A saga do reencontro da banda feminina As Lunáticas é transformada em falso documentário e apresentada como telefilme em uma sessão gratuita no Cinema São Luiz, neste sábado (20), às 18h30. Nesta comédia roteirizada pelo diretor pernambucano Henrique Arruda, você acompanha o reencontro de Sharlene Summer (Sharlene Esse), Raquel Simpson, Suelanny Tigresa e Pérola Patrícia (Pérola Saymon) planejado pelo ex-empresário Gilberto Carrera (Gilberto Brito). Diretamente dos anos 1980, as quatro assumem o desafio de transformar a banda em um sucesso da década de 2020.
Originalmente exibida em formato de série pela TV Pernambuco ao longo de cinco domingos, o roteiro de As Lunáticas é adaptado para a tela do cinema. Com algumas diferenças, a proposta do enredo segue a mesma: para resgatar a música e sucesso relâmpago Amor do Futuro e viralizar, as quatro integrantes vão ter que modernizar o repertório, aprender a dançar brega funk com as músicas do MC Marley no Beat e, principalmente, se aguentar! Em entrevista à Revista O Grito!, Arruda explica: “para quem não assistiu: é família, então vai desde se amar até o se odiar profundamente. No caso das Lunáticas, elas têm essa brincadeira de não se suportarem”.

A comédia “ora trash, ora escrachada, ora clichê” diverte enquanto faz o público ter dúvidas sobre o que é realmente verdade ou ficção. Aí esta o ponto alto da narrativa, “quando as coisas são ficcionalizadas, a gente acaba de fato criando uma nova realidade”, reflete. A escolha pelo formato de falso documentário permite ao diretor brincar com os limites entre a experiência vivida pelas atrizes e os acontecimentos inventados para a trama. Não por acaso, os nomes reais são preservados e características da personalidade de cada integrante são incorporadas às personagens. “Até hoje eu acredito que a banda existe”, brinca o cineasta.
Vale lembrar que a dinâmica cômica de As Lunáticas é facilitada pela parceria entre o diretor e as artistas. Além de admirador do trabalho das artistas fora do audiovisual e reconhecedor da influência de cada no fortalecimento dos direitos LGBTIA+, Arruda e Sharlene têm produções como Os Últimos Romances do Mundo (2020), que leva a atriz a conquistar o Troféu Madame Satã de Atuação, e Amor By Nigth (2022) no repertório. Gravado entre 2022 e 2023, as Lunáticas concede a oportunidade do cineasta engatar na produção do documentário de depoimentos da vida das quatro atrizes, intitulado Filhas da Noite (2024).
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A estreia do telefilme também é acompanhada por um sentimento agridoce. As Lunáticas chega ao público após a morte de duas figuras centrais do projeto: Pérola Saymon e o ator e diretor teatral Gilberto Brito. Na vida real ambos se despediram antes de testemunhar a dimensão alcançada pela obra. “Está sendo uma alegria lançar, mas é um pouco agridoce porque eu realmente queria que esse momento fosse compartilhado com eles”, confessa.
A obra marca a estreia de Saymon no audiovisual na mesma medida que salvaguarda a última aparição de Brito diante das câmeras. Em meio ao humor e à atmosfera de falso documentário, o telefilme se converte em um tributo à vida e ao legado de duas estrelas que ajudaram a abrir caminhos para gerações de artistas, especialmente queers, em Pernambuco.
Sharlene Esse, a Musa de Marte de Henrique Arruda
A trajetória artística de, até então, quatro décadas e a participação no espetáculo É Tudo Verdade (2019) resultaram no título pelo qual Sharlene Esse é reconhecida: a Primeira Dama-Trans do Teatro Pernambucano. Referência consolidada nas cênicas, a artista está longe de esgotar as possibilidades da própria criatividade. Na contramão de um passado “que se negava a botar esse tipo de corpo [trans] nas produções”, relembra Sharlene em entrevista à Revista O Grito!, tem, finalmente, alcançado o espaço no audiovisual para revelar a versatilidade que também possui para a sétima arte.
Esse potencial se torna ainda mais evidente quando Sharlene dá vida a uma personagem pensada pelo diretor-fã que busca valorizar as múltiplas facetas dela enquanto multiartista. Como tem feito Arruda, com a pesquisa em torno do envelhecimento dos corpos LGBTQIA+ e as últimas produções cinematográficas estreladas por Sharlene. Nesse movimento, leva às telas trajetórias historicamente invisibilizadas.
“Henrique prioriza um elenco que já conhece a forma. Então ele já tem um personagem pensado na pessoa. Quando ele diz: ‘olhe, meu bem, eu tô pensando numa coisa para você bem diferente’. Eu digo: ‘que ótimo, vamos nos desafiar!’”, afirma Sharlene. A afirmação é uma demonstração da força que os trabalhos roteirizados por quem tem o elenco como referência possui. “Quando tem a confiança de ser aquilo que a pessoa que tá dirigindo quer, você recebe o desafio e o faz bem. E o que acontece? Alguém vem e fala: ‘ela merece um prêmio’”, acrescenta.
No caso de As Lunáticas, o fruto desse respeito mútuo é o retorno em forma de reconhecimento. A série transmitida semanalmente pela TV Pernambuco tem o enredo transformado em telefilme e data marcada para ser exibido no Cinema São Luiz. Não somente, a ficção extrapola a tela, uma vez que as atrizes recebem convites para encenar como integrantes de As Lunáticas na agenda cultural da cidade. A apresentação da banda na edição 2026 da Parada da Diversidade do Recife é um exemplo dessa expansão do universo ficcional para a vida real.
Além das veteranas Sharlene Esse, Suelanny Carvalho, e Raquel Simpson, a série também é estrelada por Fato Kaim, Pascoal Filizola, Matheus Arruda, e Ruby Nox, vencedora da segunda temporada do Drag Race Brasil. Já a trilha sonora é original e assinada pelo DJ e produtor musical Gino Batidão. A banda gravou três faixas inéditas, sendo elas ‘’Amor do Futuro’’, ‘’Amanhã Eu Faço um Hit’’, e ‘’O Passinho das Lunáticas’’, a última criada em parceria com o MC Marley no Beat, que além de produzir a faixa, também faz uma participação especial na série.
Junto ao convite para assistir As Lunáticas neste sábado (20), às 18h30, bem como assistir o último episódio da série exibida neste domingo (21), na TV Pernambuco, Arruda fala em nome da Comunidade LGBTQIA+ ao relembrar: “é preciso prestigiar e preservar a memória dessas mulheres que abriram tantas portas para a gente”.


