Foto: Divulgação
Entre palcos, maquiagens, figurinos, aplausos e histórias que por anos permaneceram longe dos holofotes, o empreendedor Jango Barros transformou a criação cênica em uma ferramenta de reconhecimento, memória e resistência. À frente da Noite das Estrelas, que chega à quinta edição, ele construiu um projeto dedicado a homenagear artistas LGBTQIA+ e a resgatar nomes que ajudaram a estruturar a cena transformista pernambucana. “A arte transformista é um patrimônio cultural e precisa ser preservada”, afirma.
A trajetória de Jango Barros é atravessada pela vontade de abrir portas para quem ainda encontra dificuldade para ocupar as vitrines da cidade. Inspirado desde a adolescência por Elza Show, figura que considera fundamental em sua formação, o produtor canalizou a estima na defesa pela preservação histórica dessa linguagem. “Elza não é apenas uma lembrança. Elza é inspiração, é história, é legado”, diz.
Essa mobilização também passa pela consolidação de territórios permanentes. Antes da Central das Estrelas, Jango conta que enfrentou resistência quando criou o Bar das Estrelas. Houve noites em que as performers se apresentavam enquanto o público ignorava a programação. “E eu chorava muito dentro do banheiro”, relembra. Hoje, a realidade é outra: o endereço se tornou ponto de encontro para diferentes gerações e os frequentadores que antes passavam indiferentes agora param, assistem aos espetáculos e reconhecem a produção das estrelas da casa.
Para o idealizador, porém, ocupar esses ambientes é apenas uma fração da transformação. É preciso garantir condições para que os nomes da cena possam viver do próprio trabalho. “O artista precisa de continuidade”, defende. “Quanto mais espaço a gente cria, mais trabalho aparece. Quanto mais apoio existe, mais possibilidades surgem.”
Em entrevista à Revista O Grito!, Jango Barros fala sobre a criação da Noite das Estrelas, a importância de salvaguardar a memória LGBTQIA+ do Recife, o enfrentamento à LGBTfobia e a necessidade de ampliar políticas públicas, patrocínios e oportunidades para a arte transformista. Ao lembrar figuras que já homenageou e talentos que ainda pretende resgatar, ele reforça que sua atuação ultrapassa os limites dos palcos: “Essa luta não é só minha. É de cada um de nós. Inclusive de você que está lendo esta entrevista.”
Essa atuação também se traduz em iniciativas que movimentam a cena LGBTQIAPN+ do Recife. No sábado, a partir das 17h, Jango participa da realização da Parada da União, mais um momento de celebração, visibilidade e afirmação da diversidade. A programação reforça a importância de ocupar as ruas e os espaços públicos como forma de resistência e de defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+.
E a agenda segue no mês de setembro. No dia 13, o Teatro do Parque, no Recife, recebe a quinta edição da Noite das Estrelas, projeto que reúne artistas e celebra a trajetória da arte transformista pernambucana. A iniciativa mantém a proposta de Jango de transformar o palco em espaço de memória, reconhecimento e oportunidade para diferentes gerações de artistas.
A Noite das Estrelas nasceu antes da Parada Boa Vista da Diversidade. Como surgiu a ideia de criar um evento voltado ao reconhecimento de artistas LGBTQIAPN+ de Pernambuco?
A Noite das Estrelas nasceu com o propósito de reconhecer os artistas LGBTQIAPN+, para que cada vez mais pessoas conheçam, valorizem e respeitem o trabalho e a arte transformista.
Uma das minhas grandes inspirações foi Elza Show. Eu a conheci ainda na adolescência e acompanhei a trajetória de uma artista que enfrentou muitos desafios, inclusive durante o período da ditadura. Ela me mostrou a força que existe por trás dessa arte e dessa resistência.
Foi a partir desse amor pelos artistas que comecei a criar projetos e espaços de acolhimento e reconhecimento. Quero que essas pessoas sejam reconhecidas como cidadãos, como profissionais e como os verdadeiros artistas que são. São pessoas que trabalham, pagam seus impostos, movimentam a cultura e merecem ser respeitadas pela sociedade.
Esse amor que eu tenho pelos artistas é muito forte. E é isso que me faz continuar criando espaços para eles.
