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Foto: Reprodução.

Jomard Muniz de Britto, a estrela demolidora, por Pedro Nunes Filho

Há em JMB uma força interpretativa que dessacraliza a institucionalidade e as posturas políticas moralistas

Por Pedro Nunes Filho*

  1. Primeiro contato com JMB

Meu primeiro contato presencial com o professor Jomard Muniz de Britto ocorreu no espaço da sala de aula. Eu atuava como monitor da disciplina Fundamentos Científicos da Comunicação e ele acabara de ser reintegrado à UFPB, depois de ter sido expurgado pela mesma instituição no AI-5, no contexto da ditadura civil-militar.

Foi nesse quadro que se efetivou nosso primeiro encontro: alunos atônitos diante daquela figura esguia, com uma performance diferencial naquele espaço sagrado da sala de aula. Já se percebia que ele rompia as delimitações do espaço acadêmico, convocando participações, leituras, menções a filmes e o falar de si de cada discente. Esse contato inicial, em forma de provocação, gerou envolvimentos acompanhados de um turbilhão de novas ideias e desconfortos. Eu, que seguia sobre os trilhos, me deparei com um trem irrequieto que extrapolou formalmente a disciplina em que eu atuava.

Houve um estranhamento — não só no sentido poético, mas aquele estranhamento que deixa dúvidas, lança incertezas com temas novos que rompiam aprendizados da Teoria da Comunicação, até então ministrada por docentes com uma visão de mundo mais alinhada à esquerda ortodoxa. Estava ali, na minha frente, alguém que se movia em diferentes direções, com quebras de abordagem e temáticas. Fiquei de antenas ligadas, com certo recuo e uma admiração nascente.

  1. O encantamento e o mobilizador

Vale salientar que esse encontro, no âmbito da monitoria e fora dela, se manifestou de forma regular em outros espaços geográficos, de forma livre, com aprendizados dinâmicos. Desse contato inicial em que o mestre rompia sua atuação tradicional, pouco a pouco foi se estabelecendo uma relação de encantamento face à sua metodologia e às rupturas quanto à sua atuação diferencial enquanto educador irreverente, de olhar crítico e performer. Há em JMB uma força interpretativa que dessacraliza a institucionalidade e as posturas políticas moralistas.

JMB já tinha uma bela história dentro da própria UFPB, aqui na Paraíba. Essa sua história, entremesclada com suas vivências em Pernambuco e sua relação visceral com o cinema, vai mobilizar e sensibilizar muitos alunos, artistas e docentes. Jomard sempre teve essa característica de ser mobilizador, de protagonizar o outro, ou seja, de dar visibilidade ao outro. Seus trabalhos resultaram em grandes mobilizações transversais com envolvimentos, afetos e criação com vários afluentes.

  1. Impactos e rearticulações com o retorno à Paraíba

O retorno de Jomard à Paraíba se viabilizou pela retomada da sala de aula, inicialmente com uma mobilização muito intensa da Associação dos Docentes da UFPB. Lembro dos vários documentos produzidos e distribuídos pela entidade em que se destacava sua história, sua vinculação com Paulo Freire, sua prisão, seu trabalho na UFPE e UFPB, sua atuação e seu gosto pelo cinema. Antes de sua chegada, a associação resgatou essa história e seu banimento. No ano de sua vinda, aconteceu a primeira greve pós-1968 na UFPB, contra os aumentos abusivos do Restaurante Universitário. Esse é o contexto de sua chegada, em meio a um processo de mobilização e de resistência.

Rapidamente, JMB se rearticulou com a imprensa local, jornalistas, escritores, poetas, retomou velhas e fez novas amizades. Fomos agraciados com esse professor irreverente, com amplo background, lastro de informações e um repertório extenso de filmes Super-8 em sua bagagem. Pouco a pouco tivemos contato com sua obra, porque Jomard, com toda sua perspicácia, era reservado com sua produção anterior. Fazia todo um estardalhaço em torno de suas obras e produções recentes, mobilizando pessoas da terra, alunos, docentes, artistas, jornalistas e gente da produção. Além de protagonizar o outro, ele imprimiu maior visibilidade ao recém-criado Curso de Comunicação Social, com habilitações em Jornalismo e Relações Públicas.

Há um outro traço de seu trabalho que foi articular-se livremente com setores dos movimentos sociais, grupos organizados, lembrando sua perspectiva mais anárquica e libertária, com engajamento despojado em que valorizava mais as questões existenciais, a vida nas periferias, o afeto entre homens, entre mulheres, ou seja, o afeto entre iguais. Todas essas questões estavam à margem no período militar. JMB começa a trabalhar tudo isso de forma escancarada, mas com reflexão, sutilezas, trocadilhos poéticos, jogos de palavras e questionamento da moralidade.

  1. A estrela demolidora e a docência-performance

JMB se destaca pelo exercício da docência aliada a essa característica performática de realizar intervenções e criações audiovisuais extremamente impactantes para a época. Pensador arguto, seus posicionamentos em debates, seminários, congressos e palestras sempre violentaram posturas e discursos convencionais. Seu propósito com essas ações pensamentais era quase sempre impactar, chacoalhar estratégias mais conservadoras, resultando em permanentes embates.

Nessa linha de frente, JMB era uma espécie de estrela demolidora. Com seu poder de argumentação e lastro diversificado de conhecimentos, produzia insatisfações em segmentos mais à esquerda do movimento estudantil, setores do movimento docente e causava uma pane dentro de uma esquerda mais ortodoxa. Com seus voos livres, tinha uma perspectiva mais libertária, anárquica, chamando a atenção de segmentos mais radicais ou mesmo de pessoas mais contidas, dispostas a soltar suas amarras. Esse educador-pensador formou e influenciou gerações marcadas por suas ideias turbulentas.

