Apesar de uma edição mais enxuta, o Janela de Cinema se mostra, mais uma vez, o grande acontecimento cinematográfico do Recife. Na abertura da mostra, ontem, desde a primeira sessão às 17 horas, um grande público compareceu ao cinema São Luiz para prestigiar o evento, com um aspecto interessante a ser assinalado: nos cumprimentos e reencontros entre os espectadores externar o alívio pelo resultado das eleições presidenciais era tão obrigatório quanto trocar abraços e beijinhos. E até um “olê, olê, olê, olá Lulá, Lulá” rolou antes da exibição do filme Vivo 76, de Lírio Ferreira.
Esta é a décima sétima edição da mostra organizada pela Cinemascópio, a produtora de Kleber Mendonca Filho e Emilie Lesclaux. Segundo Mendonça uma série de fatores fez com que o Janela 2026 reduzisse o número de dias – o festival começou ontem e vai até o domingo 01 de novembro – e de salas – a programação está concentrada apenas no Cinema São Luiz. “Foi um ano muito complexo pra gente, estávamos saindo de O Agente Secreto, teve as eleições e ainda uma dificuldade de conseguir um dinheiro maior pra fazer o festival, então decidimos juntar o que tínhamos e fazer uma versão compacta, mas muito forte”, disse.

O Janela, que tem a curadoria do crítico e pesquisador Pedro Azevedo e do próprio Mendonça, abriu seu primeiro dia com uma sessão apresentando o curta Sandra Roque da cineasta pernambucana Mayara Santana e o média francês Tutti Frutti, de Céline Sciamma. O filme de Sciamma, diretora do conhecido Retrato de uma Jovem em Chamas (2019), é um ensaio visual que reúne fragmentos de arquivos de imagens pessoais feitos por ela própria com cenas do seu cotidiano, registros de manifestações políticas e de personagens lésbicas.
A intenção da cineasta é provocar uma reflexão sobre a circulação de imagens e o futuro da criação cinematográfica. O trabalho de Sciamma é poético e envolvente, mas a exibição ficou um pouco comprometida para quem não domina a língua inglesa, por apenas os trechos falados em francês estarem legendados.
Sandra Roque, de Mayara Santana, é uma grata surpresa pela forma alegre e despojada de contar uma história de amor entre duas mulheres. Ao fazer um “filme sapatão”, como a própria realizadora nomeia seu trabalho, Santana traz um olhar pessoal de como ela vê e sente o Recife, uma cidade, segundo ela, “confusa, mas pop e divertida”. O curta vai participar no Mix Brasil e já tem exibições marcadas em Madri e na Eslovênia.

A segunda sessão da noite teve como estrela o compositor e cantor Alceu Valença. Dois filmes dedicados ao artista dominaram a tela do São Luiz. O primeiro foi o curta Amanhecendo, de Jomard Muniz de Britto e Rucker Vieira, dois nomes incontornáveis do audiovisual pernambucano. A exibição foi também uma homenagem a Jomard falecido recentemente. Rodado com câmera Super 8, em 1981, o filme mostra Alceu perambulando pelas ruas do Recife Antigo e do bairro de Casa Amarela ao som de suas canções. A cópia exibida foi restaurada a partir dos originais em Super 8 e faz parte do projeto de resgate das obras do cineasta feita pela Cinelimite.
O segundo filme exibido tendo como mote Alceu Valença foi o documentário Vivo 76, de Lírio Ferreira. É inegável a habilidade de Ferreira na construção de obras sobre artistas da música popular brasileira como já vimos em filmes como O Homem que Engarrafava Nuvens, de 2009, sobre o compositor e pai do baião Humberto Teixeira.

Em Vivo 76, Ferreira embrenha-se nas memórias de Alceu desde sua infância em São Bento do Una até o lançamento, há 50 anos, do disco Vivo, um marco na historiografia da MPB. Ao estabelecer como eixo narrativo a construção do personagem Alceu, que surge aos nossos olhos como um brincante da cultura popular, o documentário ganha uma fluência musical e poética encantadora. Vivo 76 é muito mais do que o retrato de um artista, é o resgate de uma época e um mergulho nas raízes profundas da música nordestina. Não foi à toa os calorosos aplausos ao final da sessão.
Encerrando a noite tivemos a exibição do curta Maracatu, Maracatus (1995), de Marcelo Gomes, em uma nova restauração 4K, e Era uma Vez no Harlem, de William Greaves e David Greaves, que estreou este ano no Festival de Sundance. É um filme feito a partir de material de arquivo que mostra um aspecto importante do movimento negro nos Estados Unidos. Nesta quinta, os destaques do Janela são os longas brasileiros Coração de Lona, de Tuca Siqueira e Yellow Cake, de Thiago Melo.