Em um estado com uma produção cultural tão rica, por que você acredita que ainda é necessário criar espaços específicos para homenagear artistas da comunidade LGBTQIA+?
Porque, quando a gente abre esses espaços, a gente revela novos talentos e também constrói respeito. É importante que esse reconhecimento passe de geração em geração. Meu sonho é que existissem muitas outras pessoas fazendo esse trabalho, criando oportunidades e dando atenção para uma arte transformista que é tão bonita e tão rica.
Quando a gente vê o público assistindo a uma apresentação, quando o espaço está lotado e as pessoas realmente prestam atenção no artista em cena, é emocionante. Pode ser em um bar LGBTQIA+, em um bar hétero, em uma festa, em um teatro ou em qualquer outro lugar. Quando o público olha de verdade para aquela apresentação, os olhos brilham, as pessoas se emocionam, algumas até choram.
Porque aquilo é uma arte belíssima. E quanto mais reconhecimento e mais palcos nós tivermos, mais respeito vamos conquistar. E mais gerações terão a oportunidade de conhecer esses nomes brilhantes e compreender a importância do trabalho que eles realizam.
A Central das Estrelas tornou-se um ponto de encontro para diferentes gerações de artistas. O que esse projeto representa para você hoje?
Representa muito amor, carinho e reconhecimento. Quando a Central das Estrelas foi criada, inicialmente como Bar das Estrelas, há quase três anos, foi uma luta muito grande para ocupar aquele endereço. No começo, enfrentei muita resistência e ouvi coisas que eu não gostaria que ninguém tivesse que ouvir.
Mas eu não desisti, porque nunca vou deixar os artistas na mão. E sabe o que mais me faz feliz? O que mais me emociona e me gratifica? É quando uma performer sobe ao palco, se apresenta e o público aplaude de pé, vibra e reconhece aquela arte. Não existe cachê maior do que esse aplauso. Não existe nada que pague a emoção de ver um público tão maravilhoso reconhecendo a cena transformista.
É isso que faz a gente querer conquistar cada vez mais territórios. Porque quanto mais espaço, tempo, aplauso e reconhecimento conseguimos, mais respeito conquistamos em todos os lugares onde chegamos. Hoje temos números muito bonitos nas redes sociais, com dezenas de pessoas compartilhando nosso trabalho [se emociona].
É muito emocionante falar desses artistas. Isso mexe profundamente comigo. Só Deus sabe tudo o que eu enfrentei para abrir o primeiro Espaço das Estrelas. Não vou citar nomes, mas no começo não fui bem recebido. Quando ainda era o Bar das Estrelas, houve momentos em que os artistas estavam fazendo seus shows e praticamente ninguém prestava atenção. As mesas ficavam vazias, enquanto os outros bares estavam cheios. As pessoas passavam e davam as costas para a nossa programação.
E eu chorava muito dentro do banheiro. Hoje, porém, em menos de três anos, conseguimos transformar aquele projeto na Central das Estrelas, uma casa conhecida e movimentada. Só o fato de ocupar aquele ponto já é uma grande vitória. Não é apenas uma vitória minha. É uma vitória de todo o elenco. Hoje, as pessoas que passam pela Rua Mamede Simões param para assistir às apresentações. Pessoas que antes ignoravam a nossa programação agora param, sentam, me abraçam e agradecem. Isso é muito gratificante. Não tem preço.
E essa mobilização só vai parar quando o Papai do Céu me chamar um dia. Até lá, eu vou continuar lutando e nós vamos continuar juntos. Acima de tudo, agradeço primeiramente a Deus. E sempre digo uma coisa: a minha voz não consegue ir tão longe se não houver divulgação e compartilhamento. Por isso, digo a todo mundo: essa luta não é só minha. É de cada um de nós. Inclusive de você que está lendo esta entrevista.

Muitos dos homenageados da Noite das Estrelas construíram suas carreiras em períodos de maior preconceito e invisibilidade. Como você faz a escolha dessas personalidades?
A escolha das homenagens faz parte de um trabalho coletivo. A gente conversa com artistas da cena, pessoas que conhecem essa história e que possuem trajetórias importantes dentro da cultura LGBTQIA+ e da arte transformista. São pessoas como Carlos, da Sauna Termas Boa Vista, a drag queen Sayuri Heiwa, o produtor Paulo França e o ator Júnior Barros, conhecido também por sua persona Vagiene Coqueluche.
