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Slayyyter prova que o caos é a ordem para o sucesso em “WOR$T GIRL IN AMERICA”

Entre hedonismo Y2K e colapso digital, artista encontra forma no excesso

Slayyyter prova que o caos é a ordem para o sucesso em “WOR$T GIRL IN AMERICA”
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Slayyyter
Wor$t Girl in America
Independente, 2024 | Gênero: Pop / Hyperpop

A cultura pop recente tem revelado um fenômeno de correção histórica interessante: trajetórias que por décadas foram confinadas ao limbo da ‘eterna promessa’ estão, finalmente, atingindo seu ápice. Depois de anos orbitando nichos e subespaços digitais, nomes como Zara Larsson, PinkPantheress, Charli XCX, Sabrina Carpenter e Chappell Roan encontraram uma nova tração no mainstream. Slayyyter, que há muito tempo habitou o chamado Khia Asylum, chega agora ao seu terceiro álbum de estúdio, WOR$T GIRL IN AMERICA.

Se em trabalhos anteriores sua persona orbitava uma ironia superficial, chegou a hora de deixar tudo mais denso. O disco faz uma emulação deliberada da nostalgia Y2K, mas passa longe do pastiche inofensivo. Slayyyter resgata a estética de Ke$ha – a loira porra-louca, com maquiagem borrada de quem não dorme há três dias e o famoso cifrão – para construir uma personalidade que ameaça a decência comum e celebra o “iPod music”, como ela mesma gosta de chamar. Trata-se de um retorno ao indie sleaze (o independente desleixado), em que a crueza da produção de Ayesha Erotica vai contra a tendência de uma era saturada de IA e de sons limpos e minimalistas.

A urgência do projeto é estabelecida logo no início com “Cannibalism!”. Sobre uma linha de baixo e guitarras distorcidas, ela afirma que baby, this is do or die (“baby, isso é vida ou morte”). Após um período de ostracismo e incertezas contratuais, Slayyyter depositou o futuro de sua carreira na visceralidade deste repertório. O disco recusa qualquer tentativa de moderação – seu excesso opera como crítica frente a uma onda de conservadorismo regida pela moral e bons costumes.

slayyyter credit alexa zeliger
Foto: Alexa Zeliger/Divulgação.

A genialidade metalinguística do disco atinge seu ápice em “CRANK”, o single mais libertino da cantora. A faixa é uma síntese perfeita da nostalgia hedonista vivida pelas lentes da Geração Z – a base rítmica, composta por gemidos ruidosos, evoca tanto o meme brainrot cat quanto um sample inusitado de Carrie Bradshaw em Sex and the City. É o ultraconsumo da cultura pop em um estado de psicose induzida, provando que Slayyyter entende a gramática da internet melhor do que qualquer executivo buscando seguir uma trend.

Essa operação não está isenta de risco. Em um cenário saturado por ciclos nostálgicos, a artista poderia facilmente ser lida como mais uma no meio de tantas. No entanto, o disco escapa dessa armadilha ao radicalizar sua proposta – em vez de suavizar referências, ela as leva ao limite. Rotulá-la apenas como uma ‘party girl’ unidimensional seria um erro de interpretação. O caos sonoro, além de chocar, serve para sublinhar a patologia e vulnerabilidade de uma busca incessante por preenchimento. 

A profundidade emocional surge de forma cortante em “Gas Station”. Na faixa, ela revisita o trauma de ter sido deixada em um posto de gasolina pelo próprio pai durante a infância, traçando um paralelo doloroso com a disfuncionalidade de seus relacionamentos adultos. É um momento de clareza em meio ao nevoeiro químico do disco, onde a produção desacelera para permitir que a voz da cantora transmita uma crueza que faltava em seus trabalhos anteriores.

No epílogo “Brittany Murphy.”, há um comentário metalinguístico sobre o esgotamento do mito da celebridade e a decadência da imagem pública de uma it-girl. Ao resgatar a imagem da atriz, ela se posiciona como dissidente de um sistema que fetichiza o colapso feminino para, em seguida, descartá-lo. É um exercício de escrita sofisticado que valida sua autonomia lírica, destilando uma acidez que sobrepõe qualquer tentativa de rotulá-la como um produto efêmero.

WOR$T GIRL IN AMERICA é o argumento definitivo em favor do exagero. Ao abraçar o que há de mais ‘feio’ e barulhento no zeitgeist, Slayyyter entrega um trabalho que reflete o próprio estado da cultura digital contemporânea. Em um cenário onde tudo parece simulacro, seu maior acerto é assumir o artificial até as últimas consequências e, nesse processo, encontrar algo real. Se este é o ‘pior’ dela, como sugere o título, o pop precisa urgentemente aprender a ser menos limpo.

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