Espaço Aéreo
Claudia Cavalcanti
Fósforo, 96 páginas, R$ 69,90
Por incrível que pareça, o livro inaugura um gosto o tanto novo para mim: o romance. Já ensaiei tentar gostar, mas nada me agradava. Até que, certo dia fui apresentado pela jornalista e professora Adriana Dória ao título, de autoria de uma amiga dela há tempos, Claudia Cavalcanti. Bendito seja kronos, que me preparou esse momento, anos depois.
Espaço Aéreo é uma história que se passa – não de forma a se espantar, por mais que possa, dentro de um avião. Tendo como origem o aeroporto de Cumbica, que todos conhecem como como Aeroporto de Guarulhos e destino Maceió, Suzana Molinos nos apresenta o mundo a partir de sua ótica, tendo como base alguns elementos: perda de Didier – seu marido, o jornalismo como profissão, suas experiências pós perda, imersas num luto que parece não ter fim e o voo pessoal.
Apesar da minha última afirmação parecer um tanto quanto mórbida, risadas são garantidas, como alguns alívios cômicos, mas cheios de conteúdo. A “chuva de paus” vai fazer você entender como algo pode ser tão sério e tão engraçado, ao mesmo tempo. A grande questão é: como tudo isso pode acontecer dentro de um voo que, em média, dura 2h30? É louco isso, mas é possível. Falando em voo, se você tiver algum medo de usar como meio de transporte a “caixa voadora”, pode ser que em alguns momentos você perca o fôlego. O medo dentro do medo. Apesar disso, você certamente conhecerá algumas técnicas que Suzana considera importantes para vencê-los.
A experiência de ser mulher é algo muito bem retratado pela autora. Não me atrevo a adentrar no assunto para não cometer algum equívoco, mas segundo as conhecedoras do assunto, retrata bem a fase de pré-menopausa e menopausa. A vida sexual de Suzana e a naturalidade posta sobre, traz um diálogo muito próximo para a atualidade. Algumas boas páginas tratam do tema.
D. é um personagem a parte, que toca o fundo da minha alma, pois traz o tema da orientação sexual à tona. E o melhor: como um elemento natural e curioso – para o enredo se desenrolar. E, a partir disso, você entende a razão de ser. Aprisionamento – Liberdade – Voo – Pássaros… tudo se comunica.

Ao longo da leitura, a impressão que dá é que você está literalmente no voo. Decolagem – Altitude de cruzeiro – Pouso, literalmente e subjetivamente. A história é marcada no espaço, porque o tempo parece não existir. Histórias, fotografias, leituras e estudos são revistos e tendem fazer você pensar que não entendeu muita coisa, mas são elementos importantes para compreender o todo.
Ao passo que o avião pousa, Suzana levita sobre ela e as circunstâncias dela mesmo, como diria José Ortega y Gasset.
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