TERESA CRISTINA FOTO NANA MORAES 1

Teresa Cristina assina a letra do seu Brasil em novo álbum: “Meu silêncio também é político. Então, eu prefiro falar”

Em seu primeiro álbum 100% autoral, a cantora soma suas palavras a um samba mulher

Foto: Nana Moraes/Divulgação

Teresa Cristina canta a Ogum, Yaba, à nostalgia e aos blocos de samba que cruzam a avenida fazendo carnaval. Depois de quase 30 anos de carreira emprestando a voz a versos de outros artistas, pela primeira vez a artista canta com palavras só suas. Em seu novo álbum Tudo que Eu Tenho, ela canta o Brasil em primeira pessoa. Com o primeiro trabalho totalmente autoral, a artista encara de frente as contradições de um Brasil diverso, ansioso e alegre.

A artista carioca lança o álbum que reúne dez composições de autoria própria, produzidas por Pretinho da Serrinha e com participação de nomes como Marisa Monte, Xande de Pilares, Moacyr Luz e Mosquito. A inspiração vem da necessidade de somar e de firmar seu lugar, afinal, para ela, o silêncio “também é político, então eu prefiro falar.”

“Me solte em qualquer rua, eu canto/ Impeça o meu cantar, eu grito/Também posso calar, se assim eu desejar/ […] / Presente a me tirar da cama/ Passado quer me dar rasteira/ […] / Olha eu aqui de novo/ Eu daqui saio mais não”, avisa Teresa Cristina na faixa-título do álbum.

Em entrevista à Revista O Grito!, Teresa Cristina fala da força de cantar samba, do que muda quando o verso é seu, da urgência de compor diante de um país com tantos desafios e da saudade que carrega do Nordeste, quase dez anos depois de sua última passagem por Recife. A região, para ela, é resistência e gratidão: “Quando eu crio uma frase de indignação ou de contestação, ela tem um sotaque nordestino.”

CAPA TUDO QUE EU TENHO
“Tudo que Eu Tenho” tem produção musical e arranjos assinados por Pretinho da Serrinha. (Foto: Divulgação)

Confira a conversa completa:

Esse é seu primeiro trabalho 100% autoral. Qual é a diferença entre interpretar, produzir e assinar as músicas? O que muda nessa relação?

Quando a gente canta uma composição de outra pessoa, o que eu tenho para emprestar àquela música é a minha interpretação do verso e do que eu acho que o artista tentou dizer com aquilo que ele compôs. Só que é uma coisa muito pessoal; na maioria das vezes as músicas batem nas pessoas de maneiras distintas. Quando o que eu tô cantando foi feito por mim, eu sei muito bem o que eu pensei naquele momento em que estava compondo a música.

Então, a diferença é que eu vou dar ênfase a palavras ou a versos que falem diretamente comigo. Eu percebo isso às vezes quando vejo um compositor cantar uma música dele que foi gravada por outras pessoas: na hora que o compositor canta, ele não canta igual; canta um pouquinho diferente. Acho que tem a ver com isso, porque com aquele verso ali a gente tem mais intimidade. É claro que depois que a música fica pronta, a gente não tem mais posse; cada pessoa vai receber a música e o verso de uma maneira.

Como foi confiar esse repertório novo à produção e aos arranjos de outra pessoa, que foi Pretinho da Serrinha? Teve alguma música que mudou muito de forma entre a composição e o estúdio?

Eu não sei se a palavra é mudança. A maioria dos meus discos, a direção musical ficou por conta do Paulão Sete Cordas, mas o Pretinho me acompanha desde o meu primeiro álbum. É uma pessoa que eu conheço há muito tempo. E ele vem se tornando um grande produtor musical.

Até porque ele conhece todos os instrumentos, ele conhece a sonoridade dos instrumentos. O pretinho sabe muito bem que tipo de sonoridade vai casar com aquilo que ele está ouvindo naquele momento. Então é uma pessoa muito importante para esse álbum, sabe? Foi um parceiro que eu tive.

Meu bloco foi uma música que entrou aos 45 do segundo tempo e ele fez o arranjo da música em 20 minutos. É muito doido isso. Eu acho que isso é uma qualidade dele. É uma pessoa que vive o samba, que toca samba; ele não tá só no estúdio, ele tá no palco. Então, eu tive um aliado muito importante para botar essas músicas na rua. Fiquei muito feliz com o trabalho dele.

