Marjani Satrapi, quadrinista autora de “Persépolis”, morreu de tristeza aos 56

A artista franco-iraniana ficou mundialmente conhecida por sua obra autobiográfica durante a Revolução Islâmica no Irã. Até o fim, ela foi uma voz ativa contra a violência de gênero

Satrapi 1
Cena da animação "Persépolis" e a autora, Marjane Satrapi. (Foto: Divulgação/Reprodução/Instagram).

A quadrinista, cineasta, escritora e ativista franco-iraniana Marjane Satrapi morreu nesta quinta (04) aos 56 anos. Segundo comunicado enviado pela sua família à AFP, ela “morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida”.

Satrapi ficou mundialmente conhecida pela HQ Persépolis, um trabalho autobiográfico que conta a história de sua infância e adolescência em Teerã no período de transição na Revolução Islâmica e da Guerra Irã-Iraque. O quadrinho fez enorme sucesso e foi adaptado para os cinemas pela própria autora (em parceria com Vincent Paronnaud) e chegou a ser indicado ao Oscar de melhor animação em 2008.

O Palácio do Eliseu (residência oficial da Presidência francesa) emitiu nota sobre o falecimento de Satrapi. “Seu falecimento representa a perda de uma figura importante na cultura francesa e de uma artista profundamente comprometida com a liberdade, cujo trabalho carregava uma mensagem universal e lhe rendeu imenso reconhecimento internacional”, diz a nota.

O governo da França também emitiu declaração e afirmou que “o presidente da República e sua esposa prestam homenagem a uma grande artista que transformou a infância iraniana em uma fábula universal”.

A editora Companhia das Letras, que publica a obra da autora no Brasil, postou no Instagram um obituário da artista. “Ao longo de sua carreira, Satrapi recebeu importantes distinções internacionais e permaneceu uma voz ativa em defesa da democracia e dos direitos humanos. Sua obra continuará a inspirar leitores, artistas e pensadores em todo o mundo. Nos solidarizamos com amigos, familiares e leitores da autora.”

Crítica do regime do Irã, Marjane Satrapi mudou-se para a França em 1994 e conseguiu a nacionalidade francesa em 2006.

Ela seguiu como uma voz ativa contra o governo iraniano e foi bastante importante na divulgação do movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, que surgiu após a morte de Mahsa Amini, de 22 anos, espancada até a morte pela polícia iraniana em 2022. Ela foi detida por violar o código de vestimenta obrigatório para as mulheres no país. O caso gerou intensos protestos pelo Irã, que foram reprimidos com violência.

persepolis
Cena da HQ Persépolis. (Cia das Letras/Divulgação)

Em 2024, ela foi escolhida para criar as tapeçarias oficiais das Olimpíadas de Paris. “Finalmente sou considerada francesa”, disse à época. Em 2025, Satrapi recusou uma condecoração da Legião de Honra Francesa por conta da “hipocrisia do país em suas relações com o Irã”. Ela citou o fato de o governo dificultar a emissão de vistos para mulheres francesas que fugiam do Irã em busca de mais segurança na França.

Entre seus outros trabalhos estão o filme Radioactive, sobre Marie Curie (estrelado por Rosamund Pike) e a HQ Frango com Ameixas, sobre seu tio músico e a antologia de 2024 Mulher, Vida, Liberdade, seu retorno aos quadrinhos após 14 anos que traz uma série de artistas para narrar detalhes da morte de Mahsa Amini.

Desde a morte de seu marido, o Instagram de Satrapi consistia quase sempre de uma série de imagens que formavam a frase “pois perdi o amor da minha vida”, junto com a foto do marido e do anúncio da Fundação Cinematográfica Mattias e Marjane Ripa-Satrapi, dedicado a estudantes estrangeiros interessados em estudar cinema em Paris.