Centro de Referência do Audiovisual Pernambucano garante acesso aos sons e imagens da nossa história cultural

A curadora Simone Jubert elegeu como principal eixo do espaço expográfico, instalado no Cinema São Luiz, a interconectividade do cinema com outras expressões audiovisuais

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O Centro de Referência do Audiovisual Pernambucano (CENA), aberto ao público no início do mês de julho, é um dos projetos culturais mais interessantes empreendidos no estado nos últimos anos. Instalado no segundo andar do Edifício Duarte Coelho, com entrada pelo Cinema São Luiz, o CENA é um braço do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (MISPE).

O CENA, porém, mais do que um espaço de exposição, é a porta de entrada para o rico acervo do MISPE que, além de filmes, tem um vasto material composto por discos, entrevistas, partituras musicais, folhetos de cordel e cartões postais que contam e ilustram boa parte da história cultural de Pernambuco desde o início do século XX. Com uma grande quantidade de material já digitalizado, o CENA oferece aos pesquisadores a possibilidade de acesso gratuito a esse patrimônio.

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Mas para essa ação cultural vir à luz, um longo trabalho foi desenvolvido pela jornalista e pesquisadora  Simone Jubert, responsável pela  gestão do CENA e pela coordenação curatorial da expografia. O entusiasmo de Jubert com o projeto é contagiante. O encantamento com as descobertas do material arquivado, com o significado e a relevância histórica do conteúdo das peças e a oportunidade de disponibilizá-las  foram o motor principal do seu trabalho.

A expografia está dividida em sessões com destaque para uma linha do tempo com os momentos decisivos da história do cinema pernambucano desde o Ciclo do Recife até os dias atuais. Tem ainda uma sessão dedicada a fábrica de discos Rozenblit, outra intitulada Vozes do Cordel, com folhetos de cordel, a sessão Entrevistas do MISPE, a de Partituras e a Lembranças de Pernambuco, com antigos cartões postais de várias cidades do estado. Completam a exposição exemplares de antigas filmadoras, projetores e equipamentos de som.

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A curadoria organizou uma linha do tempo com a história do cinema pernambucano a partir do acervo do MISPE (Foto: Alexandre Figueirôa)

O Grito! fez uma visita guiada pelo CENA, acompanhada por Jubert que nos conta aqui detalhes de todo o processo de construção da expografia e o que ela representa para a nossa história cultural.

O Grito! – Como surgiu a ideia desse projeto?

Simone Jubert –  Eu entrei no MISPE no final de 2023 e já tinha um projeto desenhado para esse espaço. Ele tinha sido submetido ao Governo Federal pela Lei Paulo Gustavo e obteve uma verba com repasse direto da União que, no caso de Pernambuco, foi direcionado para o restauro do Cinema São Luiz e a criação deste centro. Como para submeter o projeto e receber a verba tinha que discriminar os equipamentos, o mobiliário, a iluminação, etc. eles já estavam disponibilizados Existia também a ideia do que seria feito, faltava, no entanto, uma curadoria.

Ou seja, faltava definir o conteúdo do que seria disponibilizado. 

Exatamente. O Museu da Imagem e do Som só funciona como reserva técnica. Atualmente ele está instalado na Casa da Cultura, mas sem acesso do público. Espero que o CENA provoque, inclusive, uma sensibilização para que o MISPE volte a ter espaço próprio. Mas, de qualquer forma, eu entendo o CENA como um braço do MISPE.  O São Luiz ganhou muita visibilidade nos últimos anos e é um espaço muito procurado para ser visitado. Vem gente aqui para ver a arquitetura, que quer entrar na sala do cinema e subir na sala de projeção, que quer ver onde O Agente Secreto foi filmado, então percebemos que trazer o CENA para cá potencializava isso. Dessa forma as pessoas vêm conhecer o São Luís e encontram um espaço expográfico que ajuda a entender como se formou essa cena do audiovisual e do cinema aqui em Pernambuco. 

Como dentro do mesmo projeto havia uma verba de digitalização do acervo, a minha primeira missão foi olhar para a nossa coleção de filmes em 16 e 35mm para definir o que poderia ser digitalizado. Pedro Aarão, técnico audiovisual do MISPE, passou quase um ano fazendo esse trabalho, vistoriando película por película.  

