Com boa aceitação da crítica e prêmios em festivais nacionais e internacionais, está em cartaz no Cinema da Fundação o filme Apenas Coisas Boas, de Daniel Nolasco. O cineasta goiano vem se tornando uma referência no cinema queer brasileiro sobretudo depois de Vento Seco, realizado em 2020.
A exemplo do seu trabalho anterior, mais uma vez Nolasco conta uma história ambientada na zona rural do estado de Goiás, com um forasteiro chegando numa pequena localidade, ponto de partida para o surgimento de uma história de amor entre dois homens.
Apenas Coisas Boas é ousado em diversos sentidos, tanto do ponto de vista da trama, que explora a fantasia e o erotismo de forma aberta e sem recato, quanto pela narrativa, marcada por uma construção que abarca diversos gêneros cinematográficos e busca fugir de soluções óbvias.

Nesta conversa, Nolasco fala um pouco do seu processo criativo e aponta aspectos relevantes que o seu filme trabalha com vistas a provocar no espectador uma reflexão sobre os modelos de relacionamento homoafetivos e os dilemas éticos e morais que eles despertam.
O Grito! – Com dois longas com temática LGBTQIA+ você é apontado como um dos principais realizadores do cinema queer no Brasil. Isso aconteceu por acaso ou foi um caminho que você escolheu?
Daniel Nolasco – Acho que não foi, necessariamente, uma escolha consciente, mas comecei a fazer filmes com personagens e temáticas queer ainda na faculdade por serem questões que me interessam. Quando estava no segundo ano da faculdade de cinema, acompanhei pela primeira vez o Festival Brasileiro de Cinema Universitário. Era um festival que tinha nascido dentro do curso de cinema da Universidade Federal Fluminense e envolvia muito os estudantes. Na sessão de encerramento, quando estava assistindo aos últimos filmes daquela edição, percebi que, durante todo o festival, tinha visto apenas um ou outro filme com personagens LGBTQIA+s ou com temas que estavam em diálogo com a estética queer. Era um festival de cinema universitário, feito por pessoas em começo de carreira e, mesmo assim, quase todo heterocentrado, tanto os filmes, quanto os realizadores presentes. Essa falta foi um dos motivos que me levou a querer trabalhar com o cinema queer, de ter vontade de fazer filmes dentro desse universo.
Apenas Coisas Boas mostra o corpo gay sem acanhamento ou falso recato. A câmera quase toca na pele dos atores e o ato sexual é intenso e sem véus. No contexto do filme o que essa desinibição e naturalidade representam?
Toda a primeira parte de Apenas Coisas Boas é sobre a descoberta do amor, do desejo, do afeto. É um filme que trabalha com códigos bastante conhecidos do cinema romântico, principalmente, quando pensamos em histórias de amor gay. A frontalidade das cenas eróticas, de afeto, entre o Antonio e o Marcelo, faz parte dessa proposta de construção do romance entre eles, da sensorialidade dessa relação. O sexo, o erotismo, também são momentos em que mostramos a construção amorosa entre os dois personagens. O que o filme propõe é que esses momentos são fundamentais para o entendimento da história desses personagens.
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Ao construir uma trama em que boa parte da narrativa se estrutura em silêncios, em lacunas temporais e vai fundo na sensorialidade como um dos seus fios condutores, percebemos que o filme convoca o espectador a mergulhar na história se quiser realmente compreendê-la. Essa era sua intenção desde a escritura do roteiro ou foi algo que foi sendo descoberto na medida em que o filme foi sendo realizado?
A ideia de construir um filme muito silencioso, lacunar, e que propõe uma experiência mais sensorial e menos narrativa surgiu antes mesmo da escrita do roteiro, foi um dos fatores para se pensar a história e a escrita do argumento. Sempre tive o desejo de narrar uma história de amor gay que tivesse como cenário essas paisagens do cerrado goiano em que o tempo e o silêncio do campo fossem elementos presentes na narrativa e na construção estética. Eu nasci e passei toda a minha infância na região rural que é o cenário do filme, então as paisagens, os silêncios, que existem naquele lugar e nas relações entre as pessoas, a forma como é sentida a passagem do tempo, eram sensações e imagens muito presentes no meu imaginário e queria muito trazer isso para imersão no filme.
A paisagem e os espaços por onde circulam as personagens são elementos muito bem pontuados na trama. De que modo você pensou a articulação entre eles e o desenvolvimento das personagens, sobretudo Antônio e Marcelo?
Há poucos diálogos no filme, alguns dos personagens, principalmente o Antônio, são muito calados e não falam muito sobre si e sobre o que estão sentindo. Diante disso, a intenção foi construir a subjetividade desses personagens através de elementos estéticos, como a fotografia e a direção de arte. O Antônio da década de oitenta é um personagem que apesar de viver em um lugar conservador, não reprime e não tem vergonha dos seus sentimentos, e, por isso, a escolha de vários planos de paisagens com o horizonte quase infinito, os enquadramentos que sempre tem movimentos que ampliam a paisagem e o quadro. Também é solitário, e o silêncio na fazenda e durante o seu trabalho ajudam a criar esse sentimento de solidão. Já o Antônio dos dias contemporâneos, é uma pessoa que não soube lidar com tudo aquilo que viveu ao longo da vida, o apartamento que ele mora é cheio de móveis, objetos, um acúmulo de coisas que parecem dizer pouco sobre ele. A narrativa acontece quase toda dentro do apartamento, enclausurada naquela casa cheia de lembranças que ele quer desfazer. Essa ideia de tentar transpor esteticamente os sentimentos está em todos os elementos do filme, como na forma que decupamos as cenas, os movimentos de câmera ou no uso do zoom.