São pessoas talentosas, reconhecidas e que estão comigo nessa caminhada. Este é o quinto ano da Noite das Estrelas, e o momento da premiação é muito esperado pelo público, pelos artistas e também pelas famílias. Em uma das edições anteriores, aconteceu uma cena que me marcou profundamente. Um dos homenageados apresentou seu trabalho em um espetáculo lindo e emocionante.
Quando terminou, foi muito aplaudido. Ao falar sobre aquele momento, a primeira palavra que ele disse foi: “Gratidão.” Ele agradeceu a todos nós e, de maneira especial, a mim, por ter proporcionado aquele momento. Agradeceu também a toda a equipe que participou da realização do show. Mas o que mais me emocionou foi quando ele revelou que aquele momento era a realização de um grande sonho: ter a família assistindo a uma apresentação sua no palco.
Até aquele dia, ele nunca havia se apresentado ou se vestido artisticamente diante da própria família. Em todos os shows que fazia, seus familiares nunca tinham tido a oportunidade de vê-lo em cena: nem o pai, nem a mãe, nem os irmãos, nem os demais parentes. Naquela noite, porém, estavam todos lá. Pai, mãe, irmã, tia e outros familiares. Foi um momento de muita emoção. Ver aquela família reunida para assistir à realização de um sonho tão importante para ele tocou profundamente todos que estavam presentes.
Foi uma das cenas mais marcantes que já vivi na Noite das Estrelas. Foi o reconhecimento de uma família abraçando seu filho como um grande artista. E é por isso que eu digo que essa luta começa dentro de casa. Começa com a família. Quando a família reconhece, acolhe e respeita, isso dá uma força enorme para o artista. Isso me emociona, me fortalece e me faz seguir cada vez mais em frente, junto com essa equipe maravilhosa e com esses talentos brilhantes que fazem a nossa cena acontecer.
A memória da noite LGBTQIA+ recifense muitas vezes permanece apenas na lembrança de quem viveu essa história. Você entende seus projetos também como uma forma de preservar esse patrimônio cultural?
Com certeza. A arte transformista é um patrimônio cultural e precisa ser preservada. Mas essa preservação não pode depender apenas do nosso trabalho. Precisa ser um esforço de todos que fazem parte dessa luta. A gente não pode viver apenas aquele momento e depois deixar tudo virar lembrança.
Precisamos registrar, valorizar e deixar um legado para que essa história continue existindo por décadas e décadas. Por isso, os órgãos competentes precisam criar mais leis, projetos e ações. E não basta apenas criar no papel. É preciso colocar em prática, agir, manter e reconhecer.
Precisamos reconhecer não apenas a Central das Estrelas, mas também todos os artistas, produtores e projetos que trabalham para manter essa cultura viva. Precisamos ser mais abraçados pelas autoridades para que essa caminhada continue e não se apague. Porque as lembranças ficam, mas a luta continua.
Você costuma dizer que seus eventos também são um enfrentamento à LGBTfobia. De que forma a arte consegue promover conscientização e transformação social?
O preconceito está presente no mundo inteiro. E a arte transformista sofre muito com isso. Para mim, uma das maiores formas de enfrentar esse preconceito é justamente ocupar espaços. Precisamos colocar os artistas nos teatros, no cinema, nas escolas, nas ruas, nos bares, nas festas e nos eventos. Precisamos criar mais paradas LGBT, mais projetos culturais e mais oportunidades.
Quando fazemos isso, estamos levando a arte para perto das pessoas e, ao mesmo tempo, combatendo um preconceito que muitas vezes está dentro da cabeça e do coração do ser humano. A melhor maneira de combater a discriminação é criar espaço, levar cultura, valorizar o artista e permitir que as pessoas conheçam esse trabalho. Também precisamos de mais apoio dos governos, da Justiça e das leis.
Hoje já existem organizações, ONGs, delegacias especializadas, lideranças e movimentos que trabalham nessa área. A cada dia nós nos fortalecemos, mas ainda é pouco. A minha luta não é apenas para mostrar a arte transformista e o talento desses artistas.
