“Gravidade”, de Leo Tabosa, é o Melhor Longa Brasileiro de Ficção do RioLGBTQIA+ 2026

Com uma longa história de participação em edições anteriores, cineasta não esconde sua emoção de ter seu primeiro longa metragem premiado no festival

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"Gravidade" conta a história de uma mulher e sua filha, às vésperas do fim do mundo, presas em uma noite interminável na mansão da família. (Foto: Divulgação)

O pernambucano Leo Tabosa foi o vencedor do Festival RioLGBTQIA+ 2026 na categoria Melhor Longa Brasileiro de Ficção pelo filme Gravidade. Primeiro longa-metragem do diretor, o filme é um drama psicológico que nas palavras do próprio Tabosa “dialoga com o cinema fantástico”. A trama conta a história de uma mulher e sua filha, às vésperas do fim do mundo, presas em uma noite interminável na antiga mansão da família.

O elenco é composto por cinco grandes atrizes: Helena Ignez, Clarice Abujamra, Marcélia Cartaxo, Hermila Guedes e Danny Barbosa. Gravidade abriu o 35º Cine Ceará e foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Nesta conversa ele conta o processo de construção do filme, revela suas inspirações e as expectativas que tem com a carreira de sua obra daqui para frente.  

O Grito! – Você acaba de conquistar o prêmio de Melhor Longa de Ficção do RioLGBTQIA+. Qual a relevância desse prêmio para você e para a carreira do filme?

Leo Tabosa – Receber o prêmio de Melhor Longa de Ficção no RioLGBTQIA+ tem um significado muito especial para mim. Foi um dos primeiros festivais de cinema dos quais participei quando iniciei minha trajetória como cineasta. Desde então, o festival acolheu todos os meus filmes, acompanhando de perto minha evolução como realizador. Existe uma relação de carinho, confiança e pertencimento construída ao longo dos anos, por isso receber justamente desse festival um prêmio tão importante pelo meu primeiro longa-metragem é extremamente emocionante.

Além desse vínculo afetivo, acredito que o prêmio reafirma que Gravidade também dialoga para além da temática LGBTQIA+. É um filme sobre afetos, culpa, família, desejo de pertencimento e as escolhas que fazemos ao longo da vida. Esse reconhecimento fortalece a circulação da obra, amplia seu alcance junto a outros festivais e desperta o interesse do público. Todo prêmio abre portas, mas esse, em especial, representa também um gesto de continuidade: é como se um festival que acreditou em mim desde o começo estivesse agora celebrando um novo capítulo da minha trajetória como diretor.

Este é seu primeiro longa, mas não é seu primeiro prêmio. Você tem vários curtas premiados, todos com temática LGBTQIA+. Você não tem receio de ficar com sua produção restrita apenas a um nicho e ser classificado sempre como um cineasta gay?

Nunca enxerguei isso como uma limitação. Sou um cineasta LGBT e essa vivência inevitavelmente atravessa meu olhar sobre o mundo. Da mesma forma que diretores, independente da orientação sexual, levam para seus filmes suas experiências, referências e inquietações, eu também faço isso.

O que procuro evitar é que minhas histórias sejam reduzidas apenas à orientação sexual de seus personagens. Me interessam personagens complexos, contraditórios, cheios de humanidade. A sexualidade pode fazer parte deles, mas nunca é a única camada.

Também não tenho compromisso em filmar exclusivamente histórias LGBTQIA+. Tenho projetos de diferentes gêneros, do drama ao horror, passando pelo suspense e pelo fantástico. O que me interessa é contar boas histórias. Se elas dialogam com questões LGBTQIA+, ótimo. Se não dialogarem diretamente, continuarão sendo filmes feitos por um cineasta que carrega essa experiência de vida.

“Sou um cineasta LGBT
e essa vivência inevitavelmente
atravessa meu olhar sobre o mundo”

De onde surgiu a ideia do argumento de Gravidade?

