O termo “livro-experimento” usado para descrever Somos Sol Vivo é um excelente ponto de partida para compreender esta obra, que ganha edição pela Harper Collins. Escrito pela pesquisadora e doutora em Literaturas Africanas Aza Njeri, a obra surge como uma fresta radical de insubmissão intelectual em relação ao pensamento comumente aceito no mercado editorial e nos estudos acadêmicos, sempre baseado no olhar branco e ocidental. O experimento aqui foi conseguir navegar por diferentes gêneros a partir do ensaio para se portar como um manifesto coletivo que discute as crises éticas, culturais e políticas da modernidade a partir das perspectivas afrodiaspóricas.
Somos Sol Vivo também utiliza experiências pessoais da autora para costurar os diferentes termos trabalhados no livro. Njeri se ancora em conceitos de matriz centroafricana, como o Ubuntu, a filosofia Bacongo, estruturando cada um dos seus capítulos a partir de um adinkra, os símbolos visuais do povo Akan que carregam valores ancestrais e provérbios. “Aprendi com as filosofias de terreiro e africanas que as experiências são motes para as teorias e não o contrário, por isso este é um livro que passa pelas minhas experiências de Viver”, explicou a autora em entrevista à Revista O Grito!.
É dessa ideia de coletividade que brota a metáfora central que batiza a obra e define sua estrutura: a ideia de “Sol Vivo” tem a ver com a responsabilidade comunitária de nutrir o brilho e a força vital de cada indivíduo. A trajetória da autora, que ingressou na graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aos 17 anos com um bebê de três meses no colo, serve de espelho para essa urgência da rede de apoio comunitária que ela teoriza. Foi seu próprio quilombo familiar que garantiu que sua solaridade não fosse apagada.
A partir de uma perspectiva afrocentrada – em oposição ao individualismo capitalista e ocidental – a autora convoca leitores a um movimento de mudança. O livro adota uma postura radical, de embate, expressa inclusive na escolha de seus termos conceituais e na apropriação que faz do léxico. Ao grafar palavras como “amerikkka” e “brankkkitude” (em minúsculo e com a referência ao Ku Klux Klan), Njeri demarca graficamente a violência sistêmica presente na linguagem imposta pelos colonizadores europeus. A autora também utiliza o conceito de Maafa, a desgraça coletiva e a desumanização da população negra e propõe o ato de “sulear” como uma resposta a esse modelo “civilizatório” ocidental e opressor.
Somos Sol Vivo é radical também pela reconexão com a sensibilidade e os modos de pensar africanos, com a recusa ao cinismo de um suposto progresso, mas também na busca por uma existência mais justa e humana. “As filosofias africanas são esteio civilizatório para as afrodiásporas ressignificadas e recontextualizadas. Quando nossos ancestrais chegaram para a escravização portavam o corpo, a palavra e essas filosofias”, diz.
Para além do diagnóstico da ferida colonial, o livro propõe um embate com muita reflexão ao capitalismo ocidental. É uma leitura de muita imersão, sobretudo pelas estratégias de aproximação que Njeri faz uso, como as referências à arte e cultura pop.
Partindo do pensamento do filósofo Nêgo Bispo, a autora convoca a população branca a implodir seus “pactos narcísicos de branquitude”, abandonando a ilusão de uma centralidade universal. “Se não podemos derrubar o mundo ocidental fisicamente, que ele morra em nós, em nosso dia a dia, em nossas práticas de bem estar e bem viver”, disse.
Leia a nossa entrevista completa com Aza Njeri, abaixo:
Em “Somos Sol Vivo”, o que mais me chamou atenção é como você costurou os conceitos de matriz centro-africana (“Ubuntu”, “força vital”) com ideias, perspectivas e experiências presentes em nossa sociedade brasileira, na busca de uma reconexão. Em que ponto esse tipo de reflexão se torna uma “desobediência” para usar um termo presente no livro ou até mesmo algo “radical”, que é um termo presente no subtítulo da obra?
As filosofias africanas são esteio civilizatório para as afrodiásporas ressignificadas e recontextualizadas. Quando nossos ancestrais chegaram para a escravização portavam o corpo, a palavra e essas filosofias. Assim suas crenças e modos de ser e estar são heranças inerentes às formas negras de viver nas amérikkkas. A radicalidade está justamente no reconhecimento inegociável dessas heranças, mas sobretudo, na desobediência de negar o modelo civilizatório ocidental em prol de outros modos de Viver.

