Festa Tarantina chega a sua 40ª edição celebrando o novo disco de Madonna

Nesta entrevista, o produtor Gibra Gomes revela os desafios para manter uma festa independente por quase uma década

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O lançamento de Confessions II é o mote da TARANTINA neste sábado (Foto: Divulgação)

Antes de as luzes acenderem, antes do primeiro refrão ser cantado em coro e antes de a pista explodir ao som de uma diva pop, existe uma ideia: criar um lugar onde as pessoas possam dançar, celebrar e existir livremente. Foi desse desejo que nasceu a Tarantina, festa que, ao longo de quase dez anos, atravessou diferentes fases da noite recifense e se consolidou como uma das experiências mais marcantes da cultura pop na cidade.

Hoje, prestes a realizar sua 40ª edição dedicada a Madonna e ao aguardado Confessions II —, a festa olha para trás sem perder o foco no futuro. “A gente sempre quis fazer um rolê de qualidade, bem produzido, que acolha os nossos, que sirva de vitrine para artistas e que seja um espaço seguro e livre”, explica o DJ e produtor Gibran Gomes, residente e produtor da Tarantina. Junto com seus colegas Adriano Gomes e Ane Lima, Gomes está há quase uma década no comando do selo. Para eles, manter a Tarantina ativa também é uma forma de resistência em um cenário onde “cada vez mais vemos menos espaços assim”.

A consolidação da festa, no entanto, não aconteceu da noite para o dia. Segundo os organizadores, a grande virada veio em 2019, com a primeira edição de Halloween realizada no Catamaran. “Foi uma aposta e vimos que a festa tinha um grande potencial depois daquela edição”, lembra Gomes. Hoje, o evento reúne mais de duas mil pessoas e entrou definitivamente no calendário cultural da cidade.

Muito além da música, a Tarantina construiu uma comunidade, revelou artistas e fortaleceu a cena LGBTQIAPN+. “A Tarantina é feita por pessoas LGBTQIAPN+ para pessoas LGBTQIAPN+.” Mais do que promover a celebração, a festa se entende como uma plataforma para impulsionar artistas da comunidade, oferecendo visibilidade e oportunidades. “Entender a importância desse espaço é saber que podemos estar mudando a vida de uma pessoa quando a colocamos no nosso palco.”

Nesta entrevista, Gibra Gomes relembra a trajetória da Tarantina, falam sobre a evolução da cultura pop, os desafios de manter uma festa independente relevante por quase uma década e os planos para celebrar os dez anos do projeto em 2027. Confira:

A Tarantina se tornou uma das festas mais longevas e reconhecidas do Recife. Quando vocês perceberam que ela havia deixado de ser apenas uma festa para se tornar um fenômeno da cena local?

Obrigado pelo ‘fenômeno’ hahahaha. Acho que a virada de chave foi o Halloween que fizemos no Catamaran, em 2019. Naquele momento, era a nossa primeira TARANTINA em formato maior, pra mais de 1000 pessoas. Foi uma aposta e vimos que a festa tinha um grande potencial depois daquela edição. Hoje temos um Halloween que bate 2,2k pessoas por edição e está no calendário da cidade. Todo mundo espera por ele.

A próxima edição será especial em celebração à Madonna e o novo álbum Confessions II. Qual ignificado dessa edição e qual importância da cantora pra vocês?

Será a nossa edição número 40 e coincidiu de Madonna estar lançando um álbum pra as pistas. Celebrar esse número de edições junto ao Confessions II e aos 40 anos de carreira e legado de Madonna super encaixou. A mulher é simplesmente a rainha das pistas e tá com o público LGBTQIAPN+ lutando junto desde o começo. Devemos muito à MOTHER. Ela merece ser celebrada sempre. O Recife tem uma tradição muito forte ligada à música autoral e independente.

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O DJ e produtor Gibran Gomes. (Foto: Divulgação).

Como a Tarantina encontrou espaço apostando em gêneros como pop, indie, synthpop e, mais recentemente, hyperpop?

Recife sempre foi muito democrático também quando o assunto é cultura, música e etc. Desde que a gente frequenta a noite recifense, sempre existiram os “rolês mais alternativos” que tocavam esses estilos. Essas vertentes são as que a gente sempre consumiu na vida e, a partir dessas vivências na noite local, percebemos que existia esse espaço pra gente como nós. Então ter conquistado esse espaço, que na verdade sempre existiu de alguma forma, acabou sendo algo natural.

Ao longo dos anos, o conceito de “música pop” mudou bastante. Como a curadoria da festa acompanha essas transformações?

Não tem muito segredo. Nós acompanhamos as tendências musicais, os pedidos do público e TARANTINA tem “o seu som”. Um mixtape que dá match com a atmosfera da festa é o que a gente quer. Temos um link de curadoria no nosso perfil que a pessoa pode mandar suas mixtapes e estamos sempre de olho nesse ‘banco de DJs’. Nosso objetivo é encaixar pelo menos um DJ dessa curadoria por edição.

A Tarantina sempre teve uma relação forte com a cultura LGBTQIAPN+. Como vocês enxergam o papel da festa na construção de espaços de pertencimento e liberdade na cidade?

A TARANTINA é feita por pessoas LGBTQIAPN+ para pessoas LGBTQIAPN+. Além do fervo e celebração, a festa é uma plataforma para impulsionar artistas da nossa comunidade. Então, entender a importância desse espaço é saber que podemos estar mudando a vida de uma pessoa quando a colocamos no nosso palco. Dar essa visibilidade a artistas LGBTQIAPN+ é um dos nossos compromissos enquanto produtores, sem sombra de dúvidas.

