Sala imersiva homenageia o cineclubista e programador Geraldo Pinho

Instalado abaixo do balcão do São Luiz, o espaço convida a um mergulho na memória dos cinemas de rua

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Coordenador e programador do Cinema São Luiz, o cineasta Pedro Severien, junto com Simone Jubert, teve uma participação ativa na implantação do Centro de Referência do Audiovisual Pernambucano. Entre outras coisas, ele foi o responsável pela instalação da Sala Geraldo Pinho (1950-2021), um espaço que homenageia um nome incontornável quando se fala de cineclubismo, gestão e curadoria de salas de cinema no Recife. 

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Com senso crítico aguçado, mas também bom entendedor do gosto diverso do público no seu apreço pelo cinema, Pinho foi  mais que um programador de filmes, foi um educador do olhar e mostrou isso com esmero nos anos em que ficou à frente da programação do São Luiz. O seu trabalho foi fundamental na consolidação de uma cultura cinéfila no Recife, influenciando críticos, pesquisadores e realizadores.

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Geraldo Pinho foi programador do Cinema São Luiz por mais de 10 anos. (Foto: Jarbas Jr.)

O espaço abaixo do balcão do cinema, era chamado por Pinho de “as entranhas do Cinema São Luiz” e foi justamente neste local onde foi instalada a sala imersiva cujo tema são as salas de cinema de rua de Pernambuco. Severien fala aqui das motivações de sua criação.

O Grito! – Por que esta sala Geraldo Pinho? 

Pedro Severien – Olha, Geraldo Pinho foi uma das figuras mais fundamentais para a construção desse momento que a gente vive do cinema pernambucano, um cinema de liberdade criativa que não se rende necessariamente às fórmulas do mercado, mas sem deixar de ser um cinema que engaje o público. Geraldo Pinho tinha, na forma de programar as salas, um pouco dessa essência de apresentar o cinema contemporâneo e, ao mesmo tempo, valorizar o cinema brasileiro muito fortemente. Basta ver as iniciativas que ele teve desde a época em que estava no Museu da Imagem do Som de Pernambuco, passando pelo Teatro do Parque com o programa Cinema Brasileiro a um real e pelos mais de 10 anos que passou aqui no Cinema São Luiz, mantendo uma programação muito instigante e singular. Essa contribuição de Geraldo para a formação do olhar, para a formação de realizadores fomentou essa ideia de preservar a memória de uma pessoa tão importante que está ligada a uma pauta também estratégica e necessária da memória da experiência cinematográfica que são os cinemas de rua.

Qual a relevância desta preservação da memória dos cinemas de rua nos dias de hoje?

Essa é uma pauta política importante ligada a mudança da experiência de ver filmes. Quando as salas de cinema foram para os shopping centers se criou uma experiência privatista do cinema, ou seja, uma experiência muito voltada ao consumo e de pouca relação com a cidade e com a diversidade urbana. Outro aspecto mais recente é a disputa com as telas do computador e do celular, intensificadas ainda mais a partir da pandemia. Um efeito colateral disso foi a desmobilização da experiência nas salas de cinema, não necessariamente no sentido de ter havido uma redução do público, mas com o circuito comercial cada vez mais voltado para lançamentos multimilionários. E neste cenário os cinemas de rua para permanecerem abertos precisam se reinventar. E o cinema São Luiz é um deles, um cinema que se transformou, passou por diversas fases em sua história e que foi salvo pela mobilização social e política  para se tornar uma sala pública e popular.  

Como essa importância dos cinemas de rua foi traduzida para a Sala Geraldo Pinho?

A Sala Geraldo Pinho foi uma ideia que surgiu junto com a gestão da Fundarpe e a colaboração aqui da equipe do cinema. Eu construí um roteiro para que o público pudesse experienciar esta imersão por dentro do cinema. Geraldo dizia que este espaço sob o balcão eram as entranhas do São Luiz. Adequamos então esse lugar colocando uma passarela e uma videoinstalação em três telas que traz de forma sensorial a história e um pouco da memória das salas de cinema de rua de Pernambuco. 

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Coordenador do São Luiz, Pedro Severien escreveu o roteiro da videoinstalacao colocada sob o balcão do cinema. (Foto: Alexandre Figueirôa)

Você pode detalhar cada uma das telas e descrever seu significado no contexto da sala? 

A primeira tela traz imagens dos cinemas de rua no auge dos seus funcionamentos com salas lotadas, filas na calçada, esse tipo de ocupação que era muito viva dos centros urbanos, não só do Recife, mas também de outras cidades do interior de Pernambuco e da Região Metropolitana. Foi realizado então um levantamento de fotografias desses cinemas nos seus momentos mais gloriosos, mais esplendorosos compondo um painel desse período. É importante observar que o desenho de som de cada etapa da caminhada por dentro da sala vai traduzir o clima das imagens projetadas. Na primeira os sons mostram as reações da plateia, as palmas e o burburinho de muitas pessoas numa fila.

A segunda tela mostra a ruína de muitos desses espaços que foram aos poucos sendo abandonados. Com os deslocamentos econômicos e a mudança na forma de consumo, muitas dessas salas fecharam,  algumas se transformaram em farmácias, supermercados, igrejas neopentecostais e outras simplesmente ficaram caindo aos pedaços, e hoje são prédios abandonados. Neste trecho, os sons buscam provocar uma reflexão sobre esses processos. Eles trazem o ruído de goteiras e evocam um certo vazio urbano dessa dimensão do abandono e da produção de ruínas. 

Por fim temos a terceira tela que mostra os cinemas de rua que ainda estão vivos e resistiram a essa pressão econômica e de mudança na forma de consumo dos filmes. São salas que se reinventaram  e muitas delas hoje são públicas ou têm parcerias com instituições públicas ou com organizações de produtores independentes.  Aqui achei interessante também colocar imagens dos cinemas que têm potencial de serem reavivados, ou seja, salas que ainda têm uma estrutura básica podem ser reocupadas e reabertas. O desenho sonoro aqui acompanha também essa dualidade de salas vivas pujantes como o São Luís como o Theatro Cinema Guarany lá em Triunfo, o Cinema São José em Afogados da Ingazeira, mas vai colocar também a questão do Cine Olinda, que está fechado, mas pode ser reaberto. 

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Videoinstalacao mostra diversas fases dos cinema de rua com fotos e sons que reproduzem o espírito da época. (Foto: Alexandre Figueirôa)

Você acredita que esta experiência sensorial pode contribuir nessa causa de valorização dos cinemas de rua?

Sim, a ideia da videoinstalação é sensibilizar o público e mostrar que os cinemas de rua são importantes não só para quem faz cinema. É para ressaltar que todos têm direito a experiências culturais em espaços de arte e cultura. São locais públicos que vão poder ser usados de diversas maneiras, inclusive pedagogicamente com escolas, com pesquisadores e com a formação de realizadores. 

Quem assina a realização da sala?

O roteiro é meu e a pesquisa contou com a parceria de Simone Jubert. A concepção cenográfica e toda a montagem da videoinstalação foi coordenada por Gabriel Furtado. Ele trabalha há muito tempo com projeção e intervenções visuais e é um cara muito sagaz, pois conseguiu dar forma a essa ideia de forma primorosa.