A Revista O Grito! publica uma série de relatos em homenagem ao poeta, cineasta e filósofo Jomard Muniz de Britto, que nos deixou no último dia 12/10. Jomard foi um dos mais inquietos pensadores pernambucanos e um irreverente agitador cultural. Sua influência se alargou por várias décadas, desde os anos 1960, e influenciou diferentes gerações de artistas.
Por Fabiana Moraes*
“Quando você lançar esse livro, eu estarei morto”. Jomard me disse isso há quase 10 anos, em janeiro de 2017. Três meses depois, ele estava, como de costume, ácido-irônico-feliz no lançamento da sua não-biografia, escrita por mim e Aristides Oliveira (foi na Fundaj de Casa Forte, exibimos O Palhaço Degolado).
Conversei durante muitas horas, diversas vezes com ele, e uma questão ficou bastante impressa em mim. Perguntei a Jomard se ele achava que o fato de ser muito bem humorado, de não levar nem ele nem ninguém a sério o tempo todo, interferiu na sua carreira. “Você não tenha dúvida”.
Extremamente culto, Jomard era também devoto de Nossa Senhora da Conceição e da graça popular. Amava Proust e amava os botecos; amava a filosofia e a epistemologia do baixo meretrício. Brasileiríssimo. Jomard foi e sempre será o intelectual que eu admiro, que não tira os pés do chão, que gargalha da própria contradição, que manda um foda-se quando fica puto.
Que se revia, que ia para as ruas distribuir seus Atentados Poéticos. Nos aproximamos dez anos antes de eu encher o saco do professor com perguntas que ele não queria responder – Jomard gostava de olhar pro futuro e não tinha esse apreço todo pelo passado (“Por que insistimos em viver há dez anos da Guanabara e há um século de Londres? Por fidelidade regionalista? Por defesa e amor às nossas tradições?”, diz o Manifesto Tropicalista que ele assinou com Aristides Guimarães e Celso Marconi em 1968).

Pois bem: em 2007, eu o procurei para escrever uma matéria sobre seus 70 anos. Foi maravilhoso: Jomard, com aquele vozeirão e os cabelos de galã, suas blusas coloridas, usava um relógio de plástico da Hello Kitty. Fiquei louca por ele.
Passeamos ali pela região do Teatro do Parque. Muita gente o parava, saudava, brincava. Jomard queria beber seu uísque predileto: o Teacher ‘s, ora vejam só. A matéria saiu, rendeu um bocado, tem uma foto maravilhosa dele (infelizmente não lembro quem fez e infelizmente cacei muito na internet e não achei. Deve ter sido publicada em 8 de abril de 2007, quem achar ganha a biografia dele como forma de agradecimento). O título da matéria: O intelectual e a Hello Kitty.
Dias depois, Jomard me manda de presente uma caixa cheia de bugigangas de plástico rosa, fitas de cabelo decoradas com botinhas sorridentes. Maravilhoso. Eu as guardo até hoje. Outra vez, comprei daqueles pirulitos gigantes feitos de açúcar caramelizado. Ali, na Mamede Simões, no centro lindo e cheio de baratas de Recife. Entreguei a Jomard e ele começou a brincar de espadachim, desafiou Moa [Mozart Santos] e depois Moa pegou aquela espada meio Cosme e Damião e “transpassou” Jomard, que fez uma pequena atuação, uma performance, ali.
O homo ludens, como ele um dia escreveu. O homem que não fez distinção entre o pensar e a gargalhada, porque a gargalhada pensa e salva. O homem que a ditadura militar aposentou antes de ele fazer 25 anos. O homem que ensinou, que debateu, que tropeçou. O homem que gostava muito, muito, da vida.
Saravá, professor. Saravá, criança. Saravá, devoto das belezas e defensor de, ao menos, um salário mínimo de cintilância para todos. Saravá, tropicalista. Saravá, Jomard.
* Fabiana Moraes é jornalista, escritora e professora da Universidade Federal de Pernambuco. É autora de A Pauta é Uma Arma de Combate.


