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Lea em evento do Confessions II, da festa Tarantina. (Foto: Alan Rodrigues/Divulgação).

Lea Farsaid e a imagem como intenção: “Minha drag existe para potencializar quem eu sou”

Em entrevista à Revista O Grito!, a performer e DJ revisita suas origens como Rafael Dias, fala sobre o impacto do coletivo Phenomena e analisa a maturidade estética que a colocou no radar nacional

Entre luzes estroboscópicas, pistas de dança e camarins improvisados, Lea Farsaid construiu uma trajetória em que a arte drag ultrapassa a performance. Cada maquiagem, figurino e aparição no palco nasce de um processo que mistura moda, fotografia, direção de arte, música e teatro. A performer transforma referências em imagem e faz da montação um espaço de experimentação, onde feminilidade e potência convivem sem a necessidade de seguir padrões. “Eu gosto que cada montação tenha uma intenção. Seja através do figurino, da maquiagem, do cabelo ou da performance, gosto que tudo converse entre si. Não é só vestir uma roupa bonita, é construir uma imagem”, explica.

Nos últimos anos, a criadora também passou a ocupar outro lugar no circuito cultural pernambucano. Além das apresentações nos palcos, tornou-se DJ e produtora cultural, ajudando a movimentar a noite LGBTQIA+ do Recife por meio do Phenomena, coletivo responsável por projetos como o Lipsynca e o Disk.phe. “A gente queria criar um espaço onde diferentes linguagens fossem bem-vindas e onde artistas pudessem experimentar, construir portfólio e crescer”, conta.

Enquanto cria oportunidades para novos nomes, segue consolidando um trabalho autoral que fez sua assinatura ultrapassar as fronteiras locais, especialmente quando passou a figurar entre os rumores da segunda temporada de Drag Race Brasil. “Muita gente passou a conhecer meu trabalho, ganhei seguidores, fui chamada para novos eventos e recebi mensagens de pessoas de todo o Brasil. No fim das contas, aquilo me mostrou que meu trabalho estava sendo observado. Só isso já foi uma vitória enorme.”

Mas, antes de tudo isso, existia Rafael Dias, um garoto que cresceu desenhando, pintando e buscando uma expressão capaz de reunir todas as suas inquietações criativas. “Eu sempre fui artista. Desde criança minha mãe incentivava muito esse meu lado criativo. Eu desenhava, pintava, brincava com massinha, argila… sempre gostei de criar, só não sabia através de qual linguagem.”

Foi no universo drag que essas referências encontraram um ponto de convergência, dando origem a uma persona que, com o tempo, deixou de ser um alter ego para se tornar uma extensão de quem ele sempre foi. “Eu percebi que tudo aquilo que eu gostava de fazer desde infância cabia dentro dessa arte: performance, figurino, maquiagem, teatro, música e direção de arte.”

Em entrevista à Revista O Grito!, Lea Farsaid revisita esse percurso, fala sobre sua descoberta da montação, as influências que moldaram sua identidade estética, a importância de fortalecer o ecossistema pernambucano e os desafios de viver da criação independente. “No fim, a Lea não existe para esconder o Rafael. Ela existe para potencializar quem eu sou.”

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A drag queen Lea Farsaid. (Divulgação).

Como foi seu processo de descoberta da arte drag? Quando percebeu que esse era o seu lugar? Eu costumo dizer que a drag não me transformou em artista. Eu sempre fui artista. Desde criança minha mãe incentivava muito esse meu lado criativo. Eu desenhava, pintava, brincava com massinha, argila… sempre gostei de criar, só não sabia através de qual linguagem.

Eu já conhecia esse universo, mas ainda enxergava muito aquele estereótipo que a gente via na televisão. Não conseguia me imaginar ali. Foi em 2015, assistindo a clipes no YouTube, que conheci Adore Delano. Aquilo me despertou uma curiosidade enorme e me levou até RuPaul’s Drag Race.

Quando comecei a assistir, foi como se várias peças da minha vida se encaixassem. Eu percebi que tudo aquilo que eu gostava de fazer desde criança cabia dentro da arte drag: performance, figurino, maquiagem, teatro, música e direção de arte. Foi nesse momento que entendi que ali era o lugar onde todas as minhas referências poderiam existir juntas. Ali nasceu a vontade de criar a Lea Farsaid.

“Também gosto de brincar com uma estética mais andrógina: criar um rosto bastante feminino sem esconder meu corpo forte. Pelo contrário. Eu treino bastante e gosto de incorporar isso ao meu trabalho. Acho interessante fugir da ideia de que toda drag precisa seguir exatamente o mesmo padrão de feminilidade

Lea Farsaid

Lembra de como foi se montar pela primeira vez?

