VIVO 76 ABERTURA RJ
Lírio Ferreira dirige Alceu Valença no doc "Vivo 76". (Foto: Divulgação).

Documentário “Vivo 76” traz os anos iniciais de Alceu Valença em meio ao fervo da psicodelia

Dirigido por Lírio Ferreira, o filme ganha exibições no In-Edit, em São Paulo, e na Mostra de Cinema de Ouro Preto, em Minas Gerais mostra os anos iniciais da carreira de Alceu Valença na década de 1970

Apesar da repressão da ditadura militar, a década de 1970 foi um período rico para a música popular brasileira. A resistência ao regime por meio da criação artística musical produziu frutos valiosos como a consolidação do tropicalismo, a realização de festivais e o surgimento de bandas e artistas que oxigenaram os ritmos tradicionais com novos arranjos e sonoridades.

Em Pernambuco não foi diferente e no caldeirão de sons que surgiu a que mais ferveu foi a música psicodélica. Os músicos mais representativos dessa vertente foram, entre outros, Marconi Notaro, Lula Côrtes, Zé Ramalho, Flaviola, Zé da Flauta e os componentes da banda Ave Sangria. Além desses nomes, o movimento influenciou outros nomes como é o caso do compositor e cantor Alceu Valença, cuja carreira desponta na mesma década e hoje é um dos artistas mais significativos da MPB.

E é esse despertar de Alceu no cenário musical brasileiro o mote do documentário Vivo 76, produção da Jurema Filmes e da Perdidas Ilusões, com direção de Lírio Ferreira, com produção associada da MV Produções, de Alceu Valença e Yanê Montenegro, e coprodução do Canal Brasil e da Globo News. 

A primeira exibição no Brasil aconteceu no É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, o maior evento cinematográfico dedicado ao gênero documental da América Latina. O filme participa do In-Edit, festival voltado exclusivamente para documentários musicais nesta terça (23/06) e em 27 de junho, Lírio Ferreira e Camila Valença levam Vivo 76 para o Cine OP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, em Minas Gerais.

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Fase psicodélica pouco conhecida de Alceu Valença ganha os holofotes. (Foto: Divulgação).

O filme mergulha nas memórias do cantor e compositor nascido em São Bento do Una, no agreste de Pernambuco, resgatando desde as histórias da sua infância e do seu amor pelo circo às viagens como estudante e advogado pelo Brasil, culminando com o efervescente período do início dos anos 1970 quando ele resolveu se dedicar inteiramente à música. A explosão criativa de Alceu culminou no icônico show Vou danado pra Catende, apresentado em 1975 no Teatro Tereza Raquel, no Rio de Janeiro, e eternizado no disco Vivo!, lançado no ano seguinte. 

Com 80 anos de idade e uma discografia intensa de cerca de 70 álbuns e inúmeros shows, para contar a vida de Alceu seria necessário uma série de muitos capítulos. Diante disso, a escolha de realizar um documentário focado nos seus primeiros anos de carreira foi acertadíssima. É o período realmente mais instigante e inventivo de sua trajetória.

Afinal, foi em seus anos iniciais que Alceu foi buscar inspiração no som da Banda de Pífanos de Caruaru, fez parceria com Jackson do Pandeiro, viveu a experiência como ator em A Noite do Espantalho (1974), de Sérgio Ricardo, filme rodado em Nova Jerusalém, e flertou com a psicodelia de outros artistas do Recife. O documentário mostra também a importância da amizade e parceria com Geraldo Azevedo, com quem teve a primeira experiência fonográfica ao lançarem juntos o disco Quadrafônico.

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Cena do longa Vivo 76, que segue rodando festivais. (Divulgação).

Boa parte do filme gira em torno do experimentalismo sonoro produzido por Alceu nessa fase de sua carreira, sobretudo em relação a música Vou Danado pra Catende, que causou grande impacto ao ser mostrada em 1975 no Festival Abertura produzido pela TV Globo. A banda que com ele subiu ao palco formada por Paulo Rafael e Ivinho nas guitarras, Zé Ramalho no violão, Lula Côrtes no tricórdio, Agrício Noya na percussão e Israel Semente na bateria, sintetizava o que de mais inventivo existia na música feita em Pernambuco na ocasião.

Para compor o documentário, além dos depoimentos do próprio Alceu e outros artistas e críticos musicais que com ele conviveram, Lírio Ferreira recorreu a uma minuciosa pesquisa audiovisual que dá ao filme um colorido especial. Imagens de arquivo com trechos de shows, entrevistas, cinejornais e filmes em super 8 de Jomard Muniz de Britto e Fernando Spencer, proporcionam ao espectador uma experiência sensorial e revelam a inquietação de Alceu e de como ele estava sintonizado com os acontecimentos da época.

Ferreira observa que apesar de ter como elemento chave o icônico show que lançou Alceu para todo o Brasil, “o filme é também sobre o disco e sobre a vida dele, mas basicamente é sobre a construção do personagem Alceu. Em algum momento do documentário, ele fala ‘eu sou uma pessoa muito tímida’ e acho que ele é mesmo, mas também é um palhaço, um louco, é gênio, é espantalho, é tímido, é menestrel e é menino pra caramba”. O projeto começou a ser idealizado em 2013 e coube a Cláudio Assis, Dillner Gomes e Lírio Ferreira a elaboração do roteiro, enquanto a produção ficou com Camila Valença e a produção executiva com Carol Ferreira.

Yanê Montenegro, esposa e produtora do cantor, conta que já tinha feito um estudo da obra do Alceu e constatado que havia uma demanda reprimida enorme para os discos desse período. “O filme nasceu desse desejo nosso de voltar a álbuns como Vivo! e narrar a história desse cantor que já nasceu descolonizado e pensando fora da caixa, com suas influências dos cantores e poetas do Vale do Pajeú, dos martelos agalopados, dos artistas circenses e de tudo que havia em São Bento do Una”. Um documento, portanto indispensável para a história da MPB.

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