Credito da foto de Mateus Guedes
Ediran e Idrian Fulni-ô, pai e filho, atores no Projeto YAATHE. (Foto: Mateus Guedes/Divulgação)

Projeto YAATHE: como o audiovisual fortalece a língua do povo indígena Fulni-ô

Em entrevista à Revista O Grito! roteirista Mateus Guedes e auxiliar de produção Waya Fulni-ô contam detalhes sobre projeto que explora formato videoaula para ensino da língua indígena yaathe

No desenvolvimento do conhecimento, o audiovisual assume um papel potencializador. De forma particular, o formato evoca emoções que somente a junção entre o sonoro e o visual é capaz de despertar. Dessa percepção, surge o Projeto YAATHE. Dentro da Aldeia Fulni-ô, localizada em Águas Belas, Agreste pernambucano, cinema e pedagogia são a base de uma metodologia experimental. O propósito? Fortalecer a preservação do idioma yaathe enquanto transmite o ensino da única língua indígena viva do Nordeste fora da Amazônia Legal para as novas gerações.

O passado de opressão justifica o presente de resistência da língua yaathe: após 500 anos de apagamento, resiste entre os aproximadamente 500 fluentes do povo Fulni-ô. Junto ao entendimento de que o idioma é essencial para a manutenção das tradições, o comprometimento em preservá-la se fortalece como hábito. Nas escolas, o estudo do yaathe faz parte da matriz curricular desde 2010 (Portaria SE/PE nº 9444, instituída em 23 de novembro).

Cada vez mais, a vontade tem sido tornar a fala do Yaathe rotina entre as crianças e a juventude Fulni-ô. Engajada nisso, a produtora pernambucana Tempoo, com pesquisa do produtor cultural Mateus Guedes, junto à doutora em linguística Fábia Fulni-ô, avança para a etapa prática da pesquisa que dá forma ao Projeto YAATHE. O resultado é uma videoaula piloto, que conta com versão acessível em libras, baseada no modo próprio de circulação do conhecimento ancestral Fulni-ô. O Roteiro e a direção também é de Guedes com produção executiva de Ana Sofia.

“A pesquisa busca novas formas de transmitir o ensino da língua, de traduzir essa metodologia do Yaathe para outras linguagens, da linguagem da música, da ilustração, da animação”, conta Mateus Guedes em entrevista à Revista O Grito!.

Visualmente, o enredo da videoaula conta com a participação de Idrian, criança Fulni-ô que protagoniza um dia a dia na aldeia. Em uma das cenas, o protagonista toma café da manhã junto a família e os pratos de comida que compõem a mesa têm os respectivos nomes, tanto em português como em yaathe, exibidos na tela. Os demais trechos do roteiro apresentam o almoço e o jantar, bem como os elementos da natureza onde Idrian brinca com os amigos. 

yaathe Credito da foto de Mateus Guedes
Família do protagonista Idrian em cena para o videoaula do Projeto YAATHE. (Foto: Mateus Guedes/Divulgação)

“A gente queria trabalhar uma videoaula de uma forma mais artística, mais livre, trabalhando a parte da emoção junto com a com a transmissão das palavras”, explica Guedes sobre o formato que busca ser uma tentativa de letrar, para além de alfabetizar. Em outras palavras, longe de ser reprodução técnica do yaathe, é um estímulo à compreensão mais ampla do cotidiano ao qual essas crianças estão inseridas. Na sala de aula, “o professor transmite o vídeo e a pronúncia pode ser trabalhada na hora da execução”, complementa.

Além disso, Guedes faz questão de destacar a participação da aldeia na produção: “enquanto eu trazia a parte da pesquisa, o povo Fulni-ô trouxe toda a parte do saber e da pesquisa da língua”. O conhecimento tradicional indígena de preservação do Yaathe é incorporado “de uma forma muito colaborativa e horizontal”, adiciona. 

Para os Fulni-ô, o audiovisual já era instrumento de manutenção

Uma das pontes que tornam o encontro entre o audiovisual e a pedagogia possível é o trabalho desenvolvido pelo Coletivo Fulni-ô de Cinema. Com atuação desde 2010, envolve a comunidade na documentação da cultura e da língua do povo Fulni-ô, baseados na tradição da produção audiovisual indígena voltada para a preservação do yaathe.

Nesse contexto, a participação do integrante do coletivo, Wayaty Ferreira de Sá (Waya Fulni-ô), assume uma posição importante nas etapas do Projeto YAATHE. Articulador, a participação das crianças e das famílias da aldeia são garantidas por Waya que destaca, também em entrevista à Revista O Grito!: “a pesquisa do Mateus colabora com os projetos do Coletivo Fulni-ô de Cinema nessa interação dos mais jovens com o Yaathe, para nossa língua não se perder em um futuro perto”.

Waya também compartilha: “quando eu assisti pela primeira vez senti a sensação de continuidade”. Mais especificamente, continuidade ao trabalho do pai, Hugo Fulni-ô, mestre em linguística, um dos idealizadores do Coletivo Fulni-ô e nome a frente da produção cinematográfica de salvaguarda da ancestralidade indígena.

O Projeto YAATHE segue em produção, o videoaula é um piloto e, neste momento, não tem data de lançamento para o público externo à Aldeia Fulni-ô. Para o futuro, o roteirista Mateus Guedes projeta a produção de um curta-metragem, bem como jogos tanto analógico como digital, voltado para o ensino do yaathe. Fiel ao propósito de garantir que a única língua indígena viva do Nordeste fora da Amazônia Legal continue verbalizada entre as próximas gerações Fulni-ô.

Acompanhe o trabalho de Waya Fulni-ô e da aldeia pela preservação do yaathe pelo perfil do Instagram.

Leia mais reportagens