A semana começou com reviravoltas na programação da 59ª edição do Festival de Cinema de Brasília. Nesta segunda-feira (10 de agosto), membros da organização do evento foram informados de que o festival seria cancelado por falta de recursos e que o governo do Distrito Federal não repassaria os R$ 3 milhões acordados para a realização do evento. O dinheiro vinha do seu principal patrocinador, o Banco de Brasília (BRB), que enfrenta a pior crise de sua história e não divulga balanços há um ano em razão de transações com o Banco Master. A produção do festival já vinha trabalhando sem receber desde março.
O Festival de Brasília é o mais antigo em funcionamento e não foi cancelado desde 1974, quando passou três anos sem acontecer em protesto à ditadura. Além disso, desde 2007 é considerado patrimônio imaterial do Distrito Federal. A edição de 2026 do Festival de Brasília recebeu número recorde de inscrições, com 1.928 filmes concorrendo a uma vaga e mais de 80 obras confirmadas. Depois do anúncio de cancelamento e da indignação geral da população, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão, confirmou em sua conta no X que o evento acontecerá entre 11 e 19 de setembro e que o orçamento será liberado.
Em nota pública, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) declarou seu repúdio ao caso:
“[…] a história do Festival de Brasília se confunde com a do cinema brasileiro. Ao longo de seis décadas, tornou-se um espaço de descoberta, debate, resistência e reflexão sobre a produção audiovisual do país, acompanhando suas transformações estéticas e políticas, além de contribuir para a formação de gerações de realizadores, críticos, pesquisadores e espectadores.
O cancelamento de uma edição por mau uso de recursos públicos não pode, portanto, ser tratado como a simples suspensão de um evento no calendário cultural. O Festival de Brasília é uma instituição do cinema brasileiro e uma política pública consolidada, cuja continuidade deve ser compreendida como responsabilidade do Estado.”
O descaso com a cultura atinge, inclusive, o Cine Brasília, local de realização do festival. O cinema é parte do projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer; foi inaugurado em 1960 e recebeu o título de “Patrimônio Mundial da Humanidade” em 1987. Em julho, faltavam pagamentos de pessoal e o cinema ameaçava fechar as portas.