Além dele, tem alguns nomes bem ilustres, como Marisa Monte e Xande de Pilares. Como essas parcerias aconteceram e qual a importância delas para o que você queria passar no álbum?

São pessoas que são minhas amigas, e nesse momento em que eu lanço um álbum todo autoral, é muito importante também firmar essas parcerias.

Cada uma tem uma história, com a Marisa foi uma melodia que eu recebi e acabei musicando. No caso do Xande, eu tava fazendo uma música com o mosquito, então cada um fez um pedaço, o Xande chegou e fez a terceira parte. Também é um amigo querido que eu tenho um carinho gigante. Moacyr Luz tinha me dado a melodia de Abá na primeira década dos anos 2000, e eu fiquei com ela para fazer…

César Mendes me deu uma melodia linda, a melodia do refrão. Então eu fiz a música ao contrário, primeiro eu fiz o refrão, depois eu fui fazer a música da cabeça, do início. São amigos que a vida me deu, e eu acho muito importante lançar esse álbum com músicas minhas, mas também com músicas com parceria, porque eu acho que o discurso fica mais embasado.

Falando sobre a música que dá nome ao álbum, Tudo que Eu Tenho, você comentou que ela surgiu de muitas madrugadas em branco se preocupando com o Brasil. Como as injustiças e os acontecimentos do Brasil de hoje conversam com a sua música? Isso é algo que você busca conscientemente ou que simplesmente vai atravessando o que você escreve?

É uma música que nasceu de uma inquietação muito grande. Porque foi ali por 2013, quando o Brasil destampou um bueiro que nunca mais se tampou. E a gente não tem ideia do tipo de monstros que saem desse bueiro, porque cada hora é um monstro diferente.

Acho que o mundo tá um pouco assim, e “Tudo que Eu Tenho” é a minha arma contra tudo que tá acontecendo, porque é tanto sapo que a gente engole, é tanta coisa horrorosa que a gente vê, que a gente lê. Então, tem gente que eu já sei o que vai falar. Eu não ouço. Me faz mal. E ainda mais nesse ano, de uma das eleições mais importantes de nossas vidas. 

Eu aprendi quando criança sobre a interferência americana na política brasileira, e pensava que era uma coisa por debaixo dos panos, porque, no passado, era isso: a CIA mandava espiões… Agora é descarado, tá o filho do Bolsonaro nos Estados Unidos, jogando contra o Brasil, fazendo manifestação com bandeira dos Estados Unidos, pedindo multa, tarifa, pedindo para invadirem o país. É tudo muito absurdo, e a maneira que eu encontrei de não enlouquecer foi compor.

Compondo a cabeça acaba indo para outro lado e a gente tenta passar por essas situações de uma maneira mais leve, se é que é possível.

“O meu corpo, a minha presença, a minha cara, a minha voz, tudo isso é ato político. Quando eu faço uma música ou quando eu lanço um disco, esse gesto por si só já traz uma carga política muito forte. Porque eu optei pelo não silêncio.

Teresa Cristina

Qual é para você o espaço do samba, do teu samba, no contexto político? Que força carrega e quem e o que mobiliza?

O samba é político. A arte em geral, até o não posicionamento, também é político. O meu silêncio também é político. Então, eu prefiro falar.

Antes, nós sabíamos dos problemas depois; tínhamos essa distância de tempo para entender tudo o que aconteceu de ruim. Hoje em dia se sabe na hora. Isso deixa a gente mais nervoso, numa situação diferente, mas nos compele a agir, a fazer alguma coisa.

E eu acho que o meu corpo, a minha presença, a minha cara, a minha voz, tudo isso é ato político. Quando eu faço uma música ou quando eu lanço um disco, esse gesto por si só já traz uma carga política muito forte. Porque eu optei pelo não silêncio.

Em 2020 você virou a rainha das lives, com transmissões diárias com Chico Buarque, Caetano Veloso, Mônica Salmaso e as Domingueiras cantando com a sua mãe, que é a Dona Hilda. O que ficou para você daquele período das lives? Você acha que impactou de alguma maneira sua relação com a música ou com quem ouve sua música?

