jomard 2
Foto: Jan Ribeiro/Secult/Fundarpe.

“Jean-Luc Jomard”, por Paulo Cunha

Jomard Muniz de Britto foi o intelectual mais radicalmente fluido, criativo e aberto que conheci

Por Paulo Cunha*

O nosso dândi usava camisas magníficas: de pano, largas, coloridas, tremulando ao vento – como Maiakovski usava sua camisa amarela: uma bandeira, para alegrar as pessoas, enchendo de tons fortes a cidade cada vez mais cinzenta. Manifesto ambulante, Jomard Muniz de Britto tomava suas doses diárias de realidade singrando como um barco bêbado pelas ruas do centro do Recife. Saía da rua Fernandes Vieira e caminhava até o Shopping Boa Vista, onde era cliente quase diário da loja de fotocópias, onde mandava reproduzir seus atentados poéticos, pequenos poemas de agitação que em seguida distribuía por todos os lugares: espectadores de cinema, visitantes de exposições, garçons, vigilantes de prédio, conhecidos com quem cruzava ao acaso.

Era também naquele shopping popular que Jomard comprava as “lembrancinhas” xing-ling (bolsinhas, pequenos espelhos, escovas de pentear, carteiras de plástico), preferivelmente as que vinham estampadas com a figurinha da personagem Hello Kitty, a quem presenteava a um grupo bem mais seleto, do seu circulo intimo — certa vez, para minha surpresa, descobri que muitas vezes Jomard tomava um taxi e ia visitar, sem que eu soubesse, minha mãe, Marlene Nicéas, dona-de-casa que morava no bairro de Parnamirim, com quem conversava um pouco e deixava um dos seus presentinhos.

Jomard Muniz de Britto foi o intelectual mais radicalmente fluido, criativo e aberto que conheci. Talvez sua mais impactante qualidade tenha sido esta: não havia lugar que ele evitasse, mesmo os “infernolentos”, ou pessoa com a qual não pudesse estabelecer um diálogo intenso, ao mesmo tempo leve e profundo. Como me disseram certa vez sobre a personalidade de Glauber Rocha (que nunca atendia o telefone com um alô, como todos os outros mortais, mas já com uma frase de uma conversa em andamento), a mente de Jomard estava em permanente ebulição. Retomava uma palavra dita, uma ideia circulante e devolvia com uma tirada desconcertante, desequilibrando e tornando luminoso o ambiente. Vejam o que Jomard escreveu em 1987:

“Importa fenomenologicamente, dialeticamente, puramente, a crença na cultura popular. Importa a mais rude, porém sincera, determinação, além de tudo inquestionável: se o plano cruzado não deu certo, a novíssima cruzada pela cultura popular tem de dar “.

Tive a imensa sorte de ter com Jomard Muniz de Brito uma relação de convívio pessoal e intelectual iniciada ainda na década de 1970 e jamais arranhada, já que foi sempre impregnada de amizade, atingindo até os próprios centros do meu afeto: minha companheira, minha mãe, meus filhos. Sempre estive com ele para o que deu e veio, nas horas perigosas como nas horas amenas. Aos poucos, bem lentamente (porque Jomard nunca foi de ficar remoendo fatos do seus passado), fui descobrindo o personagem: graduado em filosofia, integrante da equipe de coordenação de Paulo Freire, na década de 1960, durante o lançamento do programa de alfabetização de adultos, foi assistente de uma senhora filósofa heideggeriana que, dias depois de participar de uma marcha “com Deus, pela família e pela propriedade”, e depois do golpe militar de 1964, publicou um anúncio nos jornais dizendo que não o conhecia. Por essas e outras foi preso e, na cela de sua cadeia, tornou-se companheiro provisório de Gregório Bezerra, a quem tentou ensinar rudimentos de francês. Após o AI-5 foi aposentado compulsoriamente da UFPE e da UFPB – na UFPB por ordem direta do comandante do Exército Brasileiro. Respondeu a um inquérito administrativo-policial, coordenado por um professor com vocação de delegado, por ter feito uma palestra que tinha como tema o Amor. Jomard escreveu, no dia 15 de março de 1973, em autodefesa no processo da Universidade Federal da Paraíba, acusado de manipular mentes juvenis:

“Minha personalidade nunca foi estruturada por convicções fechadas ou rígidas. Minha formação filosófica se fundamentou em bases de uma fenomenologia existencial, de abertura vivencial, de experiências anti­dogmáticas por excelência. Assim, dentro de uma renovada metodologia – discussão em grupo, leitura dirigida, debate de textos – sempre procurei mostrar aos meus alunos que o dogmatismo é a atitude mais desaconselhável em termos de filosofia da cultura. E, ao contrário disso, propor as interrogações verdadeiramente socráticas, do conhece-te a ti mesmo ao eterno saber que nada se sabe, numa busca incessante e penosa de uma verdade em devenir, em mutação, aberta, histórica e existencial “.

