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Memórias fora do armário: LGBTQIA+ 60+ compartilham afetos e memórias

Ser adolescente LGBTQIA+ nos anos 1960, 1970 e 1980 era viver escondendo gestos, dissimulando comportamentos e reprimindo os próprios desejos. Pensando nisso, para marcar o Mês do Orgulho preparamos esse especial em convidamos pessoas da comunidade para revirar suas gavetas e nos enviar fotos e depoimentos sobre sua juventude que marcaram suas vivências

As pessoas LGBTQIAPN+ que, hoje, têm mais de 50, 60 ou 70 anos sentem um pouquinho de inveja das novas gerações. Não por elas serem mais jovens, mas pela oportunidade que elas têm de poder exercer, caso desejem, sua orientação sexual e identidade de gênero de forma plena e aberta. Embora ainda exista discriminação e violência, os direitos adquiridos pela comunidade nas últmas décadas fazem uma grande diferença no nosso cotidiano. 

Ser adolescente LGBTQIAPN+ nos anos 1970, 1980 era viver escondendo gestos, dissimulando comportamentos e buscando os que compartilhavam das mesmas preferências para poder experimentar um pouco de liberdade e ter um lugar seguro para não sofrer preconceito e discriminação. 

Todavia, apesar dos olhares incriminadores dos familiares, dos colegas da escola e da repressão institucionalizada, entre as brechas da heteronormatividade imposta e dominante, existiam afetos, desejos, irreverência e sementes das reivindicações que se tornaram bandeiras de luta. Lutas essas que permitem, em 2026, aos jovens LGBTQIAPN+ poderem andar pelas ruas de mãos dadas e qualquer agressão contra esse ato ser considerado crime. 

Foi pensando nisso que decidimos neste mês do Orgulho LGBTQIAPN+ convidar pessoas da comunidade para nos enviar fotos de sua juventude que marcaram de algum modo suas vivências. Fotos de um tempo em que quase todo mundo vivia no armário e que muitas vezes só foram vistas por amigos muito próximos ou que, de alguma forma, foram um grito de “basta”.  Aos que reviraram as gavetas da memória para contribuir com nossa iniciativa, um beijo carinhoso.

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Acioli Neto, 61 anos, sociólogo, co-fundador da Gestos, coordenador do Instituto Boa Vista e responsável pelo projeto Papo com Pizza para homens gays 50+, aos 16 anos, no início dos anos 80, no bairro de Boa Viagem, Recife (PE)

No início dos anos 1980, havia uma região na praia de Boa Viagem onde a comunidade LGBT se concentrava para o banho de sol e mar, encontrar as amigas e paquerar. Ficava localizado entre o hotel Vila Rica e o Castelinho – uma casa assim conhecida por ter o formato que lembrava um castelo medieval. Era um trecho em frente ao Barricão – um famoso bar na época.  

Essa área da praia fervilhava com a presença de LGBTs de todas as idades, principalmente gays masculinos. Os banhistas heterossexuais torciam a cara ao passar por lá. Nessa época as sungas de praia eram pequenas e a dos gays mais ainda. No início da tarde, parte dos frequentadores da área subia para o Barricão, um dos bares mais friendly da época. Nunca soube de alguma restrição ou ato homofóbico no bar. Havia uma ampla parte externa em frente à praia onde o banho de sol era regado a muito chopp e muita fechação! Tempos felizes.

Impulsionado pela exibição das novelas Dancing Days, em 1979 e Baila Comigo, em 1981, no começo da década de 1980 surgiu um movimento favorável à dança moderna, sobretudo jazz. Nessa época foram inauguradas algumas academias de dança pela cidade, e uma delas, mais simples, funcionava no segundo andar da Casa da Cultura. Mesmo com toda essa repercussão da dança na mídia, fazer ballet clássico ou jazz não era algo visto com bons olhos no universo masculino. Estimulado por amigos que também faziam dança, me matriculei nessa academia e comecei as aulas sem a minha família saber.

No final das aulas eu deixava a roupa no apartamento de um casal de amigas próximo da academia para poder lavar e guardá-las. Certo dia, fui direto para casa e as levei dentro de uma bolsa grande que eu usava. Ao chegar, meu pai pediu para eu abrir a bolsa e mostrar tudo que havia dentro. Saiu a malha, a sapatilha, uma toalhinha … Ele olhou sério para mim e disse: estou atento a sua vida viu? E nada mais. Fui para o quarto, passado! Continuei a fazer jazz por mais alguns meses até desistir por falta de talento. Eu tinha 16 anos.