Concluída essa etapa, eu comecei a fazer uma checagem com os acervos da Cinemateca Pernambucana e da Cinemateca Brasileira de modo a ver o que a gente tinha de diferente, pois era importante nós fazermos a digitalização só dos filmes que não existiam em outros lugares. No acervo do MISPE, por exemplo, tem muitos filmes da Embrafilme, mas  eles já têm cópias digitais, então não fazia sentido incluí-los. Esse foi um dos critérios dessa seleção. 

Você poderia citar alguns dos filmes digitalizados?

Os primeiros que eu tive certeza de que seriam incluídos nessa seleção  foram os do acervo de filmes em 16mm da TV Universitária, usados nas reportagens do telejornal da emissora e que estavam no MISPE. Neste material temos desde filmes da grande cheia de 1975 a derrubada da Igreja dos Martírios para a passagem da Avenida Dantas Barreto. Também digitalizamos os filmes da década de 1960 da produtora Cinema Um de Francisco Bandeira de Mello, Carlos Garcia e Cristina Tavares, filmes dos anos 80 e 90 como Texas Hotel, de Cláudio Assis, O Crime da Imagem, de Lírio Ferreira e Nem Tudo São Flores, de Paulo Caldas, entre outros. Ao todo foram 855 minutos digitalizados. Os filmes foram digitalizados tanto em H.264 quanto em ProRes. A empresa que realizou a digitalização foi a Link Digital que entre outros trabalhos digitalizou o filme A Hora da Estrela, de Suzana Amaral.

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“Texas Hotel, de Cláudio Assis, de 1999 está entre os filmes digitalizados e acessíveis ao público e pesquisadores. (Foto: Divulgação)

Alguns desses filmes têm trechos que podem ser vistos nos monitores da expografia, mas se o pesquisador quiser assistir o filme na íntegra ou um documentarista quiser usá-lo em alguma produção, isso é possível?

Sim. Para todos os filmes digitalizados existe o negativo digital. Esse material está no acervo técnico do MISPE onde temos as matrizes e também os backups. Assim se a pessoa quiser pegar um filme para fazer parte de um filme próprio pode solicitar. O pedido segue para o departamento jurídico e se tiver tudo direitinho, ele pode pegar o negativo digital e vai conseguir mexer em curva de cor, saturação,  vai conseguir trabalhar a fotografia ao seu bel prazer sem perder qualidade. Lembrando, porém, que não somos nós quem detém os direitos autorais. A pessoa tem que ver isso com os familiares do realizador ou, se o realizador estiver vivo, conversar com ele. Para apenas ver o filme, basta o pesquisador enviar um e-mail para cena@fundarpe.pe.gov.br  solicitando a visualização e vir aqui assistir, temos monitores especiais para isso.

É também uma forma de agilizar o acesso ao acervo.

Sim. Esse novo formato é muito mais lógico. Nós vemos o CENA como um espaço de pesquisa. Antes quando um pesquisador precisava ver um filme necessariamente se precisava de um projetor em 16mm ou 35mm, mas cada vez que você o projetava ia desgastando a película.  A ideia é que as matrizes fiquem resguardadas para futuras possíveis restaurações e digitalizações. A tecnologia é cada vez mais veloz, então sabe-se Deus como estaremos daqui a 10 anos.  As matrizes têm que ser preservadas, mas as imagens têm que circular e, hoje, democratizar o acesso às cópias digitais é a maneira que as cinematecas e os centros de referência encontraram para fazer isso acontecer. 

Em que momento você percebeu que além do cinema o CENA precisava ampliar o seu olhar para outras expressões que fazem parte do acervo do MISPE?

Quando o projeto foi concebido estava claro que o CENA ia ser um espaço dedicado ao audiovisual e ao cinema em si. Mas, quando eu entrei na história eu fiquei pensando: ‘caramba, a gente tem um acervo muito rico, temos entrevistas com Badia, Gilberto Freyre, Bajado, Geninha da Rosa Borges, registro de cerimônia no terreiro de pai Apolinário, um dos babalorixás mais respeitados de Pernambuco e muitas outras; temos cordéis, discos da Rozenblit, partituras musicais originais, não podemos perder a oportunidade de mostrar esse acervo, pois muita gente nem sabe que esses registros existem’. 

