Foto: Nana Moraes
Nosso Segredo, primeiro longa-metragem dirigido pela atriz e diretora Grace Passô. O filme está em cartaz em todo o Brasil (e no Recife no Cinema da Fundação – Sala Museu) e é um dos fortes candidatos a ser o indicado brasileiro para o Oscar 2027. Ganhador de três troféus Kikitos no Festival de Gramado: Melhor Filme, Melhor Fotografia, para Wilssa Esser, e Melhor Direção de Arte, para Lucas Osório, o filme estreou na mostra Perspectivas do Festival de Berlim e já percorreu diversos países.
Filmado em Belo Horizonte, o longa acompanha uma família negra que tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada integrante enfrenta o luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de transformar a forma como todos atravessam esse processo. Grace Passô é uma referência do teatro brasileiro contemporâneo. Como dramaturga, já recebeu os prêmios APCA, Prêmio Leda Maria Martins e Prêmios SHELL do Rio e de São Paulo, tendo sido a primeira dramaturga negra brasileira a receber o prêmio Shell.
No cinema, como atriz, recebeu, por duas vezes, o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio e também por duas vezes o Candango no Festival de Brasília. Em 2018, foi eleita a melhor atriz no Festival Internacional de Cinema de Turim, na Itália. Ela já dirigiu o curta República, filmado durante a pandemia no apartamento em que morava, e por ele recebeu, entre outros prêmios, o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro por melhor curta do ano. Dirigiu também dirigiu o média-metragem Vaga Carne (adaptação de sua peça teatral) codirigido com Ricardo Alves Jr.
“Tudo me influenciou nesse processo: a história de minha família, o luto que vivemos juntos, a criação com meu grupo de teatro… Eu sinto que este roteiro é uma possibilidade de reescrever e revisitar escritos e reflexões que tive tempos atrás.
Grace Passô
Nesta entrevista, Grace Passô mostra como a originalidade da narrativa e o trabalho coletivo são destaques do seu trabalho.
O Grito! – Nosso Segredo fala de perda, de luto e de como cada indivíduo reage a essa dor e a essa tristeza. Ao mesmo tempo, o filme nos coloca diante do como essa dor reflete-se no convívio e nas relações de quem a compartilha. Ao colocar esse drama tão contundente no seio de uma família negra, você buscou mostrar como a situação retratada carrega também reflexos de outras vivências cotidianas enfrentadas por pessoas pretas na realidade brasileira?
Grace Passô – Sim, cada personagem ali é uma imagem humana recorrente em nossas famílias, assim como o modo como reagem a ausência e o modo como resolvem os problemas que aparecem. Esse filme retrata o luto de uma família e, ao mesmo tempo, metaforiza o modo como famílias negras lidam com tantos lutos ao longo da história colonial.

A trama de Nosso Segredo tem elementos de sua própria história de vida?
Não é um filme autobiográfico, mas sim, há inspirações e elementos da trama que são registros e criações da minha memória de quando ainda vivia com minha família. Além disso vivi um luto paterno e acredito que inconscientemente isso ajudou a guiar a escolha de um dos temas centrais da trama.
Esse filme retrata o luto de uma família e, ao mesmo tempo, metaforiza o modo como famílias negras lidam com tantos lutos ao longo da história colonial.
Grace Passô
Quanto de sua experiência teatral influenciou na composição dramatúrgica?
A peça foi importantíssima nesse processo porque foi um momento de concretizar ideias cênicas que estavam escritas mas não eram ainda acontecimentos cênicos. Eu acho que tudo me influenciou nesse processo até o filme: a história de minha família, o luto que vivemos juntos, a criação com meu grupo de teatro… Eu sinto que este roteiro é uma possibilidade de reescrever e revisitar escritos e reflexões que tive tempos atrás.
Quais foram os elementos que direcionaram a escolha do elenco e o trabalho de interpretação dos atores?
Eles precisavam imprimir características importantes de seu personagem e, ao mesmo tempo, relacionar seus personagens à família. Escolher um elenco que compõe uma família, requer que se crie uma lógica coletiva e não somente individual.
O fluxo narrativo do filme tem uma estrutura que não segue o padrão convencional para este tipo de drama. A montagem troca a linearidade das sequências e os cortes padronizados por um ritmo em que as cenas escorrem com fluidez mesmo diante dos saltos dramáticos que a história traz. Até onde a busca por uma poética narrativa pessoal e original foi uma questão central para você?
Você foi no ponto: para mim o ponto central sempre foi buscar uma narrativa fiel ao meu jeito de contar histórias, ou seja, a uma poética particular. Aliás, essa sempre é a busca de quem cria.

O garoto Efraim é o personagem mais significativo da trama, pois ele é quem vai quebrar o isolamento e o desespero dos seus parentes. Ele representa a esperança, a luz que aponta para a superação da dor. Desde o início da construção do roteiro ele já tinha essa relevância ou foi algo que foi crescendo na medida que a narrativa foi sendo construída?
Desde o início do roteiro, a criança era o eixo desta história. A perspectiva dela foi o que, inclusive, me ajudou a concretizar um certo olhar poético para essa história. Mas sim, houve mudanças: eu havia escrito um personagem que era uma garota de sete anos. No entanto, durante as audições, o Efraim (que era garoto e tinha apenas seis anos) me encantou porque ele topava entrar nos jogos que eu lhe propunha com muita sinceridade.
A casa onde a maior parte da narrativa se desenvolve é um elemento fundamental na mise-en-scène. Ela é quase um ser vivo, pois interage com os personagens e é dela que surgem diversos elementos fantásticos que a tornam um lugar mágico que leva os protagonistas a transitarem entre o real e o imaginário. Como foi conceber essa espacialidade que é muito mais do que um simples lugar onde as personagens circulam?
Para algumas crianças, a casa, durante a infância, é o mundo. Então foi como conceber um mundo, sobretudo na perspectiva de uma infância que brinca em um quintal como se fosse uma verdadeira floresta.

Percebe-se claramente em Nosso Segredo um rebuscamento da fotografia tanto pelo apuro estético quanto pelo diálogo que estabelece com os elementos cenográficos e a performance dos atores. O mesmo se pode dizer para a trilha sonora. Quais os principais aspectos destas escolhas que você apontaria como essenciais para o bom resultado final da obra?
A câmera tenta descobrir os mistérios por entre as frestas e as camadas da casa. Ela é viva, respira e se movimenta em busca de entendimento. Nesse sentido, fotografia e direção de arte foram pensadas em relação muito próxima: a casa não é apenas um espaço onde a história acontece, mas também algo que a câmera investiga.
A trilha é resultado do encontro com um dos nossos grandes músicos brasileiros, Amaro Freitas. Ele compunha e me enviava as músicas, sempre muito atento aos detalhes e, sobretudo, aos silêncios. A compreensão que Amaro tinha das cenas era tão imediata que, algumas vezes, cheguei a pedir outras versões por pura desconfiança de que fosse possível tamanha precisão.


