central Jorge Laffond, homem negro gay que na década de 1980 foi uma das principais atrações do Sistema Brasileiro de Televisão – SBT. Conhecido artisticamente como Vera Verão, Laffond alcançou o sucesso, sobretudo pela sua participação no programa humorístico A Praça É Nossa.
Laffond nasceu no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, mas foi criado na Penha. Formou-se em teatro e estudou dança afro e balé clássico. Com dois metros de altura e sempre usando roupas femininas, ousadas e originais, por sua irreverência e presença cênica, tornou-se um dos artistas mais populares da televisão brasileira. Embora tenha falecido com apenas 51 anos, em 2003, Laffond abriu caminhos para a representatividade negra e LGBTQIAPN+ em uma época ainda marcada pelo conservadorismo.
A ideia de escrever o texto e montar o espetáculo nasceu quando Aline Mohamad, prima de Laffond, após se sentir atraída por uma travesti em uma festa, escreveu uma carta onde confessava como, por muitos anos quando era mais jovem, a sua homotransfobia não permitiu que ela se aproximasse do primo gay. Na carta. Aline, além de lamentar a morte do primo, prometeu como reparação pelo seu gesto, contar a sua história.

Ao mostrar a carta para algumas pessoas, entre elas o encenador Rodrigo França, Aline foi estimulada a escrever a peça e percebeu que essa seria uma forma de encontrá-lo e externar sua redenção. O texto foi construído a quatro mãos em parceria com Diego do Subúrbio e desde o início Aline afirma que não desejava que a peça fosse uma biografia de Jorge Laffond. “Eu decidi então que seria a história de duas personagens: Jorge e Vera. A Vera Verão existia desde que ele era criança, pois era um dos xingamentos a ele dirigido. Jorge, no entanto, transformou esse signo de humilhação em potência criativa”.
Ao mesmo tempo em que aborda episódios de preconceito e violência simbólica enfrentados por Laffond, a peça também enaltece seu humor, inteligência e criatividade. O diretor Rodrigo França ressalta que a montagem resgata a humanidade e a complexidade de um artista frequentemente reduzido a estereótipos. “Humanizamos um dos maiores artistas deste país. Jorge Laffond passou por grandes dilemas na história da televisão brasileira e retrata o que é o país em relação à população negra e LGBTQIAPN+”, afirma.

Para desenvolver a dramaturgia do espetáculo, junto com Diego e Rodrigo, Aline viu que eles precisavam buscar as vivências dos Jorges do subúrbio carioca, as quais, costuradas com as suas próprias vivências, fossem construindo uma biografia não apenas de Jorge, mas de todas as bichas pretas suburbanas. E o resultado disso, segundo ela, pode ser visto pela forma como, nos quatro anos de circulação da peça pelo Brasil, as pessoas reagem ao espetáculo, com muitas delas afirmando terem vivido acontecimentos semelhantes aos narrados.
O ator Alexandre Mitre, que interpreta Laffond, contou que inúmeras vezes na leitura do texto e nos ensaios ficava travado por estar tocado pelos episódios vividos pelo personagem. “Apesar de ter sido um artista que entrou na casa de várias pessoas do Brasil inteiro por muitos anos, ele carregava uma solidão muito grande. Apesar do sucesso, ele não se encaixava nem no movimento negro porque era muito bicha e nem entre as pessoas brancas porque embora fosse artista, era muito preta e muito bicha”, disse.
Compreender que, apesar da força do artista na televisão e do alcance nacional que ele atingiu, o seu desempenho não o tornava um lugar de orgulho, mas sempre um lugar inferior e pejorativo, foi fundamental para Mitre compor a personagem. “Eu consegui entender que a história de Laffond passa por muitos corpos pretos retintos e por muitas vivências de pessoas negras LGBTs e era preciso que elas pudessem se ver refletidas no palco”.
“Humanizamos um dos maiores artistas deste país. Jorge Laffond passou por grandes dilemas na história da televisão brasileira e retrata o que é o país em relação à população negra e LGBTQIAPN+”
Rodrigo França, diretor
Esse contexto reflete-se no espetáculo que é de fato um recorte de memórias. É uma história de vida recontada que tem vazios preenchidos, segundo a própria autora, por episódios que são comuns na vida das pessoas pretas LGBT. “Preservar e compartilhar a história dessas pessoas é uma responsabilidade que deve ser assumida por quem a conta”, diz Aline.
Ela lembra que a vida pessoal de Jorge Laffond apesar da fama na televisão foi pouco registrada. “Isso é muito comum quando se trata de pessoas negras, mas no caso do meu primo foi também uma escolha porque ele precisava se proteger, porque as pessoas imaginavam que ele passava o dia inteiro vestido como se estivesse na TV”.
Por isso, outro elemento fundamental do espetáculo é a personagem Vera, vivido na montagem em cartaz na Caixa Cultural pela atriz trans Aretha Sadick. “Ela já fazia uma performance de Jorge, e na audição da escolha do elenco, Rodrigo falou: ‘a Vera é uma mulher grande no nosso espetáculo e ela é uma mulher preta trans’. Essa escolha marcou de tal maneira a montagem que decidimos oferecer entrada gratuita para pessoas trans em todas nossas apresentações”, afirma Aline.
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Para o espetáculo tomar forma e ganhar os palcos, o percurso foi longo e árduo. Segundo Aline, depois de muitas tentativas, ela e Rodrigo conseguiram aprovar o projeto em um edital onde captou 100 mil reais. “Para montar um espetáculo é preciso mais do que isso, mas depois de dois anos e meio conseguimos formar uma equipe majoritariamente negra e LGBT, algo que nos orientou desde o princípio e, hoje, já fizemos mais de 100 apresentações”.
Por todas as escolhas é perceptível que Jorge para sempre verão, além de recuperar a memória de Jorge Laffond, propõe uma reflexão sobre os mecanismos de exclusão ainda presentes na sociedade brasileira. Para expressá-las, o espetáculo traz uma encenação que não tenta reproduzir o ambiente pelo qual a figura de Laffond era retratada na tela da TV. Em vez disso, busca elementos cênicos que revelam os seus bastidores e como dele surgiam as questões de racismo e homofobia que a TV não mostrava.
Aline Mohamad, que também integra o elenco representando ela própria, lamenta que espetáculos sobre artistas brancos sempre conseguem recursos maiores e com mais facilidade. Ela citou o caso do grande reconhecimento póstumo dado a Paulo Gustavo, sem desmerecer o talento e a relevância do artista. “Felizmente isso parece estar mudando. E finalmente a memória dos nossos artistas pretos começa a ser reverenciada com documentários, novelas e filmes musicais”, pontua.
O espetáculo continua em cartaz esta semana com apresentações na sexta-feira 03/07 e no sábado 04/07 às 19h30, com sessão extra no sábado às 16h30. Nas sessões do sábado haverá acesso em Libras na sexta, debate dos artistas com o público. Ingressos no site da Caixa Cultural.
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