Gravidade nasceu em 2017, antes mesmo de ser um filme. Sua origem está em uma peça de teatro homônima que escrevi movido pela necessidade de compreender o peso que as estruturas familiares, sociais e históricas exercem sobre os nossos corpos, especialmente sobre corpos dissidentes.

Durante esse processo, uma obra foi fundamental para mim: Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene O’Neill. Ela me mostrou que a casa pode ser mais do que um cenário; pode ser uma prisão psíquica, um espaço onde as relações familiares revelam suas maiores feridas. Essa percepção foi o ponto de partida.

Alguns anos depois, quando decidi transformar a peça em um longa-metragem, convidei o roteirista e cineasta cearense Arthur Leite, parceiro de todos os meus curtas-metragens, para adaptar o texto teatral para a linguagem cinematográfica. Arthur foi fundamental nesse processo de transposição, ampliando as possibilidades dramáticas da obra e ajudando a construir uma narrativa que explorasse melhor os recursos do cinema sem perder a essência da peça original.

A partir dessa adaptação, percebi que queria ir além do realismo. Passei a incorporar referências do realismo fantástico para construir uma narrativa em que o sobrenatural não representa uma fuga da realidade, mas uma maneira de revelar aquilo que normalmente permanece invisível: os traumas herdados, o racismo estrutural, o patriarcado, a transfobia e as marcas que atravessam gerações.

No fundo, Gravidade fala justamente sobre isso: como os fantasmas mais difíceis de enfrentar não são aqueles que vêm de fora, mas aqueles que nascem dentro da própria família.

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Filmar uma trama em huis clos não é uma tarefa fácil. Conta um pouco do processo de elaboração do roteiro, dos diálogos e da construção da mise-en-scène.

O maior desafio foi fazer com que o confinamento nunca significasse estagnação. Embora quase toda a narrativa aconteça dentro da mesma casa, eu queria que o espectador tivesse a sensação de que aquele espaço estava em constante transformação, acompanhando o estado emocional das personagens.

Desde o roteiro, os diálogos foram construídos muito mais pelos silêncios, pelos ressentimentos acumulados e pelos subtextos do que pelas informações objetivas. São personagens que passaram a vida escondendo sentimentos e segredos. Muitas vezes, aquilo que não é dito tem mais força do que a própria fala.

Na construção da mise-en-scène, pensamos a casa como um personagem vivo. Ela não é apenas um espaço físico, mas um organismo que guarda memórias, culpas e traumas. A arquitetura, os corredores, a piscina, a rachadura luminosa que surge na cozinha e até o antigo cinema encontrado por Lara fazem parte de uma dramaturgia visual que traduz emocionalmente o universo das personagens.

Busquei referências muito importantes para essa construção, como O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel, Melancolia, de Lars von Trier, Cidade dos Sonhos, de David Lynch, além da própria dramaturgia de Eugene O’Neill. Também me inspirei em realizadores brasileiros como Juliana Rojas, Marco Dutra, Gabriela Amaral Almeida e Petrus Cariry, cineastas que utilizam o fantástico para falar de questões profundamente humanas e sociais.

Meu interesse nunca foi fazer um filme de horror convencional. Em Gravidade, o horror não está nos monstros, mas nas estruturas de poder, na herança colonial, na violência familiar e na dificuldade que temos de romper ciclos históricos de opressão.

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Clarice Abujamra e Marcélia Cartaxo estão no elenco de “Gravidade. (Foto: Divulgação)

Você trabalhou com um grupo de atrizes muito fortes e expressivas, além de Hermila Guedes e Danny Barbosa, as veteranas Clarice Abujamra, Marcela Cartaxo e Helena Ignez. Como foi a convivência e o trabalho com elas?

Trabalhar com esse elenco foi um privilégio e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade. Reunir atrizes como Hermila Guedes, Marcélia Cartaxo, Clarice Abujamra e Helena Ignez, cada uma com uma trajetória tão marcante para o cinema brasileiro, exigiu um processo de preparação muito cuidadoso, baseado na escuta, na confiança e no respeito às singularidades de cada atriz.