Movimentava-se a partir de um novo modo de repensar a realidade, seu lócus de trabalho, a universidade, e de se relacionar com seus educandos, buscando novas formas de interagir com a sociedade, com a intelectualidade e com a cena paraibana. Metaforicamente, ele recomeça seu trabalho participativo na docência universitária cutucando o cão com a vara curta. Essa postura desencadeou insatisfações e gerou grandes embates na esfera acadêmica e na imprensa, a exemplo da discussão travada em torno do Cinema Direto, em que ele cria e defende o Núcleo de Cinema Indireto, que seguia uma linha mais experimental com temas conflitantes focados na questão existencial, do gênero e da sexualidade.

  1. Convivência, Cinema Direto x Indireto e os filmes na Paraíba

Tive o privilégio de conviver e ser influenciado por JMB nessa sua segunda permanência na Paraíba, porque eu coordenava a Oficina de Comunicação, estava à frente da Diretoria de Imprensa do DCE e já dispunha de dois filmes Super-8 na bagagem — Gadanho e Registro — e um terceiro, Contrapontos, em andamento. Jomard passa a ser uma pessoa crucial nessa minha fase de formação. Me transformei com Jomard, esse guru-vampiro das noitadas extra-classes.

Nessas vivências de encantamento, observei que Jomard sempre protagoniza o outro, seja nos seus escritos, falas, performances, artigos ou trabalho criativo. Por essa aproximação, me transformei em um grande aliado de suas ideias e irreverências. Ao mesmo tempo, ele foi um grande influenciador do meu trabalho. Nesse diálogo de mão dupla, pude participar e colaborar com sua obra aqui na Paraíba.

Jomard, nesse contexto de opressão da ditadura militar, nos colocava em contato com novos autores, novos modos de ver, interpretar e iluminar filmes, trânsitos entre suportes criativos. Tudo isso fez dele um gerador de grandes polêmicas e conflitos.

Retomo a implementação do Atelier de Cinema Direto na Paraíba, no Núcleo de Documentação Cinematográfica da UFPB, com a vinda de Jean Rouch, que ocasionou uma espécie de ruptura, porque tínhamos ali uma perspectiva de cinema etnográfico mais tradicional e Jomard, que também operava com intervenções na realidade misturando ficção com documentação, apresentava uma perspectiva diferente de quebra da linearidade, desconstrução narrativa pela montagem. Com essa perspectiva filosófica diferente, Jomard criou na Paraíba o Cinema Indireto, com todo um lastro intelectual valorizando as questões existenciais e temáticas voltadas para a sexualidade.

Eu acompanhei Jomard nessa polêmica não só lendo textos, mas dirigindo o filme Closes, produzindo um manifesto que passou por sua correção e foi publicado na imprensa de Pernambuco, Paraíba e em periódicos. Polêmico e provocador, JMB também apontou em alguns filmes do acervo do Cinema Direto elementos do Cinema Indireto. Nos vídeos Fragmentos da Narrativa Cinematográfica da Paraíba de Pedro Nunes e Renovatório de Chico Salles, Jomard elucida de modo mais distanciado essa questão.

Além de sua experiência com crítica cinematográfica e o exercício da docência, Jomard dirigiu três filmes Super-8 basilares na Paraíba: Cidade dos Homens, Esperando João — que é uma ironia embutida ao Cinema Direto — e Paraíba Masculina Feminina Neutra, em que pude participar como um dos três câmeras da obra e que estabelece um diálogo com o filme Closes. As exibições de cada um desses filmes se traduziram em acontecimentos culturais de grande concentração pelo fator mobilização, abordagem temática e cobertura da imprensa em tempos de ditadura militar.

  1. A partida e o legado

A partida de Jomard Muniz de Britto representa uma perda irreparável para nossa cultura brasileira e, em particular, para Pernambuco e para a Paraíba, por onde efetuou trânsitos intensos e viscerais. Deixa um legado histórico que merece ser cuidado, examinado e difundido para as presentes e futuras gerações.

Mesmo vivendo em diferentes localidades — Maceió, São Paulo, Barcelona e João Pessoa — pude estabelecer contatos intensos e frequentes com Jomard Muniz de Britto que marcaram a minha vida. Deixa uma grande história acrescida de outras histórias e memórias compartilhadas com amigos, cineastas, jornalistas, profissionais ex-alunos, admiradores e pesquisadores.

A sua memória, as cartas, os prefácios, as fotografias, os seus filmes e livros devem ser resgatados, preservados, trabalhados, examinados, ressignificados e reverberados.

Em vida, Jomard Muniz de Britto foi um homem sábio, arguto, que soube cultivar e cultuar amizades intensas.

Parte 2 Recortes | frases

  1. “Eu, que seguia sobre os trilhos, me deparei com um trem irrequieto que extrapolava formalmente a disciplina.”
  2. “Há em JMB uma força interpretativa que dessacraliza a institucionalidade e as posturas políticas moralistas.”
  3. “Nessa linha de frente, JMB era uma espécie de estrela demolidora.”
  4. “Ele recomeça seu trabalho participativo na docência universitária na UFPB cutucando o cão com a vara curta.”
  5. “Jomard sempre protagonizou o outro, seja nos seus escritos, falas, performances, artigos ou trabalho criativo.”
  6. “A sua memória, as cartas, os prefácios, as fotografias, os seus filmes e livros devem ser resgatados, preservados, trabalhados, examinados, ressignificados e reverberados.”

Salve, salve, Jomard Muniz de Britto.

* Pedro Nunes Filho é cineasta e professor emérito da UFPB