Lembro demais. Na época eu estava na faculdade de Publicidade e precisava desenvolver um trabalho para a disciplina de Fotografia. Eu já tinha muita vontade de me montar e enxergiai naquele projeto a oportunidade perfeita. Criei um conceito inspirado na androginia, brincando justamente com essa mistura entre elementos masculinos e femininos.

Comprei minhas primeiras maquiagens, meu primeiro figurino e minha primeira peruca especialmente para esse trabalho. Fiz uma maquiagem completa, mantive a barba e construí toda essa estética para as fotos.

Quando me vi montada pela primeira vez, deu aquele “boom” e tive a certeza de que era isso que eu queria fazer. Foi como se eu finalmente tivesse encontrado uma linguagem onde podia unir tudo o que sempre gostei: fotografia, maquiagem, moda, performance e direção de arte.

De onde vem o seu nome artístico?

Eu pensei em vários nomes, mas nenhum fazia sentido de verdade. Até que percebi que a Lea sempre foi um alter ego meu. Então resolvi brincar com isso e inverti meu próprio nome: Rafael Dias virou Lea Farsaid.

Além de soar diferente e único, o significado me conquistou. A Lea representa essa versão de mim que consegue experimentar, provocar, ocupar espaços e viver coisas que o Rafael, por muito tempo, ainda não tinha coragem. No fim das contas, ela nunca foi alguém distante de mim. Sempre foi uma parte de mim.

E o que a Lea faz que o Rafael não tem coragem? O que ela traz de importante para ele?

Hoje a diferença entre os dois lados é bem menor do que já foi. Acho que a Lea acabou ensinando muita coisa ao Rafael. No começo ela era quem tinha coragem de subir num palco, de chamar atenção, de ocupar espaços e de mostrar o próprio corpo sem pedir desculpas por isso. Ela me fez perder muitos medos.

Mas, mais do que coragem, ela me deu confiança. Através da montação conheci pessoas incríveis, criei projetos, comecei a tocar como DJ, produzi eventos, encontrei uma comunidade e descobri capacidades que talvez nunca tivesse explorado. No fim, a Lea não existe para esconder o Rafael. Ela existe para potencializar quem eu sou.

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A versatilidade nos visuais de Lea Farsaid. (Divulgação)

Como você definiria o estilo da Lea?

Essa é uma pergunta difícil porque eu gosto de explorar caminhos diferentes. O que muda é a estética, mas acho que minha identidade continua muito presente. Minha maquiagem é a principal assinatura. O desenho dos olhos, os traços que faço no lugar das sobrancelhas e a forma como construo o rosto acabam sendo muito reconhecíveis.

Também gosto de brincar com uma estética mais andrógina: criar um rosto bastante feminino sem esconder meu corpo forte. Pelo contrário. Eu treino bastante e gosto de incorporar isso ao meu trabalho. Acho interessante fugir da ideia de que toda drag precisa seguir exatamente o mesmo padrão de feminilidade.

Como eu desenho todos os meus figurinos e estou sempre aprendendo novas técnicas, como costura e construção de penteados, cada montação é pensada nos mínimos detalhes. No fim, meu estilo é muito mais sobre construir imagens do que seguir uma única estética.

Quais as principais influências do seu trabalho? Elas mudam o tempo todo, e eu acho isso muito divertido. Tem muita influência da música brasileira, do teatro, da moda, da cultura pop, do universo gótico, de fotografia e de artistas como Lady Gaga.

Como eu desenho meus próprios figurinos, acabo observando referências em tudo. Também me inspiro muito nas artistas da cena local. Pernambuco tem uma produção drag muito potente e conviver com essas pessoas me desafia a evoluir o tempo inteiro.

Hoje, além da performance, também trabalho como DJ e produtora cultural através do Phenomena. Então minha inspiração não vem só do palco. Ela vem da pista, da música, das pessoas e da vontade de criar experiências que façam sentido para quem está assistindo.

O que não pode faltar na sua caracterização?

Raspar as sobrancelhas! Hahaha. Acho que isso faz toda a diferença no acabamento da maquiagem e me dá muito mais liberdade para criar o formato dos olhos e da expressão que eu quero transmitir. Mas, além disso, não pode faltar conceito. Eu gosto que cada montação tenha uma intenção. Seja através do figurino, da maquiagem, do cabelo ou da performance, gosto que tudo converse entre si. Não é só vestir uma roupa bonita, é construir uma imagem.