Ao mesmo tempo, havia um sentimento de continuidade na minha trajetória. Eu já havia trabalhado com Marcélia Cartaxo no curta Nova Iorque, com Hermila Guedes em Nova Iorque e Dinho, e com Danny Barbosa em Cavalo Marinho. Essas parcerias anteriores criaram uma relação de confiança muito importante, permitindo que chegássemos ao set com um entendimento mútuo sobre o processo criativo e a construção das personagens.

Com Clarice Abujamra e Helena Ignez, foi uma experiência inédita e extremamente enriquecedora. São artistas que carregam uma história fundamental para o teatro e o cinema brasileiros, mas que chegaram ao projeto com enorme generosidade, abertas ao diálogo e à experimentação. 

O elenco de Gravidade reúne diferentes gerações, e acredito que essa diversidade fortalece o filme. Cada atriz trouxe um repertório muito próprio, e meu papel como diretor foi criar um ambiente onde todas essas vozes pudessem dialogar. Mais do que dirigir grandes atrizes, tive a oportunidade de aprender com elas. 

“Mais do que dirigir
grandes atrizes, tive a oportunidade
de aprender com elas”

Por sua trama densa e complexa, com toques de sobrenatural e um clima distópico, como você classificaria Gravidade e qual a sua expectativa em termos de circulação da obra nos cinemas?

Eu costumo dizer que Gravidade é um drama psicológico que dialoga com o cinema fantástico. Minha expectativa é que o filme encontre públicos diferentes. Ele pode circular tanto em festivais de cinema autoral quanto em mostras dedicadas ao fantástico ou ao cinema LGBTQIA+. Espero que consiga chegar também ao circuito comercial e posteriormente às plataformas de streaming, ampliando seu alcance. Acredito que seja um filme que convida o espectador a permanecer refletindo mesmo depois que a sessão termina.

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A atriz Danny Barbosa já trabalhou com o diretor no curta “Cavalo Marinho. (Foto: Divulgação)

Gravidade já foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e abriu o 35º Cine Ceará. Quais os próximos festivais que ele participará? Já tem data para estreia nas salas de cinema?

A trajetória de um filme é construída passo a passo e, neste momento, nosso principal objetivo é ampliar a circulação de Gravidade em festivais nacionais e internacionais. Estamos em negociação e aguardando a confirmação de participação em alguns festivais, por isso ainda não podemos divulgar os próximos destinos do filme.

Paralelamente, já estamos estruturando seu lançamento comercial, previsto para 2027. A distribuição será realizada pela Sereia Filmes, que tem à frente a produtora executiva Bárbara Cariry, uma profissional com ampla experiência na circulação de obras audiovisuais brasileiras. Ter a Sereia Filmes como parceira nos dá muita confiança para construir uma trajetória consistente para Gravidade, tanto no circuito de festivais quanto na sua chegada ao público.

Nossa expectativa é que o filme tenha um percurso sólido nas salas de cinema, alcançando diferentes regiões do país antes de seguir para outras janelas de exibição, como plataformas de streaming.

Lista dos vencedores do RioLGBTQIA+2026

Melhor Curta Rio – Uncanny Home, de Eric Bitencourt

Melhor Média – Tigreza, de Vinicius Eliziario

Melhor Curta Brasil (Júri Popular) – Vingança, de Mari Penteado e Eduardo Campos

Melhor Curta Brasil – Picumã, de Sladka Meduza

Melhor Curta Internacional (Júri Popular) – Salsa!, de Antonina Kerguelén

Melhor Curta Internacional – Corazón Danzante, Quando el Amor Es Baile, de Arturo Nicolas Dávila

Melhor Longa Internacional – What Will I Become?, de Lexie Bean, Logan Rozos

Melhor Longa (Júri Popular) – Trago Seu Amor, de Cláudia Castro

Melhor Longa Brasileiro Ficção – Gravidade, de Leo Tabosa

Melhor Longa Brasileiro Documentário – Copacabana, 4 de maio, de Allan Ribeiro