Sabendo que Goiás é considerado um estado muito conservador, qual foi o maior desafio para realizar um filme que mostra uma relação homoafetiva entre dois homens sertanejos, em um ambiente rural, de forma tão ousada?
O maior desafio continua sendo conseguir o financiamento, conseguir montar uma estrutura de produção para realizar o filme como foi planejado. O cinema goiano se beneficiou muito das políticas de descentralização da Ancine, mas essas foram acabando, pouco a pouco, desde o governo Temer. Quando fazemos o recorte para a produção do cinema queer em Goiás, as possibilidades de produção ficam ainda menores, porque é uma estética e uma temática que encontra certa resistência no Brasil e, mais ainda, em lugares conservadores como Goiás. Então há sempre um processo complexo de entender o filme que queremos fazer, nossas limitações orçamentárias, e como não deixar que elas se tornem proibitivas da perspectiva da viabilidade da produção.
Algumas críticas apontaram uma certa desconexão do roteiro, sobretudo pela existência de uma aparente falta de coesão entre a primeira metade da trama e a segunda parte. Você acha que isso realmente é um problema no filme?
Não, porque existe uma intencionalidade. A divisão do filme em duas partes tão distintas, tão distantes temporalmente, imageticamente e narrativamente, tem como intenção provocar uma frustração no espectador. A parte contemporânea que se passa em uma Goiânia sem horizontes graças aos seus arranhas-céus, tem a proposta de desconstruir e frustrar toda a expectativa da parte romântica e idílica estabelecida na primeira parte que se passa nos anos oitenta no interior rural. Ao fazer um filme em que a intenção da sua parte final é a frustração da espectatorialidade, se espera que a primeira reação seja achar que algo se perdeu, que o filme seguiu por caminhos desinteressantes. Podia ter sido bom. Acredito que esses sentimentos fazem parte da discussão proposta pelo filme sobre o imaginário do amor romântico na nossa sociedade.
Tanto Vento Seco (2020) quanto Apenas Coisas Boas têm a quebra da rotina com a chegada de um forasteiro como ponto de partida para o desenrolar da trama. Isso seria um processo natural para ambientes nos quais os desejos homoafetivos são duramente reprimidos?
Há no imaginário de cidades pequenas isoladas, que são distantes de centros urbanos, como Catalão e Campo Alegre,em Goiás, que o forasteiro é um personagem que representa o perigo, sentimento esse que nasce porque ele é o desconhecido. Um receio daquilo que se apresenta como novo, porque esse novo pode ser diferente e isso gera a tensão. Tanto Vento Seco, quanto Apenas Coisas Boas, o personagem do forasteiro desperta no protagonista o desejo, e é esse sentimento que vai tensionar as relações já tão bem estabelecidas e provocar a mudança. É desejo o que move a trama nos dois filmes e que levam os seus personagens a entrar em confronto com o lugar que eles sempre viveram.
Mesmo misturando gêneros, como é bem claro em Apenas Coisas Boas, nota-se nos seus filmes uma marca autoral tanto pela mise-en-scène quanto pelas escolhas estéticas que você faz. Conta um pouco como é o teu processo de criação.
Gosto muito de trabalhar com referências – de outros filmes, de fotografias, pinturas, textos literários. Um processo mesmo de bricolagem, de se apropriar de cenas, imagens, para construir o filme e transformar em algo novo e diferente. Essas referências são sempre compartilhadas com todos que estão trabalhando no filme e a partir delas vamos construindo as cenas. Considero a pré-produção uma etapa fundamental para a realização, porque é o momento em que muita coisa é definida. Acho importante chegar no set de filmagem e ter tudo definido e todos que estão trabalhando saberem como vai ser realizado cada cena. E trabalhar muito com referências ajuda nesse processo.

Sabemos que você já tem um novo filme em andamento. Daria para adiantar um pouco sobre ele?
O filme se chama Pequenas Tragédias. É um documentário que tem alguns elementos de ficção, ou um doc que se transforma em ficção. É sobre violência, ou, como falar dela sem reproduzi-la e sem tirar o peso que um ato de violência carrega. A narrativa tem alguns elementos biográficos e fala sobre a minha vida em Catalão e de algumas pessoas que eram próximas de mim quando morava lá. Também é um filme sobre a cidade e como ela afeta a vida das pessoas. Mas, também, é uma comédia.