Você define a Maafa ocidental como uma “desgraça coletiva negra”, uma “desumanização radical”, que atinge diferentes esferas da vida. Quais as principais estratégias “anti-Maafa” propostas no livro para assegurar a integridade, qualidade de vida, segurança e permanência das populações afrodiaspóricas no tempo presente? A senhora acha que o termo Maafa deveria ser melhor difundido e compreendido no Brasil?
O conceito de Maafa é cunhado pela intelectual afro-estadunidense Marimba Ani e eu venho difundindo e desdobrando esse conceito no Brasil através das minhas pesquisas há alguns anos. Tanto a Maafa da professora Ani, quanto o Estado da Maafa, conceituado por mim como a práxis do fenômeno de desumanização, funcionam como chaves nomeadoras que nos ajudam a entender o que acontece com a coletividade negra ao longo dos séculos.
Quando nomeamos nossos problemas, damos mais um passo em direção a sua resolução. Quanto às estratégias anti-maafa, venho ao longo dos anos refletindo sobre isso juntamente com meus orientandos e laboratório de pesquisa (Lepecad PUC-Rio). Acredito que a Arte com seus poderes político, poético e pedagógico nos ajudam nessa caminhada. Assim, essas estratégias passam pela literatura, teatro, audiovisual, mas principalmente pela educação pluriversal, pelo aquilombamento, pelas experiências coletivas das religiosidades de matriz africana e pela lucidez de que as nossas humanidades são inegociáveis. Quando escrevi esse livro, foi com a intenção de que os leitores, ao terminarem, também tivessem a mesma lucidez.
O livro traz críticas ao modelo civilizatório ocidental e ao capitalismo neoliberal. Mas também diferentes propostas de embate a partir de termos como ‘sulear’ e uma pedagogia conectada com valores afrocentrados. De que maneira essas ações podem se converter em ações políticas no Brasil hoje?
A prática concreta dessa luta passa pela educação. Formação de mentes lúcidas de suas humanidades. O estabelecimento da noção de que somos sóis vivos. Eu acredito profundamente na educação e tenho certeza de que os múltiplos processos artísticos são nossos aliados nesta luta. Mas não podemos ser ingênuos: se não podemos derrubar o mundo ocidental fisicamente, que ele morra em nós, em nosso dia a dia, em nossas práticas de bem estar e bem viver. Não é possível acreditar que o modelo capitalista possibilitará um bem viver coletivo nem hoje e nem no futuro. Não é possível acreditar que a natureza sobreviverá a esse sistema mais tempo. E não é possível que a gente ainda aplauda a corrida espacial e a colonização intergalática dos senhores do ocidente contemporâneos.
“Se não podemos derrubar o mundo ocidental fisicamente, que ele morra em nós, em nosso dia a dia, em nossas práticas de bem estar e bem viver. Não é possível acreditar que o modelo capitalista possibilitará um bem viver coletivo nem hoje e nem no futuro”
No primeiro capítulo, a análise da pintura A redenção de Cam (1895) é interconectada com reconstituições de sua memória familiar. Como se deu a ideia de trazer essa memória familiar como uma forma de se contrapor a esse histórico eugenista no Brasil?
Há muito tempo eu vinha refletindo sobre a formação racial da minha família principalmente por meus olhos serem verdes e minha pele ser mais clara em relação à maioria dos membros dela. Cresci sendo chamada de sarará, o que mais tarde se chocou com o aprendizado das nomenclaturas raciais de subjugação e passei a entender essa nomeação também dentro do dispositivo de racialidade que nos fala Sueli Carneiro. E ser uma pesquisadora de estudos que passam pelas relações étnico-raciais exigiu de mim um olhar para dentro que me levou a análise crítica desse quadro e do projeto eugenista brasileiro.
