“Véia na Veia” usa os quadrinhos para discutir o etarismo contra mulheres

Antologia em quadrinhos coloca o preconceito por idade no centro do debate

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Foto: Divulgação.

O etarismo é o tema da antologia em quadrinhos Véia na Veia, publicação independente que reúne nove autoras brasileiras para abordar com humor, crítica e sensibilidade o preconceito enfrentado por mulheres à medida que envelhecem. Em 36 páginas em preto e branco, histórias e tirinhas mostram como a sociedade enxerga mulheres acima dos 40 anos.

O lançamento acontece em um momento em que o assunto volta ao centro do debate público. Em julho de 2026, a apresentadora Xuxa Meneghel, de 63 anos, foi alvo de críticas nas redes sociais por usar um figurino considerado “ousado demais” para sua idade, episódio que reacendeu discussões sobre os padrões impostos a mulheres mais velhas. 

Em Véia na Veia, o tema aparece tanto nas situações de discriminação explícita quanto nos questionamentos que muitas mulheres fazem a si mesmas: “Será que já estou velha demais para isso?”. A obra reúne diferentes estilos gráficos e narrativos para mostrar que o etarismo está presente em pequenas violências cotidianas, na invisibilidade social e nos estereótipos associados à idade.

Participam da antologia Alice Pereira, Anna Martino, Cris Camargo, Márcia Ramos, Rachel Paterman, Roberta Cirne, Suzana Barreto, Thina Curtis e Vivian Munhoz.

Mais do que denunciar um preconceito, Véia na Veia propõe uma reflexão sobre por que envelhecer ainda é vivido de forma tão diferente por homens e mulheres e mostra como os quadrinhos podem contribuir para ampliar esse debate.

O projeto está em campanha de financiamento coletivo em catarse.com.br/veianaveia até o dia 30 de setembro.

VeiaNaVeia primeira capa 1

Confira a entrevista da Revista O Grito! com Cris Camargo, uma das autoras e organizadora do projeto:

Por que decidiram criar este projeto? Como se deu a inspiração?

A inspiração veio de nossas experiências e observações do cotidiano, porque existe uma expectativa social de que a mulher fique mais discreta, menos visível e menos ousada à medida que envelhece. No entretenimento, Madonna e Xuxa que o digam. Também existe uma mentalidade tosca que acredita que o valor socialmente atribuído a uma mulher é inversamente proporcional à idade que ela tem. Mas às vezes também há um certo etarismo em relação a nós mesmas, de acharmos que “não temos mais idade” para certas coisas. A Vivian Munhoz, uma das autoras da antologia, disse que a inspiração para as páginas que produziu é a cobrança que faz a si mesma, como se não fosse mais capaz. O gibi é uma forma de documentarmos situações e darmos uma resposta a tudo isso.

Vocês já vivenciaram etarismo no cenário de quadrinhos? Ou em alguma outra área?

Sim. No meu caso, houve uma ocasião em que participei de um artbook com vários artistas homens de diferentes idades. Na mesa de autógrafos, eu era a única mulher. Um cara pegou o autógrafo de todos os artistas homens, mas passou reto por mim. Estranhei e disse a ele que eu também havia participado do livro. A resposta dele: “Ah, pensei que a senhora fosse mãe de algum dos artistas.” E em várias oportunidades em que eu quis comprar um gibi, um livro sobre técnicas de desenho ou mesmo material de desenho, os vendedores perguntaram se era “para meu filho”.

Infelizmente, também existe etarismo por parte de outras mulheres. Em um evento de quadrinhos, uma das autoras sofreu discriminação por parte de um grupo de artistas mulheres bem mais jovens, que até hoje a excluem do “rolê” pela diferença de idade. Outra autora tentou participar de uma coletânea de cartuns, mas não teve seu trabalho selecionado pela curadoria. Quando a coletânea foi lançada, era evidente o recorte etário dos artistas selecionados… “Coincidentemente”, ela e várias outras pessoas mais velhas haviam tido seus trabalhos rejeitados. Diante disso, o “Véia na Veia” também é uma maneira de dizer que mulheres maduras continuam criando, produzindo e contando histórias neste cenário.

Qual a idade das autoras que participam da antologia? As histórias irão abordar diferentes faixas de idade? Acredito que o etarismo tenha níveis e questões pertinentes às diferentes faixas?

Nossas idades em ordem decrescente: Suzana Barreto: 62; Eu: 54; Alice Pereira: 53; Thina Curtis: 51; Roberta Cirne: 49; Anna Martino: 45; Márcia Ramos: 42; Vivian Munhoz: 41; Rachel Paterman: 40.

No geral, as histórias não especificam a idade das personagens, justamente porque não existe uma idade única em que uma mulher passa a ser considerada “véia”. Isso varia conforme o contexto (mercado de trabalho, relacionamentos, sexualidade, padrões de beleza, meio artístico…). Para as mulheres, o etarismo pode começar muito cedo. Na primeira vez em que me chamaram de “tia”, eu tinha 25 anos… Por isso, queremos questionar essa espécie de prazo de validade que a sociedade insiste em colocar sobre as mulheres.

Qual a importância de falar de idade no Brasil de hoje?

Porque o Brasil está envelhecendo e, ao mesmo tempo, a população está vivendo mais e permanecendo ativa por muito mais tempo. Porém, a maneira como a sociedade enxerga o envelhecimento não acompanhou essa transformação. E ainda existe diferença na forma como homens e mulheres são tratados à medida que envelhecem. É preciso desconstruir esse preconceito e parar de tratar o envelhecimento como perda de valor, principalmente quando se trata das mulheres.