É também para quebrar o preconceito. Quero que, quando as pessoas vejam esse trabalho, elas enxerguem primeiro o artista, o talento, a dedicação e a beleza daquela apresentação. E, quando tivermos mais apoio de empresários, comerciantes, marcas, deputados, vereadores e dos diferentes poderes, com todo mundo unido, vamos conseguir avançar cada vez mais no combate à LGBTfobia.
O Recife possui uma tradição importante na cultura LGBTQIA+, mas muitos artistas ainda enfrentam dificuldades para circular e viver da própria arte. O que ainda precisa avançar?
Para o artista conseguir viver da própria arte, precisamos de mais patrocínio, apoio das empresas, apoio dos poderes públicos e, principalmente, da criação de mais projetos. Um artista transformista precisa ter espaço no teatro, nos eventos, nos bares, nas festas e nos equipamentos culturais. Eu acredito também que os governos, em todas as esferas, poderiam criar projetos para levar esses artistas até as escolas e outros espaços da sociedade.
Precisamos conversar, apresentar essa arte e mostrar que ela também faz parte da nossa cultura. Qualquer artista precisa de mais projetos governamentais para que tenha oportunidades durante o ano inteiro. Não pode ser apenas uma apresentação aqui, outra ali, ou um evento uma vez por ano. O artista precisa de continuidade.
Precisamos de mais vitrines, mais patrocinadores, mais casas abertas e mais oportunidades em todos os lugares: nos bares, nas comunidades, nas associações, nos debates, nos eventos culturais, nos conselhos e nos equipamentos públicos. Porque, quando a gente abre essas portas, também combate o preconceito. A arte transformista é uma ferramenta de resistência, de trabalho e de transformação social. E, principalmente, ela pode dar ao artista a oportunidade de viver daquilo que ama fazer. Quando falamos em cachê, muitas vezes as pessoas não têm ideia de quanto custa ser uma artista transformista.
Em Recife, por exemplo, existe gasto com transporte, gasolina, maquiagem, cabelo, figurino e produção. Uma roupa, muitas vezes, custa uma fortuna. E tudo isso é feito porque essas pessoas realmente amam essa arte. Elas são artistas de verdade. Investem dinheiro, tempo, conhecimento e dedicação naquilo que apresentam. E eu fico pensando: quantos artistas famosos da televisão, do teatro e do cinema poderiam abraçar essa causa? Quantas pessoas que já possuem visibilidade poderiam ajudar a abrir caminhos para esses profissionais?
É cansativo. Muitas vezes é difícil. Mas a gente não pode desistir. Porque não estamos pedindo apenas uma oportunidade para subir em um palco. Estamos pedindo respeito, trabalho, dignidade e o direito de viver daquilo que amamos fazer.
Ao longo dos anos, qual homenagem ou momento da Noite das Estrelas mais emocionou você?
Para mim, todas são emocionantes. Todas são brilhantes. Uma mais linda do que a outra. Então fica muito difícil dizer quem emocionou mais ou quem se destacou mais, porque cada artista tem a sua beleza e a sua maneira de fazer a arte transformista. É a maquiagem, o look, a produção, o salto, o pisado na passarela, a maneira de caminhar, a presença no palco, cada número, cada música, cada dublagem. Cada artista coloca uma parte de si naquele palco.
E é justamente isso que torna tudo tão especial. Mas, quando você me pergunta quem mais mexeu comigo, eu confesso que existe uma pessoa que sempre terá um lugar muito especial na minha história. Por mais que eu diga que todas são magníficas – e realmente são , houve uma artista que me inspirou profundamente e que fez com que eu amasse ainda mais essa arte transformista: Elza Show.
Eu tive o prazer de abrir a Noite das Estrelas e também de homenagear aquela que foi uma das grandes responsáveis pela minha inspiração e por aquilo que sou hoje. Foi uma emoção muito grande poder homenageá-la no palco. Também tive a felicidade de comemorar os 90 anos dela em uma grande transmissão ao vivo que realizamos durante a pandemia, ao lado de grandes artistas e de pessoas que também representam a nossa luta, o movimento LGBT e toda essa história de resistência.
