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“Boi Morto”, de Maria Carolina Morais, revela o trágico e o cômico do cotidiano em meio a uma tragédia iminente

Escrito durante a pandemia, a obra da autora reúne seis contos independentes, mas sutilmente coesos

Foto: Juana Carvalho/Divulgação.

Ambientado no Recife, o livro Boi Morto (Cepe Editora) será lançado neste sábado (26) pela escritora Maria Carolina Morais. A obra reúne seis contos nos quais situações cotidianas ganham contornos insólitos. O texto que dá nome ao livro descreve a festa de aniversário de Tenório, casado com Simone. A celebração segue até ser atravessada por uma chuva, que lentamente vira uma enchente.

Atenta ao que acontece, Simone observa que entre veículos, entulhos e árvores arrastadas há um boi morto, intumescido, mas de olhos despertos, como se ainda vivesse. Diante do cenário de destruição, da presença do animal (quase uma alegoria para sua vida), ela conclui ser impossível alcançar outro abrigo além do “inferno que se tornou o seu corpo”. A tensão entre a experiência íntima e a paisagem em colapso constrói a atmosfera da obra, que tem lançamento no dia 26 de setembro, às 14h, na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Derby.

O tema da enchente, cada vez mais contemporâneo, rondou Morais por muito tempo. A autora ia às bibliotecas públicas pesquisar sobre o tema e manteve o fascínio até a escrita do livro, que navega entre a dimensão simbólica do acontecimento e as consequências reais, espelhadas na obra.

“Eu já tinha certo fascínio pelas enchentes há muitos anos. Já li muito, vi documentário na internet sobre as enchentes no Recife. E as minhas avós falavam sobre coisas que foram perdidas e pessoas que tiveram de se mudar”, conta. “É um tema que se tornou muito urgente com o aquecimento global. Mas tem também uma questão simbólica, então de alguma forma, tentei abraçar as duas dimensões”.

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O livro é também seu primeiro livro de maior circulação, e ela conta que seu primeiro livro, Quatro Décadas em Quatro Contos, já era um esboço de Boi Morto, com os personagens, principalmente Simone, a primeira voz que surgiu, se colocando na narrativa.

As principais vozes do livro são femininas e integram o mesmo núcleo familiar. Embora independentes, as histórias estabelecem entre si uma rede de relações em que personagens reaparecem e tempos se deslocam. Simone surge no segundo, quinto e sexto contos. Naná, sua neta, protagoniza os três textos centrais.

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No segundo conto, Naná é apresentada como filha de Marcel, músico e filho de Simone, fruto de uma gravidez precoce. Mais adiante, Simone aparece separada do marido, distante dos filhos, morando com uma amiga. No sexto conto, o tempo recua: ela ainda vive com Tenório e os filhos, Marcel e Beto, dividida entre tarefas domésticas, dores do corpo e grosserias do companheiro. Naná narra os três contos que protagoniza; os demais são conduzidos por ela em terceira pessoa para dar espaço aos outros personagens.

As mulheres que ocupam o centro das histórias, segundo Morais, também são atravessadas por sua própria experiência. “São pessoas com quem me encontrei que, de alguma maneira, reverberaram em mim.” A autora conta que o protagonismo feminino não foi planejado. Surgiu naturalmente durante o processo de escrita. “Acho que é um atravessamento corporal, de uma vivência que, de alguma maneira, consegui colocar para fora”, explica. Ela também considera a possibilidade de que essas personagens tenham surgido da necessidade de tatear lugares obscuros da própria experiência; espaços que, nos últimos anos, puderam ser desvelados, pensados e discutidos.

Os primeiros textos de Boi Morto, livro com 184 páginas, foram escritos em 2020, durante a pandemia de covid-19, momento que espelhou a escrita da autora, que viu-se repetir a sensação de apocalipse contada pela avó na vivência da enchente, de tragédia iminente sobre a qual ninguém acredita, ninguém faz nada. O último, concluído em 2023, foi o mais influenciado por esse momento “apocalíptico”.

“Foi muito influenciado pela sensação de apocalipse, na pandemia, aquela sensação de que as coisas iam piorando, mas ao mesmo tempo com uma normalidade. Lembro que a minha avó falava que o dia estava claro, e então a água começou a subir e as pessoas não acreditavam. A gente espera que uma enchente vai acontecer em meio a uma tempestade, um dilúvio, mas era um dia normal”, diz Morais, recontando memórias. “Ela falou de uma vizinha que não acreditou que a enchente vinha e depois precisou ser salva de bote”.

Os contos também passeiam pela capital pernambucana. O Recife descrito é o lugar de um passado recente, com logradouros que preservam os nomes – a Rua Padre Lemos, em Casa Amarela, e a Praça Fleming, na Jaqueira – e referências a estabelecimentos já inexistentes, como a rede de supermercados Bompreço e Comprebem. Entre enchentes, relações familiares, violências e lembranças, o livro elabora uma cidade íntima e estranha, onde as personagens buscam saídas para suas vidas.

Serviço:
Lançamento do livro Boi morto, de Maria Carolina Morais, com bate-papo da autora dentro do Clube de Leitura Leia Mulheres
Quando: 26 de setembro de 2026, sábado
Hora: 16h
Local: Campus Derby da Fundaj
Endereço: Rua Henrique Dias, 609, Derby, Recife
Preço do livro: R$ 70,00 (impresso)