Foto: Rafael Pavarotti/Divulgação.
A partir de hoje, a Revista O Grito! publica uma série de relatos pessoais, ensaios e ideias sobre Confessions II. Mais do que uma crítica do álbum, essa série busca compreender as interseções entre arte, política, memória e afetos a partir do novo trabalho da artista.
A grandeza de um grande artista se nota pela capacidade dele recontar a mesma história. Porque todos nós temos, basicamente, uma história só de vida.
O grande artista consegue contar aquela mesma história de uma forma diferente inúmeras vezes, e você sempre volta àquela história.
E Madonna sempre conta a mesma história, que é a mulher que tem a perda da mãe, que é traída pelo pai, porque o pai casa com outra pessoa, que foge de casa sozinha para uma grande cidade. É a que tem um conflito familiar, várias perdas amorosas e uma série de redescobertas ao longo do tempo (como a descoberta religiosa).
Madonna conta essa história o tempo inteiro na carreira dela. E eu acho que esse disco, o Confessions II, é onde ela melhor contou essa história, essa grande narrativa dela, que a gente já ouviu inúmeras vezes ao longo da carreira, mas embalada de formas muito diferentes, desde Like a Prayer.
Porque Like a Prayer é um disco de uma oração, é uma invocação. É esse é também um disco de invocação. O disco começa “Obrigado por ter vindo” (“thanks for coming”). É um disco que retorna aos traumas da família, aos amantes perdidos, retorna com a vontade de contar a história como tentativa de resolver um problema.
Interessante também ser Confessions “2”, porque quando você termina uma confissão, o que você escuta é: “vai embora e não peque mais”. Se você faz Confessions 2, é porque você voltou ao pecado. E você reza também para se sair do pecado.
E o Like a Prayer, ele termina com a música “Act of Contrition”, que é o ato de contrição. Na Igreja Católica depois da confissão, você não apenas escuta, “não peque mais”, mas você se compromete em mudar o seu futuro, pensando os erros que passou.
Pensando nessa forma de contar a história e com todo esse background, acredito que Confessions II é o grande disco de Madonna depois de Like a Prayer. O melhor em que ela contou sua própria história.
É uma coisa até perigosa de dizer, já que o disco saiu agora, mas eu penso a partir dessa perspectiva, porque quando se fala muito de Madonna, se fala muito de reinvenção. Tivemos o Ray of Light, o primeiro Confessions, que não tem confissões nenhuma, Music, que tem a vaqueira solitária, a guerrilheira de American Life. Mas nesse disco não, ela volta para contar aquela história da vida dela que ela já contou tão bem.
É interessante também que é um disco de retorno da própria história, em que ela volta para essa ideia da pista de dança. E a pista de dança é o, digamos, “lugar de fala”, o espaço que ela tem para voltar, porque foi sempre pra onde ela retornou desde que precisou se salvar, desde a fome no começo da carreira, quando ainda era ninguém em Nova York. É é também o lugar onde, aos 67 anos, quando o mundo dizia que Madonna não era mais relevante, em que ela demonstrou que é artista da cultura pop mais relevante que já existiu.
Schneider Carpeggiani é fã da Madonna e editor na Autêntica Contemporânea.
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