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A TARANTINA é feita por pessoas LGBTQIAPN+ para pessoas LGBTQIAPN+ (Foto: Divulgação)

Quais artistas ou momentos da cultura pop ajudaram a moldar a identidade da Tarantina?

No ‘pré-TARANTINA’ quando eu, Gibran, estava criando a festa, sempre tive como uma das primeiras refs o clipe de Telephone, de Gaga com Beyoncé. Aquele tom de exagero meio camp, meio glam, meio quadrinhos sempre me fascinou. Depois de ser lançada, em 2017, a TARANTINA viveu muito aquele momento Anitta e Pabllo em Sua Cara, o boom do pop nacional que foi se moldando pra ser como é hoje também foi algo que marcou bastante o primeiro ano da festa. De maneira geral, as divas pop são as que dão o tom.

Vocês já passaram por diferentes espaços do Recife, do Armazém 14 ao Catamaran. Como a ocupação desses locais influencia a experiência da festa?

Uma festa grande obviamente vai demandar mais trabalho e custos, porém as pessoas parecem se animar mais quando o local é maior. É algo que a gente sempre notou no comportamento da galera. Temos um ‘termômetro’ no calendário de quais meses são mais favoráveis a uma festa pra mais de 1000 pessoas e quais meses são para festas de até 500 pessoas. Mas o que a gente prioriza em qualquer edição é trabalhar pra que a experiência do local seja confortável e a rotatividade ajuda a dar uma renovada ‘nos ares’ a cada TARANTINA.

O público da Tarantina mudou ao longo desses anos? Quem frequenta a festa hoje é muito diferente de quem estava lá nas primeiras edições?

Houve uma renovação nítida em boa parte do público desde que a TARANTINA abandonou os moldes de open bar. Não foi de uma hora pra outra, mas dá pra perceber olhando as fotos de 2019 e agora, por exemplo. Muita gente também migrou pra as festas mais eletrônicas, uma galera que ta começando a sair já está por aqui também e por aí vai. É o processo normal de uma festa que ta caminhando pro seu 10º ano em atividade.

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TARANTINA é feita por pessoas LGBTQIAPN+ para pessoas LGBTQIAPN+. (Foto: Divulgação).

Em um cenário de mudanças constantes na vida noturna, quais foram os maiores desafios para manter a festa ativa e relevante?

Os custos cada vez maiores de absolutamente tudo (tópico fixado); reeducar um público que estava acostumado a open bar por 50 reais (no nosso caso). Os locais em Recife são 8 ou 80. Ou é muito grande e muito caro ou é pequeno demais (tópico fixado); entender o comportamento da nova geração em relação às festas.

Como vocês observam a relação entre a Tarantina e o surgimento de novas festas e coletivos voltados para a cultura pop no Recife?

Já fomos modestos demais quanto à nossa influência na noite recifense, mas hoje a gente entende o peso que essa marca tem. Manter a relevância por tanto tempo é também servir de referência pra o que chega. Já aconteceu algumas vezes de outros produtores assumirem uma admiração, inspiração e motivação a partir da TARANTINA. Então, se for pra inspirar outros rolês pra que a nossa cidade continue pulsando e a nossa comunidade se fortalecendo, é um outro objetivo nosso sendo cumprido.

O que faz uma música funcionar na pista da Tarantina? Existe alguma fórmula ou o público continua surpreendendo vocês?

Uma música vai funcionar dependendo de vários fatores, não tem fórmula. O DJ tem que está ligado em muita coisa: se tal artista lançou música nova, se tem alguma outra música viralizada no momento, se é um clássico que envelheceu bem ou não, se a música anterior encaixa com a próxima… são inúmeros pontos. De fato não tem uma fórmula.

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Os DJ’s e produtores Gibran Gomes, Ane Lima e Adrianno Gomes. (Foto: Alan Rodrigues/Divulgação).

Como vocês definiriam a Tarantina para alguém que nunca foi a uma edição?

Surra de pop!

Depois de tantos anos de história, o que ainda move vocês a continuar produzindo a festa?

A gente sempre quis e quer tanto fazer um rolê de qualidade, bem produzido, que acolha os nossos, que sirva de vitrine pra artistas e que seja um espaço seguro e livre. Só que cada vez mais vemos menos espaços assim e com certeza isso acaba nos dando ainda mais força para resistir e fazer a coisa do jeito certo.

Olhando para o futuro, quais são os próximos desejos, desafios e possibilidades para a Tarantina dentro da cena cultural recifense?

Esperamos que grandes marcas se interessem e nos apoiem pelo que a gente vem construindo ao longo dos anos de forma independente. É um corre gigante sem apoio nenhum nesses anos todos. Em paralelo vamos manter o nosso foco em trazer entretenimento, arte e cultura para que o nosso palco continue servindo de plataforma para a nossa comunidade e queremos celebrar os 10 anos da TARANTINA em 2027 da forma como esse selo merece.

Se a trajetória da Tarantina pudesse ser resumida em três músicas, quais seriam e por quê?

Green Light – Lorde: sempre que toca na TARANTINA o povo vai à loucura. Também foi música de fundo no nosso aftermovie da primeira edição e marcou. Formation – Beyoncé: tocou tanto na nossa era Biruta Bar que se eu lembro daquele lugar eu já ouço os primeiros instrumentais dela. There Will Be Blood – Kim Petras: essa marcou o nosso primeiro grande Halloween e até hoje é indispensável em qualquer edição das bruxas.

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