“Jomard Muniz de Britto fomentava fomenta lições de inconformismo”, por Luci Alcântara

O filme "JMB, O Famigerado" é o meu atentado de bricolagem audiovisual. Uma peleja filmada, confortável e desconfortavelmente, por sua bisneta Lucética

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Jomard e Luci Alcântara nos bastidores de JMB, O Famigerado (Foto: Divulgação).

Por Luci Alcântara*

Conheci Jomard em 1980, no CAC–UFPE, assim que ingressei no curso de Artes Cênicas. Nossa convivência se estreitou para valer quando integrei o elenco do Teca, sob a direção geral do meu saudoso professor Antônio Cadengue — que, inclusive, me revelou como atriz comediante. Aproximei-me do universo intelectual de Jomard logo na minha primeira apresentação, quando ele me elogiou publicamente. A partir dali, passei a fazer parte de sua “família” teatral, ocupando a posição de sua “bisneta”: afinal, o “filho” era Cadengue e a “neta” era Patrícia Barreto, que havia chegado ao grupo antes de mim. Desde então, Jomard tornou-se uma presença central na minha trajetória: meu mestre cênico, meu ídolo literário e meu SUJEIToBJETO fílmico.

Durante as filmagens de JMB, O Famigerado, meu papel como realizadora (sujeito) por vezes ficava em segundo plano. Ora ele me puxava para dentro do quadro, transgredindo minhas regras e revoltando-se contra a condição de mero objeto de trabalho; ora encarnava Drew no meu cinema direto, enquanto ele próprio se transfigurava em Rouch com seu cinema-verdade — e vice-versa.

Na tentativa de representar JMB como um indivíduo único e genuinamente mítico, priorizei seu universo particular de citações e referências, registrando o talento argumentativo que se tornou sua marca registrada. Sua figura singular — de múltiplos olhos, ouvidos e de uma língua plural — conduziu não apenas a minha mão como realizadora, inserindo-me e interagindo com ele em cena, mas também guiou toda a equipe por seu ecossistema criativo. Como um reinventor de possibilidades e um verdadeiro arquivo vivo de projetos, JMB fomenta lições de inconformismo. Ele nos impulsionou a atravessar o tempo e o espaço das linguagens audiovisuais por meio de um discurso poético, subjetivo e de imenso impacto, tanto na forma quanto no conteúdo.

Na verdade, durante o processo de captura de JMB — no qual assunto e personagem coincidem —, a sugação mostrou-se necessária em diversas situações, tanto casuais quanto planejadas, para que o discurso documental construísse a narrativa desejada. Foram múltiplas as formas de filmar Jomard, e talvez nenhuma tenha sido totalmente fiel à sua dimensão de “personagem-pessoa”. Contudo, na insistência de realizar um documentário de retrato pessoal, busquei enfatizar seu estilo e expressividade. Atuei como mediadora entre o ator social que fala por si e o personagem criado naquele instante imagético, deixando em segundo plano o propósito puramente social. Trata-se de um atentado audiovisual ao estilo do entrevistado, sempre em busca de uma modernidade crítica e poética.

O filme JMB, O Famigerado é o meu atentado de bricolagem audiovisual. Uma peleja filmada, confortável e desconfortavelmente, por sua bisneta Lucética — a imperiosa cineasta vampira LA, como ele sempre me cognominou.

Luci Alcântara, com amor eterno.

* Luci Alcântara é cineasta pernambucana.