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Foto: Jan Ribeiro/Fundarpe.

Jomard Muniz de Britto e a curiosidade inesgotável, por Angela Prysthon

Me espantava sua recusa a qualquer forma de reconhecimento institucional, como se precisasse preservar, a todo custo, uma liberdade que não se deixava capturar por títulos

Por Angela Prysthon*

Conheci Jomard na segunda metade dos anos 1980, quando comecei a estudar Jornalismo na UFPE. Fui apresentada a ele por colegas de curso, na livraria Síntese, e passei a encontrá-lo pela cidade, no cinema, nas livrarias e nos bares do Pátio de São Pedro. Desde então, sempre me fascinaram seu carisma, sua inteligência e sua irreverência.

Mas só me tornaria efetivamente sua amiga no início dos anos 2000, quando ele começou a frequentar minhas aulas no PPGCOM (programa de pós-graduação em comunicação) da UFPE. Naquela época, costumava me chamar de “minha professora”, o que me parecia um tanto absurdo, já que era ele quem me ensinava tanto.

Sua presença nos primeiros anos do PPGCOM foi uma força extraordinária, agregadora, capaz de mobilizar pessoas, estimular debates e dar ânimo à escrita e à publicação. Jomard tinha uma curiosidade teórica inesgotável: interessava-se pelas novidades acadêmicas, acolhia-as com entusiasmo e gostava de confrontá-las com seu vastíssimo repertório filosófico, sempre de maneira muito própria, inquieta e provocadora.

Outra coisa que me espantava era sua recusa a qualquer forma de reconhecimento institucional, como se precisasse preservar, a todo custo, uma liberdade que não se deixava capturar por títulos, hierarquias ou consagrações.

Nos últimos anos, já não nos víamos, e ele já não me reconhecia. De algum modo, eu já convivia com a saudade de Jomard, das nossas saídas regadas a whisky, de seus presentinhos chineses e de seus “atentados poéticos”, que vez por outra encontro nas minhas gavetas.

Tentava lidar com essa ausência mostrando seus filmes nas aulas de cinema expandido, falando sobre ele para uma geração que não chegou a cruzar com ele nas ruas do Recife, que não viu suas participações em shows de rock, que não estava nos lançamentos de livros e vernissages nos quais participava.

A saudade, portanto, começou antes da sua partida, mas ganha uma dimensão mais amarga, mais triste, principalmente por esse momento difícil que estamos vivendo enquanto país. Temos, então, uma tarefa, que é a de preservar e espalhar o seu legado como artista, escritor, cineasta e como professor, que foi a sua mais generosa, especial e bela lição para mim.

* Angela Prysthon é professora da Universidade Federal de Pernambuco. Autora de
Cosmopolitismos Periféricos: Ensaios Sobre Modernidade, Pós-modernidade e Estudos Culturais na América Latina