João Lucas Cavalcanti e Vitor Lima são dois jovens apaixonados pela arte circense. E dessa paixão surgiu a Cia Devir que está apresentando, mais uma vez, o espetáculo Isso não é um número de circo, um trabalho em processo que já teve versões precedentes, mas que, nessa temporada, no Teatro Hermilo Borba Filho, chega com uma roupagem renovada e vale muito a pena ser visto.
Com formação na Escola Nacional de Circo do Rio de Janeiro, entre as várias técnicas que passaram a dominar, João Lucas e Vitor se interessaram particularmente pela técnica das multicordas, um aparelho suspenso com várias cordas penduradas lado a lado e que amplia as possibilidades de acrobacias. E foi, a partir dos experimentos realizados com este equipamento, que em 2022 surgiu a ideia deles montarem um espetáculo no qual se mesclava a pesquisa de movimentos com os questionamentos da dupla sobre os limites do circo no imaginário coletivo.
Desde o início de suas carreiras João Lucas e Vitor veem o circo como um campo aberto de possibilidades estéticas capaz de desenvolver diálogos com outras linguagens artísticas como o teatro, a dança e a música. Com essa perspectiva, os dois foram acrescentando à proposta inicial novas camadas, burilando tanto as práticas circenses propriamente ditas, como a poética da encenação. Embora a perfeição dos movimentos e a destreza física sejam elementos valiosos do espetáculo, percebe-se claramente que eles compartilham um olhar mais contemporâneo sobre a arte circense, ou seja, vê-la também como um lugar de experimentação.
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Essa opção, por sua vez, traz reflexões que, com muita habilidade, foram introduzidas no texto do espetáculo e adicionam um elemento ao mesmo tempo divertido e didático para o espectador. “Ainda existe um imaginário muito fixo sobre o que é circo e nos interessa tensionar isso. Será que o circo é só o circo de lona? Nós respeitamos muito esse formato, mas não era o que nós pensávamos em fazer quando decidimos seguir a carreira como artista circense”, diz João Lucas.
A desconstrução da ideia da criação artística como uma prática hermética proposta pelos dois artistas, todavia, nem sempre é bem recebida. “Algumas pessoas de circo dizem que o que fazemos é teatro e não circo, e pessoas de teatro dizem o contrário: que fazemos circo, não teatro”, observa João Lucas. “Antes, a ideia de número de circo estava muito no formato, mas, hoje, enxergamos que o que queremos apresentar às pessoas é o tipo de circo que a Cia Devir faz, que tem a nossa cara, que expressa nossos desejos”, completa.

Evolução
A nova versão de Isso É não é um número de circo mantém o esqueleto do espetáculo, mas o recheio é mais robusto. “Esse trabalho, para a gente, é processual e está sempre em movimento. Desejamos brincar com o que pode o circo, como potencializar a linguagem, aproximando o público de novas perspectivas. É uma brincadeira, uma provocação, para mostrar que o circo pode ser muitas coisas e discutir muitos assuntos”, diz Vitor.
Para aperfeiçoar o trabalho, João Lucas e Vitor convidaram colaboradores, entre eles o encenador Marcelo Sena, que assumiu a dramaturgia junto à dupla. Figurinos, cenário e iluminação também ganharam novos contornos, potencializando os processos físicos e estéticos do espetáculo. “Para nós, é muito importante ter pessoas de fora para contribuírem com seus olhares e, a partir disso, aprofundar o circo que a gente quer apresentar”, acrescenta João Lucas.
Um dos aspectos interessantes do espetáculo é a espontaneidade com que os dois artistas se movimentam e atuam no palco. Apostar na inovação e na mistura de linguagens exigiu de João Lucas e Vitor uma preparação intensa de modo a atingir um equilíbrio cênico e uma performance que envolvesse o espectador. O resultado é uma apresentação com uma desenvoltura que contagia a todos. Na audição da semana passada, no último dia 15, além dos adultos, as inúmeras crianças presentes no Hermilo aplaudiam com entusiasmo os momentos das acrobacias nas cordas e deram grandes gargalhadas pelos diálogos irreverentes e brincadeiras protagonizadas pelos atores.
Entre os que já seguem a companhia há algum tempo e conheciam as versões anteriores, na conversa com os artistas após a apresentação, havia uma opinião unânime de que o espetáculo evoluiu, ganhou organicidade com João Lucas e Vitor mostrando-se mais seguros com seu desempenho. Isso, como revelam os dois atores, exigiu pesquisa meticulosa e também muito esforço porque, segundo eles, a arte circense no Brasil carece de referências, sobretudo com o que diz respeito ao circo contemporâneo.

“As companhias contemporâneas tanto na Europa quanto no Brasil usam o circo para falar de assuntos diversos, desde questões climáticas a problemas comportamentais e percebemos que, aqui, as pessoas ainda desconhecem muitos aspectos sobre a arte circense. Dessa forma queríamos, com este espetáculo, trazer esse conhecimento e formar público a partir do nosso olhar”, diz João Lucas.
Por conta da escolha do viés metalinguístico do espetáculo, a dupla se confrontou com outra fonte de debate entre os artistas de circo: o uso da palavra. Por sua características e o enorme valor que o corpo físico ocupa na sua prática, mesmo quem admite que expressões como o teatro e a dança já estão intrinsecamente integrados na linguagem circense, o uso de texto e falas é considerado prescindível. “Para tratar os temas que queríamos, tínhamos que fazer essa mistura e essa é a nossa intenção, que seja circo e teatro tudo juntos, e estamos felizes com isso”, finaliza João Lucas.
Quem quiser conhecer ou rever a nova versão de Isso não é um número de circo o espetáculo terá mais duas apresentações nesta quinta, 28 e sexta, 29 no Teatro Hermilo Borba Filho, às 19 horas. No dia 28 haverá uma palestra com um aprofundamento dos temas abordados no espetáculo e no dia 29 uma roda de conversa após a apresentação. A entrada é gratuita com distribuição do ingresso uma hora antes da sessão. O espetáculo tem incentivo do Funcultura por meio da Fundarpe e da Secretaria Estadual de Cultura.
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