Eu já havia assistido alguns filmes de Glauber Rocha, lido extasiado sua Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, quando descobri que o baiano escrevera o prefácio ao livro de Jomard Do Modernismo à Bossa Nova, de 1966, escrevendo:

O que me fez amigo de JMB foi nossa comum paixão pelo cinema, isso já faz dez anos (em 1956, portanto), na decente Recife. Depois, nosso desencontro de temperamentos criou compensações: JMB veio escrever crítica de poesia numa revista literária que eu dirigia em Salvador, depois veio mesmo para a Bahia, onde agiu com brilhantismo e polêmica nas rodas jovens das artes e letras locais. E assim foi, se revelando palmo a palmo: o crítico de cinema era professor de filosofia, o teórico de poesia era entendido de teatro, o esteta rigoroso era jornalista, o jornalista era professor e o professor sambista, outra vez no teatro! Fascinante timidez evoluindo por meandros táticos, aqui e ali exercendo sua função precisa, conseqüente. Outra coisa que me fascina em JMB é a sua desaristocratização […] Sua erudição é diluída no seu grande interesse pela vida, sobretudo pela vida que o cerca, a que vive nos inesperados caminhos de hoje”.

Compreendi, passo a passo, que o traço unificador mais genérico da produção de Jomard é a ruptura com as esferas tradicionais da cultura. A defasa do sentido do novo como produtor do novo sentido, o elogio da experimentação, das vanguardas. Trata-se, muitas vezes, de anti-saudosismo militante em que o novo se impõe como desafio, como fascínio:

“Sempre me senti fascinado pelo novo. A minha biografia está muito ligada ao novo desde a bossa nova (…). Estivemos ligados ao cinema novo, devido a minha amizade com Glauber Rocha (…). Dirigimos shows com músicas de protesto, Em Tempo de Bossa, Pregão (…), trabalhamos junto aos grupos Raiz, Construção (…). Depois do Cinema Novo surge o Tropicalismo, que foi uma movimentação ampla que abalou muito a cidade. E foi a partir do Tropicalismo, que está ligado ao movimento da Arte-Processo, que surge o trinômio Recife-João Pessoa-Natal “.

E, como ele colocou em Escrevivendo:

“O que seria de nós, mestres amestrados ou dionisíacos, dissipados ou bem regulados, operários da cultura ou boêmios da revolução, civiltares de todas as disciplinas ou militantes da política do cotidiano, o que seria de nós sem o versátil exercício da sofística, da polêmica, dos filosofemas? O que seria de nós sem a paixão, mais do que didática, pe::lo veneno do novo? O que aconteceria de nós sem os fulgores e fissuras da academia? Assim, por que não trocar a Universidade pela Univercidade?”

Achei curioso em ver gestores da Fundação Joaquim Nabuco no velório de Jomard, recordando como ele foi, sempre com toda razão, um crítico ferrenho de seus ilustres tradicionalistas: Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo – para citar apenas um pernambucano, um paraibano e um norte-rio­grandense. Ricjocheteava na minha cabeça (já que “a felicidade é uma arma quente”) o texto do segundo manifesto tropicalista, chamado também de Inventário do nosso feudalismo cultural, e que foi assinado por Jomard, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Celso Marconi, Moacyr Cirne e outros:

“Por toda iniciativa de cultura não oficial, descomprometida com a política cultural dominante. Pelo poder jovem (compreendido não apenas como um fenômeno de luta entre gerações) representado pelo movimento radical­estudantil e pelos intelectuais independentes. Por qualquer movimento de vanguarda cultural (pois não queremos impor unicamente a nossa posição) que se caracterize pelo rompimento de todos os padrões: morais, sociais, literários, sexuais, etc. e tal.

E sorrio, mesmo no meio da tristeza pela paridade de Jomard, ao reler esses versos da Terceira Aquarela do Brasil, de 1983:

“Coço as virilhas da poesia em pânico:

  • Vem, ó menino da rua, menino desejado, menino senzalado!
    Fui eu quem inventou a morenidade de tuas coxas púberes
    Durmo e sonho com
    a eternidade
    de meu
    y”.

Vocês sabem a quem Jomard Muniz de Britto se referia…

Paulo Cunha é professor titular da Universidade Federal de Pernambuco e um dos idealizadores do Cinema da UFPE