Então, como o cinema se vale de várias artes, nosso intuito foi fazer com que, ao circular pela exposição, o visitante conseguisse ver as conexões que essas expressões têm entre si. Por exemplo, você tem aqui, na parte de equipamento de som, esses gravadores de rolo com os quais as entrevistas para o MISPE foram gravadas. As entrevistas estão disponíveis, e aí você tem entre elas a entrevista com o José Rozenblit, logo em seguida tem uma sessão de discos produzidos por sua fábrica. Nos discos expostos, tem um long play de Capiba gravado na Rozenblit e na sessão de partituras tem uma de autoria de Capiba quando ainda assinava como Lourenço Barbosa, percebeu?

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Discos em vinil da Rozenblit também integram o material da exposição. (Foto: Alexandre Figueirôa)

Na sessão sobre o cinema em Super 8 nós colocamos um trecho do filme A Peleja do Bumba Meu Boi Contra o Vampiro do Meio Dia, documentário de Luiz Lourenço e Pedro Aarão e ele tem um cordelzinho, que se conecta com a sessão de folhetos de cordel que tem trabalhos bem diversos inclusive com cordelistas mulheres como Ione Rabelo.

Como você pode ver tudo vai se comunicando de alguma forma, uma sessão ressoa em outra que conversa com outra. Então, a ideia era mostrar justamente essa interconectividade entre as linguagens e como isso tudo ajuda a estruturar uma cena artística e ajudou a estruturar o próprio campo do cinema enquanto modo de fazer e modo de pensar esse cinema. 

Esse material passou por alguma intervenção antes de ser exposto?

Tanto os cordéis quanto os discos passaram por um processo de conservação preventiva e de desinfecção. Foi feito uma limpeza dos vinis e restauro das capas quando possível. Isso foi possível graças a projetos do Funcultura que permitiram também convidar pesquisadores e especialistas como Shirley Rodrigues e Eulina Fraga que cuidaram dos cordéis e Michelly Cross que organizou as partituras. Michelly é musicista e historiadora do MISPE e fez um trabalho muito bonito porque ela conhece muito bem as partituras. 

É importante destacar que as entrevistas, os folhetos de cordel, as partituras e mais uma coleção de cartazes de filmes também estão digitalizados. No caso dos filmes e entrevistas colocamos na exposição apenas trechos selecionados, mas temos uma sala aqui no CENA com computadores onde os pesquisadores podem localizar, ouvir e assistir as obras completas por meio de um catálogo preparado especialmente para isso. 

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Folhetos de cordel e partituras musicais também estão acessíveis para os pesquisadores. (Foto: Alexandre Figueirôa)

É curioso observar que essa expografia faz um mapeamento de parte do pensamento cultural e artístico em Pernambuco no século XX usando apenas o acervo do MISPE.

Quando eu fui fazer a linha do tempo do cinema pernambucano eu conversava muito com Pedro Severien e a gente se sentia até meio herege por não expor, por exemplo, trechos de O Palhaço Degolado, de Jomard Muniz de Britto. Todavia, nós tínhamos que privilegiar o acervo do MISPE e o filme não está na nossa coleção. Por outro lado, isso é interessante porque, de certa forma, é um contraponto e uma outra forma de ver a produção local. Na parte dedicada ao Super 8 temos A Peleja do Bumba meu Boi… que é um exemplo de documentarismo institucional e é da mesma época do Super 8 de Jomard e é algo que só o MISPE tem. 

A inventividade do Super 8, sua ligação com a contracultura é importante, mas quando destacamos os filmes da produtora Cinema Um da qual a jornalista Cristina Tavares, uma das primeiras mulheres cineastas de Pernambuco, era uma das integrantes, estamos ajudando a formar uma visão completa do que aconteceu no período. O mesmo vale para essa pequena câmera Super 8 que nós colocamos aqui. Vendo essa câmara bem levinha, eu acho que dá para a pessoa entender por meio desse aparato uma ideia do cinema que era feito quando alguém colocava uma coisinha dessa na mão e saia para todo canto filmando.

A parte da linha do tempo que aborda o Ciclo do Recife, é outro exemplo dessa relação do acervo do MISPE com a história do cinema pernambucano. Nós não temos no acervo cópias dos longas realizados nos anos 20, mas temos documentários feitos em Super 8 por Fernando Spencer com depoimentos de Ary Severo e Jota Soares e o principal curta sobre o ciclo: História de Amor a 24 Quadros por Segundo, de Fernando Spencer e Amin Stepple.