Eu acho que entregou a minha arte para pessoas que não me conheciam, mas a minha relação com a música continua a mesma. Eu fiz o que eu fiz porque eu tinha certeza de que a música brasileira merecia ser reverenciada e eu precisava falar de alguma coisa que distraísse um pouco as pessoas do que estava acontecendo.

A gente passou por dias muito terríveis, por situações catastróficas de mãos atadas. A gente não podia ir para a rua, a gente não podia se mobilizar para nada, e a gente estava com uma pessoa completamente doida, fora da casinha, tomando conta do Brasil, representando o Brasil. Justamente o Brasil, um país onde a saúde é uma questão pública. Nós temos o SUS, que é invejado no mundo inteiro, e nós não conseguimos entrar na fila antecipada para distribuir vacina para uma doença que matou tanta gente.

Então, eu precisava fazer alguma coisa para distrair as pessoas e distrair a mim também. Porque foi muito difícil acordar todos os dias sabendo quantas pessoas estavam morrendo, eu fiquei muito preocupada com a minha família, minha mãe, minha filha, meus irmãos, meus parentes. Muita gente ficou assim.

E por essa preocupação extrema, por essa onda de morte, de tristeza, eu achava que as pessoas mereciam um alento, mereciam um carinho. E o preço desse alento foi adentrar a cultura brasileira, que foi o quintal, o jardim onde eu passeei. Tentei mostrar às pessoas que “olha, eu sei que tá ruim, eu sei que tá triste, mas olha só que coisa bonita, olha só que música linda.”

Mergulhando nessas pesquisas por músicas, eu passava o dia sem ter que me indignar porque o presidente mandou um ministro negociar a vacina numa churrascaria, ou porque ele debochou da morte, que chegou a 700.000, ou porque ele debochou de uma pessoa que estava com problemas para respirar.

Eu precisava ter esse escape para poder me reencontrar comigo mesma. Eu vi muitos artistas deprimidos, sem saber o que fazer. Para mim, a melhor maneira foi essa: conversar com as pessoas e cantar. Todo dia eu cantava.  Era como se eu fizesse um show por dia durante um ano, e eu me portava como se eu estivesse indo pro palco mesmo. Eu trocava meu figurino, me maquiava, passava perfume, fazia o roteiro e cantava por noite em torno de 30 a 40 músicas. Foi aquilo que me segurou, porque eu não sei o que seria de mim.

“Tendo em vista as últimas eleições no Brasil, eu tenho uma gratidão muito grande pelo Nordeste, muito grande. Quando eu crio uma frase de indignação ou de contestação, ela tem um sotaque nordestino

Teresa Cristina

Depois de décadas interpretando nos palcos, qual é a diferença ou qual é a expectativa agora de cantar um álbum todo seu e de compartilhar isso com o público?

É uma expectativa bem multifacetada. Tem insegurança, tem medo, tudo isso. Mas também tem coragem, ansiedade para que tudo dê certo, para que eu consiga falar do meu trabalho como compositora. Eu acho importante ser uma compositora de samba. Porque o samba é um lugar onde as mulheres são vistas por uma lente muito carregada, a maioria dos compositores são homens, então as mulheres são demonizadas, as mulheres são “seres do inferno, que fazem um homem sofrer, tadinho. Sofre muito por causa das mulheres”. E a mulher é pecadora, ela é leviana, ela é um montão de coisas.

E o que nós mulheres temos para falar dos homens? A gente tem tanta coisa… E a gente tem coisa para falar não só dos homens, mas da vida,  do país, da política, da natureza, do filho. Então eu fico feliz de ser mais uma mulher à disposição do discurso, do diálogo, da fala. A gente precisa denunciar o que tem que denunciar, a gente precisa louvar o que tem que louvar, tudo isso é necessário. 

E eu já tô ansiosa para esse show, porque o show também vai ser um show só com músicas minhas. E eu tô tão acostumada a cantar músicas de terceiros, e espero poder ficar à vontade nesse lugar de cantar em primeira pessoa.