Outro ponto importante que aprendi com as filosofias de terreiro e africanas é que as experiências são mote para as teorias e não o contrário, por isso este é um livro que passa pelas minhas experiências de Viver. Há ainda, e principalmente, o fato que quando fiquei grávida aos 17 anos, a minha família, apesar de muito preocupada com a situação, não apagou o sol da minha humanidade, ao contrário, eles acionaram nossas heranças inconscientes que consideram o nascimento de uma criança o raio de um Sol na comunidade e me acolheram junto com meu filho. Então também é uma forma de homenagear o meu quilombo que sempre acreditou em mim, na minha solaridade e fizeram de tudo para que eu pudesse brilhar em máxima potência.
“De alguma forma, a brankkkitude sofre de um problema de autoimagem que a aliena, fazendo enxergar, tal qual Narciso, a sua centralidade como universal. O mundo é grande demais para ser monocromático“
Sua obra recorre ao pensamento do filósofo Nêgo Bispo para diferenciar ações decoloniais das contracoloniais, apontando que cabe às pessoas brancas a responsabilidade de desconstruir as heranças das quais são herdeiras. Diante disso, como a população branca no Brasil pode, na prática, buscar uma ética que quebre, efetivamente os pactos narcísicos de branquitude?
Mais uma vez eu acredito na educação e na arte como agentes suleadores, transformadores e de/contracoloniais. A brankkkitude precisa se despir do ímpeto do senhor/senhora do ocidente, principalmente a brasileira que nunca sentará no trono ocidental, mesmo que se esforce em ser uma cópia do ocidente. Participar deste pacto, apesar de se imaginar vantajoso, não é saudável para suas humanidades. Pratica-se o individualismo exacerbado e sua teia de solidariedade é na verdade uma bolha.
De alguma forma, a brankkkitude sofre de um problema de autoimagem que a aliena, fazendo enxergar, tal qual Narciso, a sua centralidade como universal. O mundo é grande demais para ser monocromático. Caminhos éticos e filosóficos que questionam a universalidade e propõem outras formas e modos de existir são interessantes para essa mudança. Mas, primeiramente, é necessário que os pactuantes da brankkkitude estejam dispostos a participar desses outros modos de existência que promovam todas as forças vitais sem exceção, pois sabemos que é difícil renunciar a privilégios.
Como foi sua experiência na graduação e na pós-graduação? Em que medida isso se refletiu nas pesquisas que deram origem ao “Somos Sol Vivo”?
Ter entrado em 2003 na UFRJ aos 17 anos com um filho de três meses no colo para cursar Letras foi uma das experiências mais radicais da minha existência. E ter conseguido estudar, fazendo graduação, mestrado e doutorado de maneira ininterrupta, sem bolsa de fomento, trabalhando e maternando, de forma que em 2015 eu me tornei doutora em Literaturas Africanas na UFRJ aos 29 anos foi uma realização que reforça a minha profunda crença na educação.
Fiz vestibular grávida (na época o ENEM não era como atualmente), porque eu acreditava cegamente que se eu estudasse teria mais condições de vida para cuidar do meu filho. Mas para isso acontecer eu precisei contar com a força da minha família que nunca largou minha mão e fez de tudo para que meu sol brilhasse. Minha experiência na graduação foi boa. Sempre fui muito estudiosa e muito rapidamente me descobri pesquisadora interessada em Literaturas Africanas. Fiz uma graduação impecável na medida do possível. Na pós-graduação as coisas foram mais difíceis porque entrei definitivamente no mercado de trabalho para nos sustentar. A ausência de bolsas de fomento, o impedimento de fazer intercâmbio (Ciências sem fronteiras estava no auge), a falta de grana para comprar livros e participar de congressos marcaram minha experiência. Fora que a maternidade me trouxe uma maturidade que poucos colegas tinham. Isso sem falar que sou de uma geração anterior às cotas, que só chegaram na UFRJ em 2012.
Então eu vi e vivi os debates, os racismos e os classismos. Toda essa experiência também me ajudou a ser lúcida sobre que tipo de professora de graduação e pós graduação eu quero e eu não quero ser. Eu sempre fui uma excelente leitora e interessada nos temas contemporâneos. E toda essa bagagem confluiu para que eu passasse os últimos sete anos da minha vida escrevendo Somos Sol Vivo. A minha intenção com esse livro é lembrar a todos que nascemos para brilhar e que nossas humanidades não se negociam.
Somos Sol Vivo: Somos Sol Vivo: Ensaios Radicais Sobre Experiências da Vida
Aza Njeri
Harper Collins, 272 páginas, R$ 74,90
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