Hoje, chegando ao quinto ano da Noite das Estrelas, eu olho para cada artista que entra naquele palco e fico encantado. Todas são magníficas. Todas são deslumbrantes. É impossível não se emocionar. Você olha e não consegue definir quem é mais bonita, quem está com o melhor figurino, a melhor maquiagem, o salto mais alto ou a produção mais incrível. Cada uma tem seu momento, seu jeito de caminhar, sua dublagem, sua interpretação e sua história. Mas Elza sempre será uma presença marcante na minha vida.
Ela faz parte da história do meu projeto, da minha trajetória e, principalmente, da história de muitos artistas que hoje vivem e defendem a arte transformista. Quem viveu Elza, quem conheceu Elza, sabe da importância que ela teve. Mas o mais bonito é saber que o legado dela continua vivo. E eu quero continuar levando esse legado comigo, sempre. Porque Elza não é apenas uma lembrança. Elza é inspiração. Elza é história. Elza é legado. Elza sempre será Elza.
Existe algum artista ou personalidade da cultura LGBTQIA+ pernambucana que você ainda sonha em homenagear?
Essa é uma pergunta difícil, porque, a cada ano, a nossa luta consegue ressuscitar uma história, resgatar um talento e trazer de volta para o palco alguém que, por algum motivo, estava afastado. E hoje eu vejo isso acontecendo cada vez mais.
Existem muitas histórias que ainda precisam ser lembradas e muitos artistas que ainda vão marcar a Noite das Estrelas. Nesta quinta edição, teremos novos artistas sendo homenageados, novos talentos, artistas LGBT, cantoras, cantores e também pessoas que, mesmo não sendo artistas LGBT, abraçam a nossa causa, participam da nossa luta e ajudam a construir essa história. Essas pessoas também merecem ser homenageadas.
E quero dizer uma coisa para quem está do outro lado. Você que faz a matéria, que escreve sobre a nossa história, que divulga, que compartilha, que comenta, que segue o nosso trabalho, que assiste aos vídeos: você também faz parte dessa homenagem. Você que é o nosso público, que vai assistir ao show, à Parada LGBT, à Noite das Estrelas, que vai ao Teatro do Parque e aos nossos eventos, também faz parte de tudo isso. Porque uma artista não existe sem o público.
Essa homenagem é para todos que fazem parte dessa caminhada e, principalmente, para cada artista que representa a nossa comunidade LGBT. Eu fico impressionado porque, com o passar dos anos, cada vez mais artistas sobem ao palco e conseguem me surpreender. Eu nem quero citar nomes, porque são muitos. Mas sempre existe aquela pessoa que, quando sobe ao palco, apresenta uma coisa nova: uma maquiagem diferente, um figurino diferente, uma produção diferente, um número diferente. E você percebe que aquilo é feito por amor. É o amor pela arte transformista que faz essa pessoa buscar conhecimento, se produzir, se reinventar e continuar lutando.
Eu gosto muito de dar o exemplo da Parada LGBT da Boa Vista. Eu comecei a resgatar artistas que estavam há 10, 15, 20 anos sem fazer um show, sem subir em um palco. A cada ano, procuro trazer uma dessas pessoas de volta. Trago uma para a Parada LGBT, outra para a Central das Estrelas, outra para a Noite das Estrelas. E isso, para mim, é muito importante. Porque não é apenas colocar alguém no palco. É devolver a essa pessoa a oportunidade de mostrar que o talento dela continua vivo. Quando uma artista que ficou 10 ou 15 anos afastada volta a pisar em um palco, alguma coisa muda dentro dela. Ela recupera a força, recupera a autoestima e percebe que ainda tem muito para oferecer.
E acontece uma coisa ainda mais bonita: as artistas que estão chegando começam a olhar paraquelas que estão no palco e pensar: “Eu também quero chegar lá.” Uma começa a se espelhar na outra. Uma aprende com a outra. Uma incentiva a outra. E é assim que a nossa arte continua crescendo. Enquanto Deus me der vida e enquanto eu tiver forças para continuar essa luta, quero continuar fazendo isso: resgatando histórias, abrindo espaços, trazendo talentos de volta e dando oportunidades para que novas artistas possam nascer. Porque eu tenho certeza de uma coisa: a cada ano que passar, vão surgir várias, várias e várias novas estrelas.