Quanto tempo você tem de estrada e quais momentos da sua trajetória destacaria?

Já são alguns anos de estrada e eu tenho muito carinho por alguns momentos que marcaram essa caminhada. Minha estreia nos palcos, em 2018, foi o começo de tudo. Depois veio o Drag Bomb, um concurso de lip sync de que participei, que me deu mais experiência e visibilidade na cena.

Outro momento muito importante foi quando meu nome apareceu entre os rumores da segunda temporada de Drag Race Brasil. Mesmo não entrando no elenco, aquilo me deu uma visibilidade nacional e abriu portas para novas oportunidades.

Também destaco o nascimento do Phenomena, que ampliou meu papel na cena como produtora cultural, além da minha consolidação como DJ, tocando nas principais festas LGBTQIA+ do Recife. E tive experiências inesquecíveis, como performar na Pink Flamingo, no Rio de Janeiro, e realizar uma intervenção artística de 27 minutos na festa Lambda. Quando olho para trás, vejo que cada etapa me desafiou de uma forma diferente e contribuiu para a artista que sou hoje.

Tem algum ritual na hora de se montar?

Tenho. Sempre começo ouvindo minha playlist de músicas góticas. É quase um momento de concentração. A maquiagem leva tempo e gosto de fazer tudo com calma. É ali que vou entrando no universo da Lea. Também gosto de deixar todas as referências organizadas antes de começar. Como costumo pensar muito na composição do visual, esse processo faz parte da montação tanto quanto a maquiagem.

Recife vive um bom momento para a cena drag graças a iniciativas como o Phenomena. Quais os principais projetos previstos para este ano?

Acho que o Phenomena nasceu justamente da vontade de ampliar as possibilidades da arte drag em Pernambuco. A gente queria criar um espaço onde diferentes linguagens fossem bem-vindas e onde artistas pudessem experimentar, construir portfólio e crescer. Em 2026 estamos desenvolvendo projetos que representam muito essa proposta.

O Lipsynca continua revelando artistas e incentivando novas drags a ocuparem os palcos. O Disk.phe fortalece esse encontro entre performance e música, mostrando que muitas drags também são DJs e pesquisadoras musicais. E estamos preparando um novo brunch especial de Halloween, que é o formato original do nosso projeto e que estamos loucas para retomar. Além disso, ainda vem um novo projeto por aí que me deixa muito animada. A ideia continua sendo a mesma desde o primeiro dia: criar oportunidades, movimentar a cena e mostrar que Pernambuco tem artistas incríveis produzindo coisas de altíssimo nível.

Qual foi sua reação quando teve o nome cogitado para a segunda temporada de Drag Race Brasil?

Foi uma loucura! Quando vi que meu nome estava circulando, aproveitei e dei uma sumida estratégica das redes sociais. Confesso que alimentei um pouquinho os rumores. Mas, brincadeiras à parte, também foi um período de muita ansiedade. É um sonho que eu tenho e, por alguns momentos, parecia que ele estava muito perto.

Mesmo não acontecendo, fiquei muito feliz com tudo o que veio depois. Muita gente passou a conhecer meu trabalho, ganhei seguidores, fui chamada para novos eventos e recebi mensagens de pessoas de todo o Brasil. No fim das contas, aquilo me mostrou que meu trabalho estava sendo observado. Só isso já foi uma vitória enorme.

Já sofreu preconceito enquanto drag e enquanto pessoa LGBTQIA+?

Infelizmente, sim. Acho que toda pessoa LGBTQIA+ acaba enfrentando algum tipo de preconceito ao longo da vida. E, no caso da arte drag, existe um desafio a mais: além da LGBTfobia, nossa arte ainda é muito marginalizada e, muitas vezes, desvalorizada até dentro do próprio meio LGBTQIA+.

Ainda existe a ideia de que a drag serve apenas como entretenimento, quando, na verdade, existe muito estudo, pesquisa, investimento e trabalho por trás de cada montação, figurino, maquiagem, performance ou projeto cultural. Ao mesmo tempo, tive o privilégio de construir uma rede de apoio muito forte. Minha mãe me incentivou desde o começo, meu pai passou a compreender e admirar meu trabalho com o tempo, e meu marido sempre esteve ao meu lado, apoiando cada passo da minha trajetória.

Então, apesar de todo preconceito que ainda existe, eu prefiro direcionar minha energia para continuar criando, ocupando espaços e ajudando a fortalecer a cena. Acho que essa é a melhor resposta que posso dar.

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