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Laura Finocchiaro, 64 anos, compositora, cantora, guitarrista e produtora musical, por volta dos 17 anos em Porto Alegre (RS)

Essa provocação da Revista O Grito! para descrever um momento da minha juventude em que minha orientação sexual já se manifestava, numa época em que as pessoas não falavam tão abertamente sobre questões ligadas à sexualidade LGBTQIAPN+, me levou a refletir sobre minha construção como ser sexual e político.

Lembrei-me, então, da minha adolescência, nos anos 1970, em plena ditadura militar. Eu estudava em uma escola de classe média alta dentro de uma bolha social onde esses temas sequer eram debatidos. Ainda assim, de forma espontânea, minha diferença em relação aos rótulos e expectativas impostos às meninas da minha classe social já se fazia notar.

Nasci sob o signo de Áries, em 7 de abril de 1962, e, talvez por isso, sempre fui profundamente ligada aos esportes. Ao mesmo tempo, já estudava música desde os nove anos de idade. Foi justamente através dos esportes que comecei a perceber que eu era diferente das minhas colegas.

No vôlei, eu era a capitã da equipe, uma levantadora que estimulava, organizava e liderava o time. Mas também me interessava por atividades que, naquela época, eram destinadas só aos meninos: futebol, surf, skate, futebol de botão, subir em árvores e telhados. Além disso, pratiquei capoeira, chegando ao cordel azul e integrando o primeiro grupo de capoeira do estado do Rio Grande do Sul, o grupo Filhos da Vivência, sendo a única mulher entre seus integrantes.

As fotografias que acompanham este texto registram alguns desses momentos: andando de skate e participando de uma roda de capoeira. Tudo isso aconteceu em meados dos anos 1970, sob a repressão imposta pelo regime militar.  Sem que eu tivesse plena consciência disso, mas guiada pelos meus próprios instintos, já ficava evidente que eu não seguiria o caminho dos laços cor-de-rosa e dos papéis tradicionalmente reservados às mulheres. Havia em mim uma liberdade que insistia em existir, mesmo sem nome.

Hoje, olhando para trás, percebo que aquela adolescente já anunciava a mulher que eu me tornaria: uma lésbica de coração aberto, comprometida com o amor, a liberdade e a autenticidade. Uma mulher que, aos 64 anos de idade, segue celebrando a vida e a diversidade, tendo dedicado 44 desses anos à Música Brasileira.

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Antônio Malheiros, 62 anos, trabalha com o setor imobiliário, aos 25 anos, em 1989, em São Paulo (SP) 

No filme Batman, de 1989, dirigido por Tim Burton, Robin foi excluído da história. Nesse ano eu morava em São Paulo e fiquei revoltado com o corte do Menino Prodígio, o eterno companheiro de Batman. da trama. Eu era fã do Robin e para mim eles eram muito mais do que a dupla dinâmica e amigos, decidi então mostrar publicamente minha indignação. Naquele tempo ninguém falava de cosplay, mas eu confeccionei uma fantasia de Robin e com ajuda de amigos consegui entradas grátis para a pré-estreia do filme no cinema Bristol, na Avenida Paulista.

Ao entrar fantasiado de Robin no cinema lotado, todo decorado por motivos do filme, fui ovacionado. Os seguranças da sala foram convocados para me retirar, mas a plateia não deixou. Em coro gritavam: fica! fica! fica!, e eu fiquei. Saiu até notinha na coluna da Joyce Pascovich na Ilustrada da Folha de S. Paulo. Na época, parecia apenas uma brincadeira, hoje me dou conta que foi um protesto queer que nunca esqueci. Anos depois os novos filmes do Batman trouxeram o Robin de volta.


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Sérgio Ricardo, 63 anos, maquiador, drag queen, membro do Conselho LGBT da cidade do Jaboatão, aos 30 anos em 1994, no Baile Municipal do Recife

Essa foto feita pelo fotógrafo do Diario de Pernambuco Fernando Gusmão foi um momento da minha vida que eu queria gritar aos quatro cantos do mundo a liberdade que eu sentia de poder mostrar minha homossexualidade resolvida. O título da fantasia era Explosão Gay porque eu previa que no futuro essa explosão aconteceria. De fato esse momento aconteceu, embora hoje ao mesmo tempo que temos avanços, temos também retrocessos e muita violência, infelizmente. 

