Entre humor, emoção e presença de palco, a drag queen Magonna conquistou o título de “Phenomena Lipsynca Assassin” na primeira edição do Lipsynca, selo do coletivo Phenomena Drag voltado para batalhas de dublagem e performance, no último dia 3 de maio. Realizado na Casa Bacurau, espaço que se consolidou como um dos principais pontos de encontro da cena alternativa e LGBTQIA+ do Recife, o concurso reuniu seis artistas em disputas marcadas por intensidade, carisma e entrega no palco.
Mesmo se definindo como uma drag iniciante com apenas seis meses, Magonna, de 27 anos, chamou atenção pela forma como transformou emoção, expressão facial e leitura musical em ferramentas de impacto cênico. “Sinto que no palco posso fazer o que quiser, ser quem eu quiser, a Magonna é o meu super-herói”, afirma.
Inspirada por referências que vão de Silvetty Montilla a Salário Mínimo, a drag nascida na cidade do Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, representa uma nova geração de drags pernambucanas que chega ocupando espaço sem pedir licença, misturando vulnerabilidade, humor e ambição artística.
Na entrevista a seguir, a artista fala sobre o processo de construção das performances, a experiência de vencer o Lipsynca, os desafios de sustentar expectativas após o título e o que significa encontrar, na arte drag, um espaço de liberdade e reinvenção. Confira:
A vitória no Lipsynca veio em um formato muito focado em presença de palco e performance. O que você acha que fez diferença na sua trajetória até conquistar o título de “Phenomena Lipsynca Assassin”?
Eu não tinha muitos looks, por ser uma drag iniciante, então precisei apostar nas nuances das músicas, energia, expressão facial, presença… Sempre conto com isso pra entregar uma boa performance, pois, como o evento pedia era uma competição de lipsync. Pelo menos isso, precisava garantir que fosse entregue com qualidade.
O lipsync é uma arte muito particular dentro da cultura drag. Como você constrói uma performance: começa pela música, pela emoção, pelo figurino ou pela narrativa?
Acho que por todos esses aspectos, fui e sou uma drag queen moldada pelo Drag Race, estudei muito as músicas, a tradução, e a postei na comédia e emoção pra dar certo.
Em vários momentos, batalhas de lipsync acabam revelando muito da personalidade das drags. O que o público conhece da Magonna no palco que talvez não apareça fora dele?
Sou uma pessoa muito sensível, choro por besteira, sorrio por mais besteiras ainda, e creio que, às vezes, no palco, isso não fica tão nítido, porque a persona que criei para Magonna é mais indestrutível e inabalável. Mas estou trabalhando para conseguir o equilíbrio entre mostrar meu coração e, ainda assim, entregar uma performance potente.

Como foi a energia de disputar o Lipsynca dentro da Casa Bacurau, um espaço que já virou referência para a cena alternativa e LGBTQIA+ do Recife?
Importantíssimo, já havia ido na casa Bacurau outras vezes pra assistir as drag queens, sonhava em um dia estar naquele palco, e deu certo. Sou muito grata pela oportunidade que o Phenomena e a Casa Bacurau criaram. A energia foi incrível, o público também.
A cena drag pernambucana vive um momento de muita potência estética e política. Como você enxerga o lugar da Magonna dentro dessa movimentação?
Acho que represento uma nova geração de drag queens, chegando na cena já com os dois pés na porta, sem medo de fazer e acontecer e aproveitando as oportunidades que aparecem no caminho. O que posso dizer é que esperem grandes coisas porque é daqui para cima.
Existe alguma performance específica da competição que marcou você emocionalmente ou artisticamente? Por quê?
O último lipsinc foi de extrema importância pra mim, dublar com a Kira que é uma artista que eu já acompanho há muito tempo e que já trabalhei antes, foi emocionante. Tanto ela quanto as outras mostraram que sabem fazer muito e, para mim, foi uma honra dividir o palco com elas. Jamais esquecerei.
Muitas drags falam sobre o palco como espaço de liberdade, mas também de sobrevivência. O que a arte drag representa hoje na sua vida?
É o meu cano de escape, a minha fuga da realidade, sinto que no palco posso fazer o que quiser, ser quem eu quiser, a Magonna é o meu super-herói, no palco, nenhum problema existe e só o que importa entreter o público e fazer com que eles não esqueçam do que viram aquela noite.
Seu trabalho dialoga mais com quais referências? Existem artistas, cantoras, performers ou outras drags que influenciam diretamente a Magonna?
Com certeza, descobri inclusive no Lipsynca, que possuo uma veia cômica, e pretendo explorar mais isso, drag queens como Salário Mínimo, Silvetty Montilla, DaCota Monteiro, que são minhas maiores inspirações
Depois da vitória, o que muda? Você sente mais pressão, responsabilidade ou liberdade para experimentar coisas novas?
Sim, sinto que as pessoas agora vão sempre esperar grandes coisas da Magonna, acho que tanto o meu debut quanto as performances no Lipsynca, criaram um patamar que precisa ser superado e lapidado daqui pra frente.
Para quem ainda não conhece a Magonna: qual seria a performance perfeita para entender quem você é artisticamente?
Nas minhas redes sociais existem os vídeos das performances, apesar de ter o começo recente, creio que o que eu fiz no Lipsynca representa perfeitamente o que vai ser a Magonna daqui pra frente.
Em tempo: Ao final da premiação depois da premiação da Magonna no Phenomena Lipsynca Assassin, foi anunciada pela Phenomena Drag a expansão da atuação dentro da cena noturna recifense, com a apresentação do “Disk.phe”, novo selo voltado à música, pista e performance. A proposta surge como uma experiência que amplia os formatos já explorados pelo projeto e coloca artistas drags em novos espaços de protagonismo.
Com drags no comando da cabine e uma trilha sonora que atravessa diferentes estilos musicais, a inciatica surge como uma proposta que ultrapassa os limites do pop e aposta na diversidade sonora. Entre eletrônico, funk, house, techno, hyperpop, brega e outras vertentes, a festa pretende construir uma pista marcada pela mistura de referências e experiências.
Mais do que um evento, a nova proposta deve ser um espaço de experimentação, encontro e expressão artística, conectando música, performance e identidade em uma proposta que busca movimentar a cena recifense de forma plural e inovadora.
Foto de abertura: Divulgação.
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