Nosso objetivo não é repetir o que já foi feito, mas conseguir possibilitar outras perspectivas dentro do que a gente está trazendo. E uma coisa que eu acho importante dizer, e eu deixei isso claro nos textos, é que toda vez que a gente nomeia, a gente está provocando algumas ausências. Então,  a expografia não é uma história fechada do cinema pernambucano, é um recorte e dentro desse recorte tentamos privilegiar o que a gente achava que ia fazer sentido. 

A expografia também aborda o cinema pernambucano contemporâneo de uma forma criativa e dinâmica por meio de uma videoinstalação. Qual mensagem ela pretende passar?

A videoinstalação Gesto Contínuo de Invenção de um Cinema Pernambucano foi concebida por mim e Pedro Severien.  Embora ela não tenha apenas trechos de filmes incentivados pelo poder público, boa parte deles foram frutos dos editais de fomento e nós queremos  falar dessa importância das políticas de Estado para o audiovisual. Graças a elas todas regiões do estado, além da capital, estão produzindo filmes, o que permite que se consiga ver outros tipos de expressão, outros tipos de comunidade sendo retratadas. E a ideia é mostrar como esse cinema se desenvolve num gesto contínuo de invenção, de representatividade e  diversidade por conta dos sistemas de fomento. Não é uma questão da política de um governo X ou Y, isso é política de Estado, isso é política pública que vai assegurar esse gesto. Outro aspecto que consideramos muito importante destacar é o fato de que se hoje temos o setor audiovisual estruturado do jeito que está com políticas públicas estruturadas, é porque houve uma trajetória de luta das instituições que ajudaram a moldar o funcionamento disso.

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“A Peleja do Bumba-meu-boi Contra o Vampiro do Meio Dia” é um exemplo do documentarismo institucional. (Foto: Divulgacão)

Além do material exposto existe a possibilidade do CENA realizar outras mostras temáticas com o acervo do MISPE?

Fazer a curadoria num espaço como esse a gente tem que ter não só uma visão curatorial, mas também uma visão de gestão tanto do acervo quanto do espaço em si. Porque se você não tem isso em mente, mais adiante você quer ingestar alguma coisa, aí tem que fazer outra licitação. Então quando você monta um espaço como esse você já tem que prever certa flexibilidade para implementar novas ações a exemplo de exibições temáticas a partir do acervo do MISPE. Uma coisa que eu quero fazer muito e gostaria de deixar pronto é uma exposição temporária com o acervo de Firmo Neto

Nós temos um diário com anotações do filme O Coelho Sai, realizado por ele em 1942, o primeiro filme sonoro do Norte/Nordeste cuja cópia se perdeu. Esse tipo de material não é um material pra estar aqui numa exposição permanente, é algo que a gente traz para mostrar o original em vez de uma reprodução e depois a gente recolhe para o acervo. Podemos trazer o acervo de câmeras fotográficas que ele tinha,  alguns filmes. 

Embora os filmes de Firmo Neto que temos sejam em sua maioria filmes de registros da vida cotidiana e eventos – casamentos, aniversários, etc, – eles podem ser úteis para diretores de arte em filmes de época. Outra ideia é fazer exibições no São Luiz dos filmes digitalizados  com programas voltados para escolas e universidades e realização de debates. 

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A videoinstalação Gesto Contínuo de Invenção de um Cinema Pernambucano destaca a importância dos editais para o audiovisual. (Foto: Alexandre Figueirôa)

Para você qual é a maior contribuição do CENA no contexto do cinema pernambucano atual?

Não é só você ter um Kleber Mendonça Filho, que foi para o Oscar, mas você ter essas outras visões de se fazer cinema lado a lado porque isso tudo, na verdade, é o que sedimenta e faz o cinema pernambucano ser o que ele é. Essa era a ideia, dar visibilidade à potência do acervo do Museu da Imagem do Som de Pernambuco. O CENA, este satélite do MISPE, dentro do cinema São Luiz, democratiza o acesso a esse acervo, abre possibilidades de novos filmes e de novas pesquisas sobre os filmes que já existem. Novos olhares para essa história que já foi contada tantas vezes.