Nessa época eu queria mostrar para minha família, que tinha vergonha de mim, que eu poderia ser homossexual e ser famoso. E eu estava feliz porque com toda força do meu corpo e do meu coração eu estava jogando fora o peso da pressão que a sociedade impunha contra mim.

Mas para chegar lá a luta foi grande. Sou filho natural de Caruaru que, no passado, era uma cidade muito conservadora. Quando vim para o Recife muitas coisas foram acontecendo e eu comecei a quebrar os tabus. Além do Baile Municipal, eu desfilava em agremiações carnavalescas e nesse percurso nasceu a drag queen Sarita Metálica, que foi a primeira drag a subir em um trio do Galo da Madrugada.

Como drag fiz vários trabalhos artísticos e foi na Parada Gay do Recife onde eu conquistei mais visibilidade. Acho o trabalho na parada da diversidade muito importante, pois reforça minha atuação militante. A personagem leva para os jovens LGBTQIAPN+ uma mensagem de felicidade e também de luta por uma sociedade melhor.


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Hilton Lacerda, 60 anos, cineasta, em 1982 aos 16 anos na Praia de Gaibu, Cabo de Santo Agostinho (PE)

A foto foi batida no dia 11 de abril de 1982, domingo de Páscoa. A foto foi feita por Cláudio Cruz – a ponta do pé dele aparece. Das coisas aparentes: um óculos de soldador que simulava nossa postura punk de gambiarra; um abafa-bufa quadriculado usado como canga;  um tênis esquecido perto de minha barriga. Eu com 16 anos e Cláudio tinha completado 17 em janeiro (só o alcançava em agosto). Não era meu primeiro namorado, mas foi a partir desse recorte, na praia de Gaibú (ainda pouco habitada), como as coisas foram seladas. Tínhamos uma arrogância para lá de saudável. O tempo e seus rastros. Faz parte de minha composição – creio que da de Cláudio também. Perdi Cláudio, mas já não namorávamos: a liga foi o amor que está na foto e fora dela.


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Raquel Simpson, 62 anos, atriz e transformista, em 1983 aos 20 anos, nos teatros do Recife (PE)

Para os queridos leitores de O Grito!, o que eu tenho a dizer sobre estas fotos são muitas saudades de um tempo que não existe mais aqui no Recife. É um tempo em que as trans eram chamadas atores e atrizes transformistas (hoje, drag queen).

Eu e minha amiga Luciana Luciene, já falecida, fomos convidadas a participar de uma revista musical intitulada Tal e Qual Nada Igual, uma super produção da Práxis Dramática, onde tinha o corpo de baile com 10 bailarinas e 10 bailarinos, números de sapateados e o grande comediante Luís Lima, que lotava os teatros. E ficamos em cartaz no Recife por dois anos e seis meses.

Passamos um tempo no Teatro Santa Isabel e depois fomos para o Teatro Barreto Júnior, com a casa sempre lotada. E tinham as transformistas, né? As travestis transformistas na época eram eu, Luciana Luciane e Lee Marjorie. A gente fazia números de humor, esquetes escritos por Guilherme Coelho que era do Vivencial. No final tinha uma apoteose de muitas fantasias. Era uma super produção. O público ficava encantado.

Tinha uma parte do espetáculo que tinha um disco voador que entrava em cena e do disco desciam três ETzinhos. Entrava em cena, então, uma mulher vestida de noiva e os ETs tiravam a roupa dela e ela fazia um striptease no palco.

Era uma coisa fantástica. E o público ficava encantado em ver a gente. Não é querer se gabar, mas eles ficavam encantados porque na época ver uma trans, ver um artista transformista, muito feminino, chamava a atenção e a curiosidade. Hoje em dia não, pois ficou natural. Né? Naquela época, quando as pessoas viam uma trans ficavam admiradas. 

