Reinventar a vida, sonhar novos caminhos. Sob a ótica de uma criança sensível e tomada pelos impulsos de liberdade, Feito Pipa (2026) tem todos os elementos para encantar as plateias brasileiras. Dirigido por Allan Deberton, nome por trás de obras como Pacarrete (2019) e O Melhor Amigo (2024), o longa-metragem que tenta representar o país no Oscar 2027 chega oficialmente aos cinemas do país nesta quinta-feira (6), após bem-sucedidas passagens por festivais nacionais e internacionais.
Em poucos minutos de projeção, o público constata a joia rara que é Yuri Gomes, jovem ator de 12 anos que interpreta Gugu, carismático protagonista do filme. Afeito à dança, figurinos coloridos e maquiagem, a criança vive com a avó Dilma (Teca Pereira), professora aposentada que o cria de forma livre e afetuosa. Entre as partidas de futebol no clube local e idas ao colégio, Gugu é alvo de julgamentos homofóbicos por parte dos colegas e do próprio pai, Batista (Lázaro Ramos). Quando a avó começa a ser acometida por episódios de esquecimento, a rotina da família é revirada e relações conflituosas são postas à prova na vida dos personagens.
O diretor é hábil ao representar imageticamente a afetuosidade entre neto e avó, em passagens nas quais cores e elementos cênicos (como roupas no varal) são manipulados de modo a ressaltar aquele convívio. O azul-celeste é predominante: está nas roupas, nas paredes da casa de Dilma, em objetos específicos. Estratégia admirável para salientar a ideia de céu enquanto sinônimo de pureza, liberdade e sonhos. Com esmero, Allan Deberton compõe planos de notável beleza, principalmente os que se ancoram à paisagem da cidade de interior com pores do sol esplêndidos.
Yuri Gomes é um achado: desenvolto e de uma naturalidade singular para atuar diante das câmeras, o talento do garoto salta aos olhos e é incontestável que o filme pertence a ele. Para dar profundidade dramática à história, a experiência da grande intérprete Teca Pereira cai como uma luva para o filme de Allan Deberton: a capacidade da atriz em transmitir emoções distintas, muitas vezes apenas com o olhar, é assombrosa. Do humor à dor mais recôndita, Teca demonstra domínio absoluto. Todos do elenco são eficientes e colaboram para a coesão de Feito Pipa, mas são os dois aqui citados que carregam o filme nas costas.
Delicado e, por vezes, poético para tratar de temas duros como luto e preconceito de gênero, o roteiro assinado por André Araújo carece de sutilezas ao empenhar-se demais em passar a mensagem. Clichês heteronormativos relacionados ao pai que deseja ver o filho se tornar jogador de futebol, cenas formulaicas de bullying no ambiente escolar; há um esforço excessivo por parte dos realizadores para tornar a narrativa palatável, o que prejudica o potencial onírico e quase místico da história. Para um filme que se propõe ser feito pipa, os voos da narrativa são tímidos e rentes ao solo.
Mesmo com inconsistências, Feito Pipa se sobressai pelo que tem de melhor: a ternura. Ao apostar na beleza das interações humanas verdadeiras, o filme fornece um retrato extremamente humanista e esperançoso acerca de questões sociorraciais e de gênero. Após filmes de tamanho peso político como Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025) figurarem, nos últimos anos, como representantes do Brasil na principal premiação da indústria cinematográfica mundial, o país agora aposta suas fichas numa narrativa marcada pela simplicidade do realismo – que, ao depender dos olhos de quem vê, pode ser mágico.
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