Marília Marz e Regiane Braz estreiam volume único de Em Ti Me Vejo, quadrinho que aborda a transição capilar

Título discute temas como racismo e padrões de beleza a partir da relação com o cabelo. Lançamento acontece na CCXP, em São Paulo, entre esta quinta (30) e domingo (3)

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Especial CCXP 2023

Uma história sobre transição capilar. É assim, em poucas palavras, que a HQ Em Ti Me Vejo pode ser resumida. Originalmente publicada em capítulos digitais, a obra chega agora aos leitores em volume único e impresso pela Conrad Editora, com páginas extras. O lançamento está entre as novidades que aportam na CCXP, em São Paulo, a partir desta quinta-feira (30).

Com desenhos de Marília Marz, o quadrinho traz roteiro assinado por Regiane Braz, que apresenta uma narrativa autobiográfica inspirada na relação com seu próprio cabelo. “A minha motivação em trazer ao mundo algo tão pessoal se deu pela necessidade de um grito mesmo, um desabafo, uma busca por autoconhecimento e cura”, explica a autora em entrevista à Revista O Grito!.

A concepção da obra aconteceu em um coletivo de quadrinistas negros, do qual ambas faziam parte. Para Marília Marz, o projeto foi a oportunidade de colocar em prática algo que nunca tinha feito, mas há muito tempo ansiava: quadrinizar uma história escrita por outra pessoa. “Por outro lado, a Regi também estava procurando alguém para desenhar o seu roteiro, então nossa parceria acabou sendo no momento certo”, comemora.

A história acompanha a protagonista Jaha, que inicia uma jornada em busca de si mesma quando se depara com a decisão de assumir seus fios crespos. A partir de então, a personagem passa a encarar novos sentimentos e revisitar situações de racismo vividas desde a infância até a vida adulta. Assim, discussões sobre padrões de beleza, pertencimento e a falta de oportunidades de trabalho são outros temas que também dão o tom da narrativa.

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Trecho da HQ Em Ti Me Vejo, de Regiane Braz e Marília Marz. (Foto: Divulgação/Conrad).

“Apesar do quadrinho partir das experiências pessoais da Regi, acredito que de certa forma essa vivência seja comum a diversas mulheres de cabelo cacheado e/ou crespo e ainda mais comum e cruel com mulheres negras, por conta da camada de racismo”, pontua Marília, que conta também ter alisado o cabelo por anos. “Porém sem entender na época os motivos reais que me levavam a isso — e, quando olhamos com atenção, esses motivos sempre são atravessados por raça.”

Para Regiane, discutir essas questões no gibi, por si só, envolveu um grande desafio. “Porque o autoconhecimento está ligado a nossa identidade, e, em uma sociedade que carrega em sua história o racismo e branqueamento da população como projetos políticos, tendo como estratégia de manutenção desse poder, o silenciamento e apagamento das historias dos povos indígenas e africanos, se torna muito difícil uma pessoa negra conseguir, entender, conhecer, reconhecer e assumir sua própria identidade”, reflete.

A expectativa é que mais mulheres possam se identificar com a trajetória da protagonista e refletir sobre os fatores por trás do alisamento, decisão que vai além da mera questão estética. “Apesar de ser doloroso acompanhar e desenhar diversas das situações vividas por Jaha, ela passa por uma jornada de autodescobrimento que eu considero muito interessante e completa (ainda mais agora com as páginas extras), por isso acredito muito no poder transformador e reflexivo da HQ”, finaliza a ilustradora.

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