Eu lembro que um dia eu entrei numa loja e as pessoas foram todas para a porta e ficavam falando: é uma trans, é uma trans. A vantagem, hoje em dia, é que nós somos melhor aceitas, isso porque nós abrimos portas, janelas e tudo mais para os mais jovens. Nós enfrentamos muito preconceito naquela época, muita porta na cara dos que não queriam nos aceitar. Só aos poucos o público, os produtores de teatro e os donos de boates foram vendo que a gente era uma boa opção de diversão e cultura.

Essa primeira foto me traz boas lembranças da minha batalha, da minha persistência e resiliência de estar no palco até hoje. Eu nessa foto estou com 20 anos de idade. Já a outra foto é do espetáculo Salve-se Quem Puder, do saudoso Cristiano Lins Produções Artísticas. Ela é de um número musical com o ator e dançarino Gilson de Paula, que atualmente interpreta a personagem Black Negona. 

Gilson é um excelente ator. Trabalhei com ele em outras oportunidades como recreador de festas infantis. Eu também por muitos anos tive meu lado como recreadora de festas infantis em que eu era o Palhaço Cebolinha. De dia animava as crianças e, à noite, animava os pais e as mães das crianças como Raquel Simpson.


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Sharlene Esse, 65 anos, atriz e transformista, na década de 1980 aos 21 e 22 anos no Mangueirão e na boate Misty, no Recife

Quando eu tinha 21 anos fui homenageada pela grande Consuelá do Recife no saudoso Mangueirão. Eu recebi o prêmio como a melhor performance como Gal Costa e foi ela quem me deu esse troféu. Na época, foi uma honra ser homenageada por Consuelo. Esses momentos marcavam muito a vida de quem realmente começou a fazer a arte drag por aqui, até então conhecida como arte transformista. Naquele tempo a gente não podia ser tão exposta porque a censura ainda não permitia.

Na outra foto eu tinha 22 anos e estava em uma apresentação na Misty, uma boate famosa que existia no Recife nos anos 80. Eu fazia parte do elenco fixo da casa que era um reduto das noites recifenses, pois acolhia todos os LGBTQIAPN+ e era a melhor boate da cidade. Lá tínhamos um agregamento de corpos e pessoas que iam ser felizes diante da repressão que sofriam no finalzinho dos anos 1980. Alí era um lugar seguro para você se divertir com liberdade.


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Maria Cleidejane Esperidião, 56 anos, jornalista freelancer e pesquisadora em jornalismo internacional na USP, em 1989 aos 19 anos, no Recife, e aos 26 anos em 1996, em Londres

Comecei no Jornalismo muito jovem e a estagiar já com 19 anos, em 1989. À época, embora o Jornalismo fosse considerada uma profissão mais liberal que outras, havia muito preconceito velado. Lembro que uma colega disse que a foto com cara de braba era de sapatão. Sempre associei o termo a algo pesado. Eu também não tinha sequer namorado mulher e os namorados eram conservadores.

A gente não tinha essas conquistas, estávamos ainda retornando dos anos da ditadura, quatro anos depois do fim oficial. Eu não entendia direito que poderia gostar de meninos e meninas, e que havia espaço para ser livre. Tinha medo de estigmas e aquela frase da aparência me quebrou. Me deixou receosa, eu estava tentando me consolidar no mercado, eu era fascinada pelas pessoas, sem prestar atenção em gênero. Nunca falei abertamente sobre o meu primeiro amor, nem com a minha mãe e minhas irmãs.

A vida já era difícil internamente, em casa, e na “rua”. Em 1996, quando fui para Londres, o verão tímido permitia passeios longos e uma ida a parada gay da cidade. Longe do Brasil, a caminho da marcha, um ex-namorado fez esta foto. Quando revelamos, ele me disse: você parece com aquelas mulheres da parada. Aquilo me pareceu ofensivo, embora tenha sido uma brincadeira.

Aos poucos, fui entendendo meus processos internos e de como sair do armário poderia ser libertador. Afastado do mercado de trabalho e vivendo a minha invisibilidade entre milhões de imigrantes, consegui me tornar mais clara e transparente, sem medo de alguém me julgasse. Só convidei minha companheira para um almoço de trabalho anos depois, em 2006, quando mudei para São Paulo e contei tudo para minha mãe, aos 36 anos. Levei quase 20 anos para entender essas dores. Hoje adoro quando me chamam de Maria Sapatão. Letras não me importam mais.