Marina Sena SP 2908 Unimed IanRassari
Foto: Ian Rassari/Divulgação.

Cobertura: Marina Sena sabe que nasceu para o palco e o Recife respondeu à altura

Em noite de ingressos esgotados, cantora transforma o Centro de Convenções em uma grande pista de dança e reafirma a força de “Coisas Naturais”

Sessions: Marina Sena — Ao Vivo em Recife
Pavilhão do Centro de Convenções, sexta (28/8)

Na noite da última sexta-feira (28), no Pavilhão do Centro de Convenções de Pernambuco, em Olinda, a cantora Marina Sena encontrou um Recife completamente disposto a se entregar ao seu universo. Com ingressos esgotados, o show da turnê Coisas Naturais, apresentado dentro do projeto Sessions: Marina Sena — Ao Vivo em Recife, transformou o espaço em uma espécie de organismo pulsante, onde música, dança, sensualidade e imagem se misturavam o tempo inteiro.

Não era apenas uma apresentação de repertório. E talvez seja justamente aí que esteja o principal mérito desta nova fase da turnê: a artista entendeu que, depois de conquistar o streaming e as pistas, precisava também dominar o palco.

Coisas Naturais é o terceiro álbum da cantora e, desde seu lançamento, consolidou uma fase mais expansiva de sua carreira. A nova turnê leva essa expansão para o campo visual. Figurinos, maquiagem, adereços, iluminação e coreografias trabalham juntos para criar uma personagem que não é exatamente outra Marina, mas uma versão ainda mais consciente da artista que ela vem construindo.

No Recife, essa proposta encontrou um público que já conhece os códigos de Marina. A resposta da plateia foi imediata: cada refrão parecia vir acompanhado de um coro, cada mudança de música provocava uma nova onda de gritos e cada movimento da cantora era recebido como parte de uma grande celebração coletiva.

E Marina sabe provocar. Há algo de deliberadamente teatral em sua presença de palco. A sensualidade, tão associada à sua persona, não aparece apenas como recurso estético. Ela funciona como linguagem. O corpo dança, provoca, brinca e ocupa espaço. A cantora não tenta parecer comportada, nem transformar sua performance em algo palatável demais. Pelo contrário: sua força está justamente na capacidade de sustentar o exagero. É uma artista pop que não tem medo de ser pop.

Ao mesmo tempo, existe uma contradição interessante no espetáculo. Quanto maior fica Marina Sena, mais ela parece interessada em preservar aquilo que há de espontâneo em sua música. Seu repertório continua atravessado por gêneros e referências que não obedecem a uma única fórmula. Pop, MPB, reggaeton, rock e funk convivem dentro desse universo sem que a cantora precise escolher uma identidade definitiva.

Essa liberdade é um dos grandes trunfos de Coisas Naturais. O repertório também funciona como uma espécie de linha do tempo da própria Marina. As canções do disco mais recente dividem espaço com músicas que ajudaram a transformar a cantora em um dos principais nomes do pop brasileiro contemporâneo. “Por Supuesto”, “Voltei Pra Mim” e “Mande Um Sinal” aparecem não apenas como lembranças de outras fases, mas como provas de que Marina conseguiu criar uma obra que permanece reconhecível mesmo quando sua estética muda.

E talvez esse seja um dos momentos mais interessantes de sua trajetória: Marina já não precisa escolher entre a artista que surgiu com De Primeira, a explosão de Vício Inerente e a cantora mais madura de Coisas Naturais. Tudo isso agora faz parte do mesmo corpo.

Existe uma dimensão física muito forte no espetáculo. Marina canta com o corpo inteiro. A dança não aparece como intervalo entre uma música e outra, tampouco como simples complemento visual. Ela está incorporada à própria interpretação. O palco vira extensão da música e a coreografia ajuda a construir sentidos que não estão necessariamente na letra.

É uma escolha importante porque evita que a cantora fique presa à figura da “boa intérprete” acompanhada por uma banda. Marina quer mais. Quer espetáculo. E consegue. Em alguns momentos, a apresentação parece flertar com a estética dos grandes shows pop internacionais. Mas existe uma brasilidade inquieta por baixo de tudo isso. Ela aparece nos ritmos, na maneira de movimentar o corpo, no humor, na sensualidade e principalmente na liberdade com que Marina mistura referências sem pedir licença.

O resultado não é exatamente sofisticado no sentido tradicional da palavra. É melhor: é vivo. Marina é uma estrela que já não precisa se apresentar. O mais curioso é perceber que ela parece ter ultrapassado aquela fase em que precisava convencer o público de que merecia estar ali. Ela já está ali. O que resta agora é descobrir o que fazer com o tamanho que conquistou.

Coisas Naturais responde a essa pergunta com uma proposta bastante clara: transformar a cantora em experiência. O álbum é importante, mas o palco amplia sua dimensão. As músicas ganham novos contornos quando acompanhadas pela imagem, pelo corpo e pela resposta da plateia.

No Recife, essa equação funcionou especialmente bem. A casa cheia não foi apenas um indicador de popularidade. Foi parte do espetáculo. O público cantava, dançava, gritava e devolvia para Marina a mesma energia que recebia do palco. Era difícil identificar onde terminava a performance e começava a festa. E essa talvez seja a melhor definição para a noite: um show que se comportou como festa, mas uma festa construída com a precisão de um espetáculo pop.

Antes e depois da apresentação principal, Totô de Babalong, Taj Ma House e os DJs Allana Marques, Davs e Pedro Afonsu ajudaram a manter essa atmosfera. A programação reforçou a proposta do Sessions de criar uma experiência que não dependesse exclusivamente do momento em que a atração principal subisse ao palco.

No fim, o que fica é a sensação de que Marina Sena está cada vez menos interessada em provar alguma coisa e cada vez mais interessada em brincar com o próprio tamanho. Ela já sabe que o público veio. Sabe que as músicas funcionam. Sabe que a imagem chama atenção. Agora, Marina parece querer descobrir até onde pode levar tudo isso. E, diante de um Centro de Convenções lotado, o Recife respondeu da maneira mais simples possível: dançando.

Marina Sena não apenas apresentou Coisas Naturais. Ela transformou o disco em corpo, movimento e festa. E mostrou que, no pop brasileiro de hoje, poucos artistas parecem tão confortáveis em transformar a própria presença em acontecimento.

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