Como você percebe essa nova geração de jovens que estão redescobrindo o samba? Nas rodas, nos festivais, nas redes sociais…

Eu acho que nós precisamos desse público. O samba precisa do público jovem, porque é assim que ele se renova. Todas as vezes em que o samba ia avançando, década por década, ele manteve esse frescor. É por isso que é um gênero musical que atravessou um século inteiro e tá atravessando outro com dignidade. Ele continua; ele não morre. Ele é a trilha sonora do Brasil.

Eu acho que o samba e o baião são a base da música brasileira. A partir dali a gente tem vários outros ritmos, vários outros gêneros. Mas eu fico muito feliz, muito feliz mesmo de ver o samba com novos fãs.

Quando eu comecei a cantar, o samba estava se renovando também, ali no final dos anos 90. E eu via muita garotada querendo tocar cavaquinho, tocando forró, baião, xote, querendo saber quem foi o Pixinguinha, quem foi o Luiz Gonzaga. Isso é muito importante porque é a raiz da nossa cultura. E eu acho que o samba sempre vai acolher e sempre vai abrir os braços para o novo. O samba nunca teve medo da novidade porque eu acho que ele é soberano; ele paira em cima.

“O samba é um lugar onde as mulheres são vistas por uma lente muito carregada. São ‘seres do inferno, que fazem um homem sofrer, tadinho’, pecadora, leviana. E o que nós mulheres temos para falar dos homens? A gente tem tanta coisa… Não só dos homens, mas da vida, do país, da política, da natureza, do filho. Então fico feliz de ser mais uma mulher à disposição do discurso, do diálogo, da fala

Teresa Cristina

Você comentou recentemente que não sobe num palco no Recife há 10 anos, desde o show em homenagem a Cartola. O que ficou dessa última passagem pela cidade? O Coco e o Frevo entram em “Tudo que Eu Tenho” de alguma maneira?

Eu botei um pouquinho de maracatu em Tudo que Eu Tenho, então tem um frescor pernambucano. Porque eu acho que, tendo em vista as últimas eleições no Brasil, eu tenho uma gratidão muito grande pelo Nordeste, muito grande. Quando eu crio uma frase de indignação ou de contestação, ela tem um sotaque nordestino. Não sei por que, não sei se é por conta da literatura, mas eu tenho isso na minha cabeça.

E o nordestino, além de ter essa coisa jovial, é genial também, com uma cabeça muito preparada para a sobrevivência. E isso não só sobrevivência na vida, não, mas sobrevivência na arte. Eu sinto uma saudade imensa de fazer shows no Nordeste. E é muito difícil para um artista como eu que não tem aporte financeiro rodar o país, mas todas as vezes que eu fui cantar em Recife, eu voltei para casa feliz. 

O meu início de turnê é no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Salvador. Foi o que eu consegui com as minhas pernas, mas eu espero que esses shows tenham uma boa repercussão para comover, para chegar até os olhos dos contratantes nordestinos e que eles peçam o meu show. É nisso que eu tenho focado as minhas orações nos últimos dias.

Qual é a sua música do coração nesse álbum? Qual música você mais gostou de fazer ou que ficou mais com você?

Eu demorei tanto tempo para lançar esse álbum, que eu tô me sentindo uma gata com 10 gatinhos. Se chegar alguém e falar: “Me dá um?” “Não”. Eu vou dar uma rosnada. Eu gosto de todas, por mais que essa resposta possa parecer uma resposta política, eu gosto de todas por motivos diferentes.

Se eu fosse escolher uma música, eu acho que seria injusta com as outras. A cada momento eu fico assim: “Ai, agora é essa, agora é essa, agora é essa”. Eu gosto muito de “Tudo que Eu Tenho”. Eu gosto muito de “Nostalgia”. Eu gosto muito de “abadá”. Eu gosto muito de “Notícia Boa”.

Eu acho que talvez “Tudo que Eu Tenho” e “Nostalgia”, por serem músicas que são só minhas, o disco nasceu dessas duas; essas duas foram o ponto de partida para esse álbum. Mas isso não quer dizer que eu goste mais dessas duas em detrimento das outras, não. Eu tô nesse momento meio tipo uma tigresa com seus filhotinhos, não consigo me desassociar de nenhuma delas.

Leia mais entrevistas